Parceria entre policiais civis: mais que uma questão de segurança

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PARCERIA ENTRE POLICIAIS CIVIS: MAIS QUE UMA QUESTÃO DE SEGURANÇA

Por Yasmine C. V. Soares*

 

“Antigão”, “novato”, “especial”, “da especializada”, “de ‘x’ concurso”, “da diretoria”, etc., são falsas distinções, como subgraduações, ditas para tentar se diferenciar e engrandecer em uma categoria que, efetivamente, só é composta por Delegados, Agentes e Escrivães, com suas respectivas classes. Qual o problema desse comportamento? É forçar um distanciamento pessoal em uma instituição em que a união é crucial, isto às vezes significando questão de vida ou morte.

A polícia é um corpo. Um policial armado, sozinho tentando resolver uma confusão, é um perigo para si e para os outros.

É consenso que nenhum policial deve se arriscar sem apoio. Para evitar isso é que existem equipes, parceiros. A melhor correspondência que me ocorre para parceiro é com o partner da dança. A sincronia sendo perfeita, a atividade flui sem erros. Nessa afinação, a comunicação alcança níveis muito sutis: basta um certo olhar do outro e já se sabe o que este pretende, como vai agir.

Há quem goste e seja eficiente trabalhando sozinho, mas é exceção. Como pelo menos duas cabeças pensam melhor do que uma e como ninguém consegue guardar a própria retaguarda, a parceria é, em regra, sempre positiva. E os parceiros não precisam ter as mesmas habilidades. Um exemplo: grosso modo, uma equipe de agentes composta por um ótimo relator, por um grande investigador de rua e por um esplêndido pesquisador em rede, será uma equipe perfeita; já um grupo com três parceiros medianos, com as mesmas habilidades, será nada mais do que uma equipe mediana. Seja qual for a configuração, parcerias que dão certo, que têm empatia e produzem bem, deveriam ser mantidas.

Tim Dees, professor de justiça criminal e policial aposentado do Departamento de Polícia de Reno, em Nevada, diz, falando sobre a afinidade entre membros de uma equipe, que: “o vínculo entre parceiros […] pode ser tão forte como o mostrado nos filmes ou tão distante quanto o relacionamento que você possui com qualquer outro colega de trabalho. […] Podem se tornar amigos íntimos ou nunca se encontrarem fora do serviço, ainda que se deem bem juntos” 1. Mas é certo que deve haver um esforço para que a relação com essas pessoas, com quem você passa grande parte do seu tempo – todos os dias – seja agradável e de confiança mútua.

Partamos para uma perspectiva mais global. Quando um policial morre é que se sente a importância que tinha para cada um de nós. Aquele espírito de corpo, de que falei, grita dentro da gente. É como se tivessem matado um familiar, nos imaginamos na situação que o vitimou, ficamos indignados, sofremos com seu cônjuge e filhos. Por que essa empatia só aparece na tragédia? Por que não valorizamos nossos colegas enquanto estão conosco?

A profissão é arriscada, precisamos contar uns com os outros, se possível gostar uns dos outros. Pelo menos ter uma boa convivência profissional, dividir as responsabilidades e os riscos para ter maior segurança e poder de ação. Nas palavras de Ronald Curtis, capitão no condado de Lee, na Flórida, “a aplicação da lei não é um trabalho, é um chamado […] para assumir a tarefa assustadora de proteger a vida dos outros e ajudá-los sempre que pudermos”. E acrescenta: “sabemos que quando nós deixamos nossas casas para começar nossos turnos, talvez não voltemos”2. Essa imprevisibilidade já gera, ou deveria gerar, um vínculo de afinidade muito forte entre policiais (do mesmo modo que ocorre com os combatentes na guerra).

Diante de questões tão grandes, o que são aquelas subgraduações e outras miudezas irrelevantes? Lidamos com vida e morte; com a segurança, os bens e a liberdade das pessoas. É superimportante ser policial. A grandeza da profissão deve contribuir para nosso crescimento pessoal. Assim, a nossa atividade não deve ser um fardo, mas motivo de orgulho e prazer. Para isso, as relações pessoais também têm que favorecer.

Não quero chorar no enterro de heróis mortos, quero rir na convivência deles vivos, sem picuinhas nem desimportâncias. Partilhar, conviver, aprender. Me sentir segura junto com meus parceiros e saber que também contam comigo ao seu lado. Acredito que você também queira isso.

 

1 DEES, Tim. O vínculo entre os parceiros da polícia, como mostrado na televisão e nos filmes, é uma descrição precisa das relações reais dos parceiros da polícia? . Quora. 2013. [tradução livre]. Disponível em: <https://www.quora.com/Is-the-bond-between-police-partners-as-shown-in-television-and-movies-an-accurate-depiction-of-real-police-partner-relationships> . Acessado em 25 jan. 2018.

2 CURTIS, Ronald. Xerife Capitão fala sobre o vínculo entre os agentes da lei. Rasmussen College, 2013. [Tradução livre]. Disponível em: <http://www.rasmussen.edu/degrees/justice-studies/blog/sheriffs-captain-talks-bond-between-law-enforcement-officers/> . Acessado em 25 jan. 2018.

* Agente de Polícia de 1ª Classe, lotada na D.O.T.; formada em Direito e Educação Física; pós-graduada em Direito Civil e em Fisiologia do Exercício; co-autora do Manual do Relatório de Investigação Criminal, publicado online; agraciada pela Assembleia Legislativa do Estado de Goiás com a Medalha do Mérito Legislativo Pedro Ludovico Teixeira, pelos relevantes serviços prestados à Segurança Pública (2009).