Goiás mata mulheres

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Jesseir Coelho de Alcântara, juiz de Direito e professor

O Estado de Goiás é conhecido como o local onde estão as mulheres mais bonitas do Brasil. Excelente performance. Todavia, uma triste constatação: Goiás lidera mortes de mulheres e tem alto índice de feminicídio e 11 municípios estão na lista dos 100 com maiores taxas. Alexânia é a segunda cidade com maior quantidade de assassinatos de mulheres no país com uma população feminina média de 11.947, teve 25,1% mortes de mulheres por dez mil. Infelizmente o interior elevou a taxa de homicídios, talvez porque nas metrópoles estão criando estruturas de atendimento, como as delegacias da mulher e os centros de apoio, que podem antecipar uma violência que ocorreria mais tarde. Segundo o Mapa da Violência que elaborou um estudo, de 2003 a 2013 o número de mortes cresceu aqui, sobretudo fora da capital, onde não há rede de serviços. A mulher negra é a principal vítima e quanto a todas elas, atuais e ex-parceiros são maiores algozes. Trabalhadoras rurais igualmente são vítimas em crescimento. É evidente que a problemática não é só em terras goianas, mas o índice de homicídios em Goiânia é cinco vezes maior que a média mundial. O ano de 2014 foi o mais violento da história de Goiânia, com o registro de 658 assassinatos e 39 latrocínios (roubo seguido de mortes). Isso tudo é muito preocupante e desolador.

O envolvimento cada vez maior com o uso e o tráfico de drogas e a participação mais ativa no mundo do crime provocaram um aumento proporcional no número desses assassinatos, a partir de 2011, em relação ao número total de vítimas de crimes de homicídio.

A entrada em vigor da Lei Maria da Penha, em 2006, não alterou o viés da alta de violência contra a mulher na terra do pequi, prevalecendo a cultura machista e sangrenta que tende em se perpetuar. Diz-se que os homens praticam um esporte macabro: matar mulheres. Que tristeza! A impunidade também é apontada como um fator que merece destaque para explicar a prevalência da violência e do aumento dos homicídios contra as mulheres. A impunidade revela falhas no sistema dos operadores da lei. Raúl Eugenio Zaffaroni, ministro da Suprema Corte Argentina e diretor do Departamento de Direito Penal e Criminologia da Universidade de Buenos Aires, muito bem colocou em uma entrevista: “Cada país tem o número de presos que decide politicamente ter”. Complementa: “cada país tem o número de feminicídio que decide politicamente ter, assim como o número de condenações por essa agressão”.

O contingente de policiais ainda é pequeno em Goiás para que todas as vítimas de violência doméstica fossem devidamente protegidas.

Na realidade, a sociedade não está preocupada com índices, números e levantamentos burocráticos. O que ela quer é a devida segurança que é dever do Estado (poder público).

Provérbios ensinam que excede o valor de finas joias a mulher virtuosa. Quem a achará? Em Goiás queremos ver as mulheres bonitas, não mortas.