Os crimes que as drogas provocam

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Delegado Norton Luiz Ferreira

Os crimes que as drogas provocam

Norton Luiz Ferreira

O mapa da cracolândia em Goiânia foi traçado pela Polícia Civil como medida peremptória para elaboração de políticas públicas, seja de cunho social ou de repressão e prevenção ao consumo dessa famigerada droga. Foram 11 pontos de maior movimentação identificados nos levantamentos feitos por policiais da Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos. O resultado não trouxe surpresa alguma para quem lida diariamente com a questão por conta de tantas idas e vindas de policiais a esses locais, sem que se possa fazer nada mais do que a lavratura de um simples Termo Circunstanciado de Ocorrência. Em seguida e incontinenti, o usuário deve ser colocado imediatamente em liberdade. Depois, ele volta para o mesmo ponto de drogas e segue o seu destino no consumo de mais e mais pedras de crack.

Dia e noite eles estão espalhados por toda a cidade, em grupos, fumando a pedra da desgraça. O dinheiro que paga ao traficante, no mínimo 10 rais por pedra, quando não consegue mais tirar do seio familiar, rouba das pessoas nas ruas. A vida de quem está sendo roubado é o que menos importa. O trabalho das polícias na repressão e prevenção parece não surtir efeito de tanto que a droga está disseminada na sociedade. Não bastasse isso, a droga ainda arrasta outros crimes de maior gravidade, fermentando estatísticas de números assustadores, principalmente com relação aos crimes contra a vida. Não há nada que se possa comemorar a não ser os avanços policiais nas apreensões de drogas, cada vez em maior volume. Em contrapartida, esse registro demonstra um claro sinal de que a produção criminosa pode estar também sendo feita em grande escala, desafiando os aparatos de segurança estatal.

Mas é o crack que tem causando grandes estragos sociais. A droga já está assentada e é amplamente consumida na grande maioria dos municípios brasileiros. Transformado da pasta base, o crack ganha ingredientes químicos altamente maléficos à saúde humana. È muito barato e de fabricação artesanal tão simples que já é produzido até em laboratórios de fundo de quintal. Trata-se de uma droga de ação tão violenta no organismo que pode viciar numa única pedra fumada. Depois disso o inferno fica a um passo de distância. Nem as classes sociais mais abastadas estão livres desse mal. Ricos e pobres estão em pé de igualdade quando o assunto é droga, e principalmente o crack. Números do Conselho Nacional de Segurança Pública (Conasp) apontam que Goiás tem cerca de 300 mil usuários de drogas, dos quais 50 mil só de crack. Pode ser, mas fora do papel esse número parece ser bem maior.

Ninguém mais se sente seguro. Criar um filho nos dias atuais tornou-se tarefa muito mais árdua e preocupante. Não basta dar-lhe apenas a melhor educação, o beijo diário que traduz carinho e amor ou mesmo levá-lo para uma convivência religiosa dentro de uma igreja, seja de qual crença for. O ambiente social saudável já não é mais fator decisivo. É preciso muito mais. É preciso esperar a sorte de o filho não se deparar com um traficante que se faz de amigo e lhe convence ao primeiro experimento da droga. Ele surge do nada para atrair jovens em locais de grande concentração, como escolas, boates, festinhas de amigos, bares, praças e nos mais inusitados ambientes. O tráfico é impiedoso com o ser humano, não se preocupa com a desgraça que causa no seio familiar e não escolhe cara, cor, sexo, religião e classe social.

Norton Luiz Ferreira é delegado de polícia

Artigo publicado no jornal O Popular, edição de 17.03.12