Educar para a vida

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Geralda Ferraz

Num passado não muito distante, os parâmetros da educação de nossas crianças tinham suas bases fundamentadas nos valores transmitidos pelos pais. Eles eram os modelos. Ensinavam o que era permitido ou não. Colocavam limites. Demonstravam com seus exemplos do dia a dia o que era ser honesto, verdadeiro, humano. O que era ter caráter. Respeito às pessoas, aos mestres. Não se admitia exageros. As crianças eram disciplinadas, até mesmo num olhar mais insistente do pai ou da mãe. As palavras em muitos casos eram desnecessárias, principalmente naquelas situações em que os pequenos sabiam que tinham extrapolado os limites da boa educação.

A crise atual de valores baseia-se no excesso de informações, na sensação de bem-estar com as facilidades proporcionadas pela lógica do consumo, e principalmente pela ausência de ações educativas imbuídas de valores humanos – que têm como modelo os pais – ou pela inversão destes. A falta de limites, a falta de norteadores éticos, a falta de exemplos altruístas de pais que não têm compromisso com a verdade, com a honestidade e que são adeptos da Lei de Gerson – aquele que gosta de levar vantagem em tudo – delineiam características de grande parte dos nossos jovens.

Hoje nos deparamos com uma juventude que pensa poder tudo, e vez ou outra depara-se com problemas, consequências dos excessos. Desconhece o significado da palavra “não”. Tem dificuldade e não aceita as experiências frustrantes da vida, que por vezes nos leva a maturidade, e, diante de qualquer situação adversa, age de forma intempestiva, sem medir as consequências. Demonstra comportamento que reporta a criança birrenta. Voluntarioso, pensa e vive como se fosse o centro do universo, não enxerga nada além do próprio umbigo. Não conhece regras e normas de convivência em grupo.

Não é uma constatação difícil, basta um olhar mais atento de quem convive diariamente com o dilema dos pais na condução da educação de seus filhos. São dois aspectos que merecem ser analisados: o sentimento de culpa que pode levar a uma educação permissiva e a atitude negligente que pode representar a ausência de educação.

Tanto na educação permissiva, quanto na educação ausente, as crianças aprendem a enxergar a vida de forma egoísta, como se todos estivessem à disposição delas. A educação permissiva geralmente se dá em virtude da ausência dos pais. Os filhos são educados e criados pelas babás – a presencial e a eletrônica. As crianças crescem num ambiente de muitas vontades atendidas com presentes – para compensarem as faltas do dia a dia. Já na educação ausente, prevalece um outro tipo de negligência – em nome de uma relação onde a criança é vista como um ser diferente na perspectiva de ser “melhor” do que as demais crianças, elas são tratadas como “príncipes” e/ou “princesas”. Permite-se tudo, as regras não são definidas. Não há espaço para o convívio solidário. Neste tipo de educação os pais acabam tornando-se, escravos dos filhos.

Quando nos reportamos ao problema social que atinge nossos jovens na atualidade, dificilmente relacionamos com a educação recebida ou a falta dela. Cabe aos pais pensar no futuro que eles querem para seus filho(a)s, e adotar uma postura diferente a partir do hoje, baseada no valor maior: o amor. Que as crianças ensinem e aprendam a dar e receber; que respeitem a si próprios e os outros; que saibam o significado de viver em grupo; que saibam partilhar, serem solidários; que tenham compromisso e responsabilidade com as suas atitudes. Que os pais entendam definitivamente: não podemos privar as crianças dos desafios da frustração, pois ao serem privadas desta experiência, elas perdem a oportunidade de amadurecer e tornarem jovens saudáveis, seguros e prontos para a vida.

Geralda da Cunha Teixeira Ferraz é escrivã da Polícia, educadora e radialista(graduada pela UFG com pós-graduação em Gestão Escolar e Assessoria de Comunicação pela UFG e Comunicação Pública pela ESPM/SP e Escola de Governo/GO)

Publicado no jornal “O Popular”, na edição do dia 12/02/2012.