Crack, o drama da alma

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Edemundo Dias de Oliveria Filho

Eles não se enquadram nas descrições e proposições de Charles Baudelaire ou mesmo de Walter Benjamin. Os flâneurs da pós-modernidade – que deveriam atuar como detetives da cidade a vagar em ócio pelas ruas, embevecidos tão somente pelas infinitas possibilidades de significações urbanas e humanas – vagam, em ócio, sob marquises, pelas calçadas e logradouros baldios e ínferos, estuporados por um dos piores males deste século: o crack.

Um bom observador da realidade, na qual está inserido, já percebeu o quanto as ruas da cidade estão cheias de andarilhos, a maioria adultos e jovens, com aspectos físicos semelhantes. São bastante magros, sujos, rasgados e de olhos perdidos. Estão visivelmente sob o efeito de alguma droga, possivelmente, o crack. Caminham sem rumo certo, às vezes, em grupos ou sozinhos. Eles tomam a direção dos veículos, andam no meio da rua, atravessam as avenidas sem atenção. Estão completamente à margem da sociedade e da realidade. Parecem zumbis ambulantes que passam pelos carros e pessoas como um algo qualquer. Eles somem de casa por vários dias, e, às vezes, retornam rasgados, famintos, machucados, envergonhados… As famílias estão perdendo cada vez mais seus filhos para as drogas e, dessa vez, com o aparecimento do crack, a novidade são as ruas cheias de pais e mães de famílias que deixaram seus lares e estão completamente reféns da droga. Hoje, eles se juntam aos andarilhos mais antigos, ou seja, os menores em situação de risco. Eles querem socorro!

Nesse contexto, os órfãos do crack, aqueles que estão em casa à espera da mãe ou do pai viciados, ainda correm o risco de virarem mercadoria no comércio do crack. No Parque Amazônia em Goiânia, na segunda-feira, dia 9, a mãe tentou trocar a filha recém-nascida por 20 reais de pedras de crack. Ela daria a filha a um traficante em troca de uma porção da droga. A família dela se disse envergonhada. Mas, antes de julgar a mãe, é preciso observar que ela não mais opera com a razão, já tendo a sua racionalidade completamente destruída e tomada pela vontade do consumo da droga.

Para o combate incisivo desse mal que tem dizimado milhares dos nossos, faz-se necessária a atuação em três frentes de mobilização: prevenção, repressão e tratamento. Primeira frente de ação, a prevenção deve voltar-se para a formação educacional, a fim de alcançar crianças, jovens e adultos. Na repressão, a atuação estatal deve buscar o desbaratamento das grandes quadrilhas organizadas, ao criar leis fortes, claras e efetivas, e investindo na área de segurança pública. A terceira frente, tratamento, compõe medida de caráter final e sanador. Para tanto, a criação de clínicas especializadas em desintoxicação e reintegração do dependente químico completaria o ciclo, dando maior efetividade às ações de mobilização.

Lastimavelmente, sem conseguirmos concretizar esses três passos, por essas paragens haverá, de fato, um mundo irrefreado, totalmente adulterado. Começando pela conotação que desenvolvemos para o termo flâneur… Se antes eram poetas, hoje são flanelinhas. Se antes eram olhos que funcionavam como janelas da alma, hoje são elementos espúrios da sociedade. Os dias de hoje nos têm servido para adulterar, ainda, muito mais que bombas de combustível e apetrechos materiais; nos têm adulterado o ideal ressocializador, e, ainda pior, nossas concepções humanísticas.

Nas linhas de um texto como este é latente o estado de catarse, definido pelo pensador Aristóteles como o estado da alma a partir de uma descarga emocional provocada por um drama. As palavras parecem não mais alcançar a complexidade que a realidade revela. Mas, a capacidade de indignação de um povo não pode ser perdida e é preciso sair do estado de catarse e estabelecer soluções práticas. Esta é uma responsabilidade da sociedade e dos governos.

Fonte: O Popular