Civilização e bárbarie

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Delegada Gildeci Marinho

Desde os tempos imemoriais, o ser humano trava uma luta feroz consigo mesmo na busca da superação de seus instintos primitivos. Normas de sobrevivência tribais, mito e religião foram constituídos como balizadores da ordem social, servindo como referenciais para a humanidade em seu longo e doloroso processo civilizatório. O homem é o lobo do homem, famoso ditado latino, traduz com cruel realismo a supremacia da violência entre os instintos que constituem o comportamento humano.

A violência ainda persiste como marca indelével do homem. O exemplo máximo desse instinto de (auto)destruição foi a Segunda Guerra Mundial, cuja poeira ainda não se assentou. O conflito causou uma devastação material, ambiental e moral jamais vista, deixando um rastro de milhões de cadáveres. A irracionalidade foi aos píncaros e duas bombas atômicas foram lançadas sobre populações civis.

O rearranjo do pós-guerra levou à constituição da Organização das Nações Unidas (ONU) que, numa tentativa de recolocar a humanidade nos trilhos do processo civilizatório, proclamou, em 10 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos que estabeleceu diretrizes sobre as quais o mundo livre deveria se pautar para propiciar os direitos humanos fundamentais, a dignidade das pessoas e a igualdade de direitos dos homens e das mulheres como “fundamentos da liberdade, da justiça e da paz no mundo”.

Desde então, inúmeras tentativas têm sido feitas para aprimorar o respeito mútuo e as relações entre as pessoas. Uma dessas tentativas foi a instituição do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher (25 de novembro). Portanto, apenas duas semanas separam duas datas comemorativas da mais alta relevância para a instauração de novos patamares nas relações entre as pessoas, especialmente entre homens e mulheres.

O desenvolvimento econômico não foi acompanhado pelo desenvolvimento humano. A semente do mundo novo ainda não conseguiu germinar efetivamente, sufocada pela preponderância de costumes do mundo velho.

 Mas, a luta pela valorização da mulher não é uma seara exclusivamente feminina. No livro A Soma e o Resto , lançado neste final de ano, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fala de seu envolvimento com ações voltadas, no Brasil e no mundo, ao combate à discriminação contra as mulheres. A erradicação das práticas que negam a dignidade das mulheres, diz o ex-presidente, “implica mudanças de valores e comportamentos, vale dizer uma mudança de cultura” e, mais, que “o mundo do futuro vai ter que ser um mundo da tolerância, de aceitação do outro”. Que essas duas efemérides renovem o compromisso de solidificar as relações de respeito mútuo e de corresponsabilidade na construção de um novo porvir pautado pela harmonia entre homens, mulheres e a natureza.

Gildeci Marinho é delegada de polícia

Publicado em O Popular – edição de 13.12.11