O sono da razão

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Edemundo Dias de Oliveira Filho

Em grave momento da história da Itália, em face da criminalidade e da violência incontroláveis, e do domínio das máfias e do crime organizado; e diante da morte quase inglória do juiz Falcone e de tantos outros moribundos heróis mortos ou semimortos, o veemente realismo dialético de Bobbio coube como uma luva. Foi o ideal precursor da Operação Mãos Limpas, ao afirmar que enquanto o “Homem de Razão” tem o dever de ser pessimista (o pessimismo temeroso da inteligência), “o Homem de Ação” tem a obrigação de ser otimista (o otimismo esperançoso da atitude). Assim como Gramsci – dos primeiros anos de cárcere, ou como o velho pregador existencialista Salomão – no Eclesiastes – Bobbio viu que o pessimismo, em determinados momentos da história de uma nação ou da vida de um homem, é um assombroso dever.

A tentativa de homicídio de sua professora seguido de suicídio do menino David Mota, de 10 anos de idade, dentro de uma escola de São Paulo, bem como a execução da juíza Patrícia Acioli no Rio de Janeiro, semanas antes, talvez sejam as tragédias mais significativas dos últimos dias, até que outras as superem, do mesmo modo como essas duas superaram as anteriores na roda-viva da visibilidade momentânea do espetáculo de sangue e de morte.

A criança David é o mais flagrante parto – dessa imensa fábrica de loucos – vomitado dos lares, das igrejas, das empresas, das praças, das sarjetas e das escolas do mundo moderno. Das escolas, em especial, porque estas deixaram de ser o local universal da plena sabedoria, do bom testemunho e da altaneira liberdade, para se transformarem em um lugar onde a cátedra é da injustiça, do ódio e da opressão.

A juíza Patrícia, em sua morte, é o espelho da ineficiência do Estado que ela tão bem representava, quando em vida. Revela, sobretudo, a intensidade, a frieza, a eficácia e o poder de coerção com os quais as máfias brasileiras afrontam a própria soberania dos poderes legalmente constituídos, sob a confortável esteira da impunidade.

Neste contexto, urge despertar do sono da razão, para afirmar, sem constrangimento, que se pensamos temos medo, e se nos abandonamos ao sonho, talvez podemos ainda esperar um pouquinho. Mas, ao refletir sobre o Brasil e sobre o mau uso com que os governantes fazem do seu poder, e os cidadãos comuns de sua liberdade, temos o dever de sermos pessimistas. De boa vontade podemos deixar para os fanáticos, ou seja, para aqueles que amam a catástrofe, ou para os imprudentes, ou seja, aqueles que confiam no acaso, o prazer de serem otimistas.

Retomo finalmente as lições do mestre Bobbio, para concluir: “O pessimismo hoje, seja-me permitida mais essa expressão impolítica, é um dever civil. Um dever civil porque só um pessimismo radical da razão pode despertar com uma sacudidela aqueles que, de um lado ou de outro, mostram que ainda não se deram conta de que o sono da razão gera monstros”.

Edemundo Dias de Oliveira Filho é delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, presidente do Conselho Nacional dos Chefes de Polícia do Brasil, pastor e escritor