Autoritarismo e ódio não são remédios para os problemas neoliberais

531

AUTORITARISMO E ÓDIO NÃO SÃO REMÉDIOS PARA OS PROBLEMAS NEOLIBERAIS

Por Clodoaldo Bastos*

Nos últimos anos vemos o recrudescimento dos discursos autoritários no Brasil, discursos estes presos promiscuamente a uma ideologia que visualiza a democracia representativa burguesa como obstáculo, um muro incomensurável que limita, ou mesmo impede, ações mais enérgicas em relação à segurança pública. A imagem cinematográfica ligada a esse tipo de pensamento é a do filme, quase fascista, Tropa de Elite, com seu personagem autoritário e carismático Capitão Nascimento. Nessa película, a solução para os problemas de corrupção, violência e criminalidade são apenas o cárcere e a pena de morte encoberta pelo manto da legitimada de ações truculentas, mortíferas e desumanas.

Como não temos um pensamento único, há também as críticas a esse modo de ver a sociedade e seus problemas. Fora do maniqueísmo do Bem contra o Mal há aqueles que olham para esse amplo caleidoscópio da realidade de uma forma totalizante, não fitando apenas o que está no topo do edifício, mas todos os andares, o térreo e seus subsolos. Uma análise mais profunda passa pelo modo de produção da sociedade capitalista, com suas divisões em classes sociais, dominação e exploração, seguida de perto pela alienação no trabalho, pelas ideias dominantes da classe dominante com sua ideologia que inverte a realidade.

Nesse caminho chegamos à sociedade atual, onde temos o regime de acumulação integral do modo de produção capitalista, que surge nos anos oitenta tendo como características a desregulamentação do mundo do trabalho, que alguns chamam de flexibilização; estado neoliberal, que é um Estado mínimo para o social, educacional, saúde e máximo para os interesses dos empresários, banqueiros e demais aliados da burguesia. Ainda como característica do regime de acumulação integral temos também o neoimperialismo, que resulta do expansionismo dos países imperialistas, conhecido também como globalização – é a dominação e expansão dos tentáculos dos países mais desenvolvidos sobre a periferia levando a política neoliberal, suas mercadorias e capitais, ideologia e domínio político e militar.

O Brasil, como a maioria dos países, acabou adotando a política neoliberal e sendo arrastado para o regime de acumulação integral depois das crises do capitalismo mundial nas décadas de setenta e oitenta. Essa política levou a um maior empobrecimento da população, aumentou as desigualdades sociais, retirou investimentos sociais e acabou, tragicamente, levando a um aumento da violência, criminalidade e encarceramento que não resolveu o problema criminal, pelo contrário, como já dizia Foucault em Vigiar e Punir, depois que se instalou a prisão moderna a criminalidade só aumentou.

É nesse ambiente hostil com solo fértil para violência que brotam esses vegetais selvagens e espinhentos de criminalidade acompanhados de discursos de ódio, linchamentos, barbárie e apoio a ideias fascistas e autoritárias para combater o crime, a corrupção e o mal-estar da modernidade “pós-moderna”. Se acompanharmos a história de nossa pátria constataremos que estamos sob a égide da força, da violência estatal, da desigualdade socioeconômica desde o início da República, para não falar desde o início da colonização. Esse país civilizado, mas grávido de barbárie, gestou em seu ventre conspurcado de autoritarismo as favelas no início do século XX, em pleno regime militar (1964-1985) viu o crime se alastrar pelas periferias, deu espaço para o nascimento do narcotráfico; e ainda no regime militar criou uma das fases de maior desigualdade social dentro de um dos períodos de maior crescimento econômico pós-1968, com o milagre econômico. O filme Cidade de Deus é um exemplo disso.

Logo, podemos afirmar que ditaduras não resolvem o problema, pelo contrário, podem intensificar a asfixia desse desoxigenado país, porém temos que concordar que a democracia representativa burguesa neoliberal também não é a solução, mas parte do foco de violência atual. Temos que lutar por melhor igualdade social, melhor distribuição de renda, fim da exclusão, dominação e exploração no mundo do trabalho, por uma polícia mais cidadã e efetiva, e por investimento em educação que inclua mais pessoas do que o excludente encarceramento.

* Agente de Polícia Civil da 1ª classe, graduado em história (UEG), mestrando em sociologia(UFG); nas horas vagas cinéfilo e blogueiro (http://clodoaldobastos.blogspot.com.br/).