Apreender a realidade

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Edemundo Dias

Apreender a realidade

A constituição da história de uma instituição se sustenta no conhecimento dela sobre a própria realidade, no contexto real ao qual ela está inserida, e na observação das experiências vivenciadas para a elaboração de cenários prospectivos de mais acertos e menos erros. Isso significa romper com o falseamento e a aplicação determinista dos fatos para o desenvolvimento de um pensamento elaborado e crítico.

É nesse esforço de apreender a própria realidade não abdicando da sua possibilidade de autonomia que a Agência Goiana de Execução Penal (Agsep), num ineditismo fundamental para a própria história, realizou um estudo sobre sua realidade e constatou revelações surpreendentes. Até então, a administração penitenciária tinha um conhecimento pouco explorado sobre os aspectos constitutivos da própria estrutura.

Os dados estatísticos da Agsep, que compõem o Programa Transparência Total da instituição, levantados junto às unidades prisionais, foram apresentados à imprensa e às autoridades da execução penal, no dia 15. Os gráficos revelam que houve, nos últimos três anos, um aumento do número de presos que respondem por crimes mais violentos como latrocínio e homicídio qualificado. Foram levantados mais de 30 itens sobre a realidade penitenciária no Estado, capazes de desenhar um retrato sobre qual é o perfil da população carcerária goiana.

Os dados suscitam, sobretudo, uma população carcerária jovem e viciada em drogas, que se por um lado assusta a todos, por outro aponta um terreno fértil rumo à compreensão dessa grande tragédia social contemporânea a que todos estamos inseridos.

Com efeito, a Agsep, ancoradora desses desvalidos sociais, vistos apenas como refugos humanos, no curso da desalienação do seu espectro institucional, revelou o que lhe era obscuro e passa a ter maior propriedade sobre a história da instituição. Para o governo, o conhecimento ora adquirido é riqueza para a exploração da inteligência estratégica e serve de sustentação para a elaboração de planejamentos sobre execução penal no Estado. Para os estudiosos, trata-se de um arcabouço de apreensão científica que desvela o objeto pesquisado. Para a sociedade, um estudo surpreendente sobre a população carcerária que tem. Para a Agsep, os levantamentos desmistificam concepções equivocadas que eram certezas da própria instituição.

Nesse sentido, a instituição já está se debruçando sobre os dados estatísticos, a fim de formular consciências desenvolvimentistas capazes de promover a transformação da realidade do sistema prisional goiano. Há urgência da Agsep em se atentar para as suas próprias contradições para, também, pensar as contradições do real em que está submetida, na tentativa de reverter a sua condição atual, que se agravou consideravelmente nos últimos anos.

EDEMUNDO DIAS DE OLIVEIRA FILHO é delegado de Polícia aposentado, pastor Evangélico e presidente da Agência Goiana de Execução Penal

 

Artigo publicado na edição de hoje, 31.08, de  O Popular