Coisas nostras?

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A corrupção não é uma invenção brasileira,
mas a impunidade é uma coisa muito nossa.”

(Jô Soares)

Apesar de cotidianamente cercados por medos, angústias, felicidade, amor e fé, entre tantos sentimentos e acontecimentos rotineiros, são curiosamente incontáveis os sabores e dissabores que marcam verdadeira e profundamente os seres humanos.

Em Olhai os Lírios do Campo: Uma Perspectiva Cristã da Contemporaneidade (livro de minha autoria cuja publicação está prevista para este mês — 23/08), afirmo que, apesar de a modernidade ter trazido soluções a incontáveis problemas em diversas áreas da sociedade, falhou, contudo, ao dar sentido à existência, ao exterminar a miséria, violência, poluição, drogas, corrupção… Falhou, ainda, ao obliterar de nossa jornada universal a solidão e a ansiedade.

Protagonizada por todo tipo de desigualdade, a era hodierna do medo, principalmente no Brasil, fortifica suas raízes e, de modo sorrateiro, tem comandado nossas vidas de forma exacerbadamente naturalizada. Tem nos dominado ao ponto de esquecermos que há, sim, algo de positivo no medo. Se moderado, pode atuar como depurador de nossas experiências vivenciais históricas.

Genitora da era do medo, a insegurança se alastra e toma conta das cidades. Instituições que operariam em prol da justiça e deveriam proteger o cidadão têm sido, nos dias de hoje, as principais causas de nos sentirmos inseguros.

Atual, o escândalo de corrupção denunciado dentro do exército brasileiro é um exemplo disso. A mais respeitada força armada nacional, nossa frente de batalha (o último front da ética), agora envolta em fraudes e irregularidades. Daí, não é mesmo de se espantar por que os nossos valores morais estão assim tão fragilizados.

Como um homem há mais de 30 no serviço público, com extensa dedicação às áreas de Segurança Pública e Justiça, a mim essas constatações ainda causam ojeriza, imaginem ao cidadão comum, avesso a perscrutar continuamente essas áreas.

A corrupção, com as propriedades lesivas de um ácido letal, deteriora o Estado, e, claro, tudo que nele há. Rememorando Rousseau, em O Contrato Social, há duas vias pelas quais um governo degenera: a retração do Estado, ou sua dissolução. No que tange à segunda, ainda segundo o mestre do iluminismo, uma das maneiras para que isso ocorra é a formação de outro Estado plasmado dentro dele mesmo, composto por membros do governo a quem interessa usurpa-lhe a soberania. Isso ocorrido, o pacto social se rompe e aos simples cidadãos é, sequencialmente, também usurpada sua liberdade natural, forçando a obediência cega. Em miudos: a corrupção é um dos mais potentes ácidos que corroem nossa almejada plenitude democrática.

Na página oficial do Exército na web, a síntese de seus deveres e valores: “Probidade – pautar a vida, como soldado e cidadão, pela honradez, honestidade e pelo senso de justiça”. Pura desolação minha, e, acredito, também do povo brasileiro.

Que me perdoe o Jô Soares, mas corrupção e impunidade são irmãs siamesas. Contudo, mesmo diante da atuação leniente de muitos, nego-me a aceitar que essas duas degenerações éticas foram institucionalizadas e que fazem parte dos costumes dos brasileiros e que jamais serão desterrados da nossa história. Com a palavra o próprio Exército Brasileiro.

Edemundo Dias de Oliveira Filho – Delegado Geral da Polícia Civil de Goiás e Presidente do Conselho Nacional dos Chefes de Polícia Civil do Brasil