A polícia e a glorificação da violência

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Edemundo Dias de Oliveira Filho

O crime provoca fascínio; o medo, estupor; a violência, glamour. Todos juntos, irmãos siameses, são a adrenalina favorita da sociedade do espetáculo. Nesse mundo cada vez mais midiático, privatizado e individualizado, é impossível viver sem tais sentimentos. O que fazer diante dessa catástrofe inescapável? Fugir ou enfrentar. O homem comum tem opções: isolamento ou engajamento. Mas para o homem de Estado, não há alternativa, só o engajamento resta, em denunciar com persistência tais fenômenos, para enfrentá-los com coragem cívica e moral.

 Não se trata aqui de condenar a ignorância nem o medo, nem a fuga a que o povo se vê coagido. Nesse ritmo, o isolamento autoinfligido do cidadão comum não pode ser considerado fruto da covardia, mas de uma fantasia inculcada, ao lado de tantas outras alegorias, ao se sentir ilusoriamente traído ou sensatamente enredado. Já a tarefa compulsória da qual o homem de Estado não pode abdicar, por dever de ofício, é um caminho longo e tortuoso que passa entre a consciência do problema e o vicário ministério de trazer à luz a reflexão verdadeira, para desnudar a complexa rede de elos causais entre as dores trazidas pela violência de fato e as condições coletivamente reproduzidas pela mídia.

“A ideia de que o mundo quer ser enganadotornou-se mais verdadeira do que, sem dúvida, jamais pretendeu ser” (Theodor Adorno e Max Horkheimer)

 Então, por dever de ofício é preciso dizer que o medo nunca será vencido pelo medo; que crime é um fenômeno complexo e polissêmico; que a violência gera violência e a desordem não só intimida o incauto cidadão como incentiva o infrator e gradualmente proporciona mais criminalidade; que a desordem se instala na tolerância com qualquer tipo de ilicitude, e na ausência do poder intimidatório do Estado: bares sem controle, sujeira em via pública, produtos piratas vendidos em calçadas em plena luz do dia, pichações, punguistas molestando pessoas, usuários de drogas espalhados pela cidade…

 É preciso dizer, ainda, que a segurança pública não é de responsabilidade exclusiva das polícias e que para se empreender políticas eficazes neste setor é fundamental que os governos desenvolvam e ampliem sua capacidade de gestão, de forma multidisciplinar, em educação, saúde, trabalho, lazer e assistência social.

 É preciso dizer mais: a instituição policial que prevalecerá no decorrer desse século deverá ir além da compreensão rasa da sua missão de combate ao crime, para aperfeiçoar o atendimento ao cidadão, com elevado senso de organização, treinamento e compromisso ético. No entanto, a polícia de hoje que se firmará no porvir será aquela que souber enfrentar a histeria da glorificação do medo e da violência e o seu nocivo impacto na qualidade de vida dos cidadãos de bem.

 Essa nova visão e missão das instituições policiais em compreender, enfrentar e vencer o impacto da mídia na percepção da violência exige recursos que vão além das armas tradicionais como pistolas, fuzis e metralhadoras, antes, conclamam o diálogo constante e a busca incansável da sua própria eficiência. Talvez isto possa causar perplexidade para alguns, que não conseguirem perceber essa questão como de altíssimo valor estratégico, devendo ser, por isso, encarada com paciência e persistência para sua mitigação, já que é impossível suprimi-la totalmente. Evidentemente, uma população sem medo acredita mais na sua polícia. Enfim, isto agregará, com certeza, valor institucional incomensurável para a polícia, inclusive em nível político.

Edemundo Dias de Oliveira Filho é delegado de polícia e pastor evangélico

Artigo publicado no jornal O Popular, edição de 03.12.11