A escassez da abundância

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Elevado discernimento revela Zygmunt Bauman, um dos mais perspicazes sociólogos em atividade, ao investigar o tão excitante quanto deprimente mundo atual, porquanto gerador de níveis de insegurança de vida, sempre e sempre maiores, quando diz: “A era da modernidade líquida em que vivemos – um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível – é fatal para nossa capacidade de amar, seja esse amor direcionado ao próximo, a nosso parceiro ou a nós mesmos”.

Trago esta reflexão imediatamente após ler a matéria de capa de O Popular (4/9) e a sempre lúcida e brilhante opinião de Cileide Alves na sua coluna domingueira. A manchete garrafal estampa uma incontroversa realidade – Droga piorou a vida em Goiás; e o artigo, já pelo título, incita o leitor a ampliar o seu juízo – Melancolia e drogas; e ambos – reportagem e artigo – convidam a todos a enxergar que a questão é muito mais complexa do que imagina a vã filosofia de muitos, como diria Shakespeare.

A matéria jornalística fala pelos dados que a embasam. Mostra que por trás das drogas e do tráfico há toda uma rede de crimes, perpetrados por cruéis, frios e calculistas traficantes que laboram em suas empresas-crime como qualquer negócio mercadológico; as estatísticas para eles são simples resenhas e gráficos que alimentam a lavagem do dinheiro apurado, não importa quantas vidas sejam ceifadas, quantas famílias desajustadas ou quantas almas penadas estejam sendo dilaceradas pela fissura da fumaça ou do pó infernal.

Acredito até que as estatísticas trazidas pela reportagem estejam subestimadas. Calculo que os números sejam ainda mais catastróficos: a Organização Mundial da Saúde (OMS) já detectou que temos em cada família brasileira, pelo menos um dependente químico de drogas lícitas ou ilícitas. Portanto, não bastam políticas dissociadas de uma visão dialética do problema; não basta a repressão policial, esta é imprescindível, mas deve vir acompanhada de programas estatais de prevenção e de tratamento ao dependente, como, aliás, pretende o Programa Ser Livre da Polícia Civil.

Do artigo já suscitado, ao se referir aos dados da OMS de que em 2020 a depressão será a segunda moléstia que mais roubará vida da população, perdendo apenas para as doenças do coração, cabe novo questionamento: o que é doença do coração ou o câncer, senão graves opressões e depressões da alma, com reflexos no corpo e no espírito e vice-versa?

Contudo, o que mais chama atenção, quiçá para um despertar da consciência social sobre as drogas, são as aguçadas afirmações expostas, pela percepção ampla e global de que o problema não é só uma questão de Estado, antes, é um problema da natureza humana, de uma educação ausente, de famílias mal-formadas. Há abundância de prazeres que passam e escassez de virtudes que ficam. Os diagnósticos ali destacados não nos deixam mentir: “Na nossa época, as ‘futilidades’ são, no mínimo, tão relevantes e tão necessárias quanto o pão em 1789…roubaram objetos que lhes eram necessários para existir, para ser ‘alguém’ no mundo” (Calligaris); “Estamos num mundo onde tudo é volátil, nada nos garante, a não ser saber de nós mesmos, do nosso desejo o suficiente para enfrentar os riscos das escolhas…” (Luciene Godói). Ou da própria jornalista Cileide Alves: “O crack propaga-se no terreno fértil deste tempo de ‘futilidades’ e da ‘era do gozo'”.

Finalmente, sem a falsa jactância de um profeta sem valor na sua terra, ouso afirmar que aludo todas essas agudas reflexões no meu último livro Olhai os lírios do campo: uma perspectiva cristã da contemporaneidade. Nele afirmo que a maior crise da humanidade hoje é a crise existencial da aparente abundância, com todos os seus fetiches materiais, mas do vazio da alma, que só o Cristo Eterno de Deus, com a sua proposta de amor infindo e multiforme graça, pode preencher em plena paz e na mais completa alegria.

Edemundo Dias de Oliveira Filho – Delegado Geral da Polícia Civil de Goiás e Presidente do Conselho Nacional dos Chefes de Polícia Civil do Brasil