O mensalão no banco dos réus

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Norton Luiz Ferreira

O mensalão no banco dos réus

Agora é vez do mensalão. Se ocorrer como está previsto, quinta-feira, 2 de agosto, vai entrar para a história do País, como entrou o julgamento do então presidente Fernando Collor, absolvido, em 1994, no caso que ficou conhecido como esquema PC, protanizado por Paulo César Farias. A data marca o início do julgamento do maior e mais emblemático caso de corrupção já ocorrido no Brasil. O Supremo Tribunal Federal (STF) está com a responsabilidade de responder à sociedade, aplicando o castigo da pena aos responsáveis pelo desvio de mais de R$ 100 milhões dos cofres públicos nos anos de 2003 e 2005, o que foi denunciado em 2006. Se houver inocentes, que se faça também justiça.

A tramoia, que ficou conhecida como mensalão, foi praticada com a finalidade de alimentar um esquema clandestino para a compra de votos. Toda a engenharia do esquema teve como cenário a Câmara dos Deputados e como operador da maracutaia o empresário Marcos Valério, cujas empresas foram usadas para recebimento do dinheiro desviado de forma fraudulenta. O submundo trazido à tona pela Operação Monte Carlo, que colocou no olho do furacão o senhor Carlos Cachoeira, nem esfriou e a sociedade brasileira, farta de tanta sujeira, acompanhará mais uma história escabrosa protagonizada por políticos, em sua maioria, e empresários.

O mensalão não é um crime qualquer. É o maior esquema de desvio de dinheiro da história do Brasil e deve, portanto, ser tratado com a devida importância, sem levar em conta o peso político de quem cometeu o crime. O erro na demora para o julgamento pode ser reparado com a aplicação justa da prestação jurisdicional a cargo da Corte maior do País. O exemplo tem de ser dado para que a sociedade continue enxergando na Justiça a sua garantia maior, a certeza de que os erros praticados por quem quer que seja tenham a punição merecida.

A Ação Penal 470, que tramita na Corte Maior do País desde 2007, vai colocar no banco dos réus figuras graúdas da política brasileira. A pressão política e social exercida para que o mensalão fosse colocado na pauta para julgamento, somada à disposição da própria Justiça em tirar da gaveta o processo, contribuirá em muito para que o Brasil continue sendo passado a limpo.

Obviamente, os desdobramentos do processo resultante da Operação Monte Carlo, conduzida com postura firme pela Justiça Federal e Ministério Público Federal, não serão ofuscados pelo mensalão. A sociedade está atenta e saberá, ao final das sentenças aplicadas a cada caso e dosadas na medida da participação de cada um nos esquemas criminosos, avaliar o desempenho da Justiça. A certeza da impunidade não deve prevalecer para que o homem não seja tentado a praticar crimes. Acreditar na Justiça é a garantia de que jamais chegará o dia em que pessoas de bem dirão: já não temos esperança. Os últimos que saírem, apaguem a luz.

Norton Luiz Ferreira é delegado de polícia

 

Artigo publicado na edição desta terça-feira, dia 31.07.12, no jornal O Popular