Círculo vicioso do crime: trauma que mata

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Jesseir Coelho de Alcântara

Círculo vicioso do crime: trauma que mata

Bandidos impunes, população descrente; polícia ineficiente, poucos casos chegam ao Poder Judiciário; penas brandas, criminosos soltos; denúncia fraca, justiça lenta e suspeitos livres. Esse é um círculo vicioso que vemos todos os dias e não é novidade para ninguém. Isso gera um enorme trauma para a sociedade e cria uma cicatriz na alma das vítimas numa situação calamitosa. Para milhões de brasileiros nunca termina o terror. O problema crucial é quando isso vira um ciclo.

Goiânia não escapa desse vício nefasto e registra recorde de assassinatos no ano em curso, quase todos ligados ao uso e envolvimento de drogas, apesar do esforço hercúleo das autoridades em combater.

“A situação do nosso País é alarmante: é muito baixa a elucidação dos crimes e, com isso, a impunidade se torna incentivo ao delito”, afirmou o Ministro da Justiça. Isso é extremamente preocupante, mormente partindo de um representante do governo federal. Enquanto isso, impera o clima de desobediência às leis e reina na mente dos infratores e criminosos a ideia da impunidade, que os levará a cometer mais e mais infrações e crimes.

O delito está ditando o comportamento dos brasileiros e as pessoas estão deixando de sair de casa no período noturno por temor. O medo tomou conta também dos goianienses devido ao crescimento de roubos de veículos, arrastões em estabelecimentos comerciais, homicídios e tráfico de drogas. Mapear o crime é considerado por especialistas um ponto elementar para melhor combatê-lo. A notificação dos ilícitos por parte dos ofendidos é fundamental para mapeá-los.

Uma grande questão é que o círculo aumenta porque os crimes estão na zona de conforto. Isso significa que a própria vítima colabora para o resultado. Muitas andam expostas e são atacadas quando estão nas proximidades de sua casa e estão relaxadas e despreocupadas. Algumas, porque como são usuárias de entorpecentes e não pagam a dívida da compra dos produtos, certamente sabem que pagarão o débito com a própria vida. Outras, deixam de fazer o registro de ocorrência na polícia por desacreditar que serão solucionados os crimes ou por receio de enfrentar a burocracia das delegacias e/ou exposição pública.

É preciso aprimorar e modernizar as instituições de investigação criminal, desde a polícia civil até o Poder Judiciário. Políticas públicas, como educação e conscientização, necessitam de seriedade, aplicabilidade e efetividade. De modo geral, os serviços na área de segurança pública se mostram ineficazes e ineficientes.

Assim, as curvas decrescentes dos crimes, nas estatísticas, precisam mudar de posição e  cair na prática. Entretanto, carecem de sair do papel e da verborreia e ter ações mais contundentes para solapar esse círculo vicioso do crime. Deixar de ser trauma que mata, para ser desejo cumprido, que é árvore da vida.

Jesseir Coelho de Alcântara é Juiz de Direito