Carísssimo ladrão, já levaram tudo!

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Norton Luiz Ferreira

Caríssimo ladrão, já levaram tudo!

De tanto ser vítima de ladrões, um morador de um bairro nobre de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, escreveu no muro da sua casa: “Caríssimo ladrão, nesta casa não tem mais nada para roubar. Já levaram tudo. Parabéns pela eficiência!” O desabafo do morador rodou o mundo, pois a foto da sua residência, com a escrita no muro, circulou pela internet. A eficiência abordada talvez tenha sido pelo fato de a residência tantas vezes invadida ser protegida, como mostra a foto, por cerca elétrica e toda a parafernália de segurança que o direito trata como ofendículos. De nada adiantou. O ladrão foi lá assim mesmo e buscou o que deu conta de carregar.

As pessoas não estão seguras nem mesmo em casa. A sensação de impotência da vítima paulista ficou latente na sua mensagem. Só faltou pedir clemência ao ladrão para que lhe poupasse durante um tempo, o suficiente para que ele pudesse reunir condições para comprar de novo tudo o que levaram da sua família.

O quadro de segurança brasileiro é caótico, ineficiente e injusto, principalmente com os que podem menos financeiramente e estão mais vulneráveis aos ataques marginais. Quem tem um padrão de vida melhor se refugia em condomínios dotados de segurança tecnológica e humana, ou mesmo faz opção por apartamentos igualmente seguros. Não plenamente, é claro, considerando que hoje nada tem garantia absoluta em se tratando de segurança. Mas a casta dos ricos e bem vigiados consegue aos menos ter uma boa noite de sono, coisa que moradores de outros padrões de moradia não têm há muito tempo.

O ladrão, quando não consegue alcançar o seu alvo por seus próprios méritos, o faz na companhia do morador, depois de uma abordagem quando este está saindo ou chegando em casa. As ocorrências de roubos com esse modus operandi viraram rotina. Se restassem apenas as consequências da perda patrimonial não seria tão desastroso. A coação moral sofrida pelas vítimas, geralmente pais e filhos, e muitas vezes violentadas em sua integridade física, é o que mais dói e deixa a sensação de que está tudo perdido. Os traumas jamais desaparecem.

Em sua edição de terça-feira, O POPULAR apresentou dados alarmantes, a partir de informações da Secretaria da Segurança Pública e Justiça, sobre roubos a residências em Goiás. Mesmo com as ações de prevenção da PM e investigação da Polícia Civil, intensificadas, os bandidos não se intimidaram e praticaram 494 roubos. Destes, conforme os números, 102 só em Goiânia, e o período catalogado é entre janeiro e junho. O aumento foi de 16% em relação a igual período de 2011. Aqui temos também nossas vítimas, talvez não tão criativas como o morador paulista. O que não difere um do outro é a dor que a ação do bandido provoca, a sensação de impotência diante de tanta ousadia e o questionamento: até quando?

Quantos mais terão de seguir o exemplo do morador de Ribeirão Preto para desabafar? Ele não quis simplesmente dizer ao ladrão que não tinha mais nada para ser levado da sua casa. No recado veio embutido um apelo, o desabafo de que o povo já não aguenta mais tanta injustiça e a certeza da impunidade para os crimes praticados. O morador de Ribeirão Preto deu seu recado na medida certa. De quantas outras provas de falta de segurança este País ainda precisa para tomar vergonha e tratar o bandido como bandido?

Norton Luiz Ferreira é delegado de polícia

 

Artigo publicado na edição de hoje, dia 30/08, de  O Popular