Medo de morrer

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Jesseir Coelho de Alcântara

Medo de morrer

Pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) mostra que nove em cada dez brasileiros temem ser assassinados. Os abordados pela pesquisa se declararam muito amedrontados com a onda de violência. O medo da violência urbana atormenta a maioria das pessoas. Assalto à mão armada é o principal receio e a sensação de insegurança está presente em todo o mundo. A exposição à violência urbana mostra que em casa, na rua ou até mesmo na escola ninguém está imune a ação de bandidos. Uma situação que se torna comum nos grandes centros e que está cada dia mais difícil de ser controlada. Todo esse sentimento leva as pessoas a viverem cada vez mais enclausuradas.

Infelizmente a violência já faz parte da rotina dos brasileiros, que em qualquer lugar não têm como se proteger dos marginais. A sociedade associa o medo da criminalidade a ações violentas de motociclistas. Basta alguém ver duas pessoas em uma moto para surgir esse sentimento. A meu ver, a culpa pela insegurança pode ser atribuída ao sistema de segurança e justiça. A população, de maneira geral, não vê as polícias e o Poder Judiciário como organismos eficientes para combate e prevenção dos delitos. Como magistrado preocupo-me muito com isso.

O pior de tudo é que nossa capital vive onda de extrema violência e que diuturnamente ela se espalha. Bairros que há poucos anos tinham raros registros de crimes passaram a figurar entre os mais violentos. Entre 2008 a 2011, o Jardim Curitiba apresentou 49 homicídios. Ano passado, em seis meses, o Parque Amazônia gerou 10 homicídios, situação nunca ocorrida anteriormente. O tráfico de drogas, na conhecida cracolândia, tem sido o maior motivo das mortes e a eliminação de “rivais” aumenta os trágicos dados, muito embora a violência seja multifatorial. As drogas estão invadindo as salas de aulas e alunos têm trocado os livros por elas.

O POPULAR mostrou duas reportagens sobre a violência desenfreada em Goiânia recentemente. A primeira, em 18 de maio, apontou que a nossa cidade registrou recorde de assassinatos em cinco meses. Até então, havia mais de 200 pessoas mortas e a polícia ligava a maioria com o uso de drogas. A outra, em 18 de junho, estampou manchete: Crimes na zona de conforto, mostrando que nas proximidades de casa a vítima está relaxada e assassino sabe que vai encontrá-la. Retrato fiel da violência crescente.

Como consequência dessa onda de ferocidade, levantamento aponta que há um preso para cada 286 goianos. 99% dos encarcerados são homens e 60% têm envolvimento com drogas. Destaca-se que a população carcerária do País cresceu 111% em dez anos. Isso tudo fruto do aumento da violência numa verdadeira explosão carcerária. O medo de morrer é patente em nosso meio social. Para que esse temor seja desfeito, além de punições certas e rigorosas para os delinquentes, é necessário haver trabalho intenso das instituições de segurança pública e políticas públicas, educação e conscientização da sociedade. Caso contrário, o medo de morrer evoluirá dia após dia.

Jesseir Coelho de Alcântara é Juiz de Direito e Professor

Artigo publicado na edição de hoje (23.08) do jornal O Popular