Heróis em missão de combate

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Heróis em missão de combate

A sociedade goiana, a segurança pública e, em particular, seus familiares e colegas de atividades profissionais continuam sob o efeito do forte impacto comocional provocado pela queda, seguida de explosão de um helicóptero da Polícia Civil do Estado, na tarde de 8 de maio, em área rural fechada e de difícil acesso, no município de Piranhas (Sudoeste), causando a morte de cinco delegados da Polícia Civil e dois peritos criminais, todos eles com inestimáveis e relevantes serviços à causa da segurança pública no Estado e no País. Foram vítimas da tragédia os delegados Antônio Gonçalves Pereira dos Santos, Jorge Moreira da Silva, Osvalmir Carrasco Melati Júnior (piloto da aeronave), Bruno Rosa Carneiro (copiloto), Vinícius Batista da Silva e os peritos Fabiano de Paula Silva e Marcel de Paula Oliveira, além do principal acusado da chacina de cinco homens e duas mulheres na fazenda de Doverlândia, também na região do Sudoeste, em 28 de abril, Aparecido de Souza Alves. O desastre ocorreu quando os policiais, que investigavam o massacre, retornavam da segunda reconstituição dos horripilantes crimes de Doverlândia.

Resgatados no local do acidente aéreo por equipes do Corpo de Bombeiros e identificados os corpos das vítimas pelo Instituto Médico-Legal de Goiânia após exaustivos trabalhos da perícia técnico-científica (o primeiro a ser identificado foi o delegado de Iporá, Vinícius Batista da Silva, já que os demais estavam carbonizados), os policiais, em meio ao sentimento coletivo de tristeza e das famílias pranteadas, foram sepultados com honra de Estado pelo exercício do dever cumprido. O governador Marconi Perillo, que esteve no local da tragédia com o secretário de Segurança Pública, João Furtado Neto, manifestou solidariedade às famílias dos policiais que morreram em missão de combate e decretou luto oficial de três dias no Estado. Como bem disse a delegada-geral da Polícia Civil de Goiás, Adriana Accorsi (abalada com a morte dos colegas de lides profissionais), eles morreram “no estrito cumprimento do dever legal e em busca da verdade”. Evidentemente, o chefe do Executivo goiano, ciente dos marcantes serviços que prestaram à sociedade em suas funções, deverá adotar medidas administrativas de amparo às respectivas famílias.

Não obstante o assassino confesso da chacina de Doverlândia, Aparecido de Souza Alves, ter extinta sua responsabilidade criminal com sua morte no acidente da aeronave, logicamente as investigações policiais vão prosseguir para que tudo seja esclarecido sobre os sete homicídios de 28 de abril, na fazenda de Doverlândia. Outro grupo de policiais da Secretaria de Segurança Pública, conforme já anunciou o titular da pasta, continuará as investigações, sendo necessário também o acompanhamento paralelo da jurisdição especializada do Ministério Público Estadual. A sociedade goiana, o Estado, o País e os familiares das sete vítimas trucidadas em Doverlândia querem a solução dos crimes. A versão do principal acusado (também morto na queda do helicóptero) de que teria agido sozinho no morticínio, conforme divulgou a imprensa, não tem lógica e chega a ser irracional. Como é que uma só pessoa, no caso o bandido, na sua fúria psicossomática, executa cinco homens e duas mulheres e ainda os degola sem ajuda de outro comparsa ou comparsas? Na sua sanha assassina e perversão sexual, praticou necrofilia com uma das mulheres mortas. Eis porque as novas investigações devem se aprofundar para a plena elucidação da chacina.

Quanto à explosão do helicóptero causador da tragédia, é evidente que as autoridades da Aeronáutica, no caso específico o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos (Cenipa), órgão da Força Aérea Brasileira, já iniciou as investigações de estrita alçada, devendo apresentar os resultados sobre as causas do acidente nos próximos 30 dias. A versão aventada inicialmente de que o principal acusado da chacina teria se rebelado no interior da aeronave não tem qualquer fundamento, pois ele tinha algemas nas mãos e nos pés. A possível hipótese da queda seguida de explosão (falha mecânica ou técnica) seria o fato da aeronave estar com a manutenção vencida desde o dia 2 de maio, conforme comunicado que teria sido feito à empresa pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), segundo apurou a imprensa regional. De qualquer maneira, a palavra final sobre a verdadeira causa da queda do helicóptero da Polícia Civil de Goiás, em Piranhas, na tarde de 8 de maio, caberá ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos da FAB.

Escritor realista e pragmático, o austríaco Franz Kafka, autor de O Processo (1925), via no seu tempo “indevassáveis confusões do nosso mundo e as graves angústias do homem contemporâneo”. Fez autoanálise dos conflitos que vivenciou. De lá para cá, porém, os meios científicos e tecnológicos evoluíram. Além do que, a Lei de Deus ensina que, na vida terrena, nada permanece nas trevas: mais dias, menos dias, a verdade vem à luz. Exemplificando concretamente: com a sequência das investigações sobre a mortandade de Doverlândia, temos certeza de que a verdade vai prevalecer.

Afinal, é de justiça reconhecer que os delegados Antônio Gonçalves Pereira dos Santos, Jorge Moreira da Silva, Osvalmir Carrasco Melati Júnior, Bruno Rosa Carneiro, Vinícius Batista da Silva e os peritos Fabiano de Paula Silva e Marcel de Paula Oliveira tombaram como heróis na luta contra a criminalidade em Goiás e no País. E, por último, morreram como heróis em missão de combate ao massacre de Doverlândia. Em homenagem póstuma aos sete dedicados e corretos policiais, seus colegas seguem as investigações pela verdade.

ARMANDO ACIOLI é jornalista e formado em Direito pela UFG

Artigo publicado na edição do dia 15.05, no Jornal O Popular