Os heróis da Denarc

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Os heróis da Denarc

Jornalista Rosenwal Ferreira

Até para o cidadão comum, que pode se refugiar nos oásis dos condomínios fechados e fingir que não tem nada a ver com o submundo das drogas, assusta ver o inferno do narcotráfico dilacerando o cotidiano. Imagine o leitor o purgatório que enfrentam os policiais lotados na divisão de narcóticos. Como se não bastasse a proliferação de drogados – que não podem ser presos e atuam como zumbis imbatíveis – os agentes ganham pouco e trabalham em condições sofríveis.

As quadrilhas organizadas possuem armamentos sofisticados, muito superiores aos das forças da lei, e os participantes das gangues não tem necessidade de prestar contas dos tiros que distribuem a granel. Seu faturamento milionário corrompe crianças, velhos, idosos e cidadãos que parecem acima de qualquer suspeita. Os tentáculos do crime atingem juízes, jornalistas, políticos, policiais, promotores e profissionais de todos os matizes. Um verdadeiro campo minado.

Mesmo agindo no estrito caminho da legalidade quem se enrasca no combate aos cartéis enfrenta a fúria de gente encastelada nos direitos humanos, em ONGs de fachada, e está sujeito a sórdidas vinganças, ameaça a familiares e inúmeras armadilhas.

O pior calvário é saber que não existe cadeia suficiente, que os advogados do banditismo são qualificados e que muitas vezes o traficante sai livre leve e solto, antes do policial que efetuou sua prisão chegar em casa. Mesmo assim, os bravos que atuam na Denarc de Goiás continuam executando sua função.

Admirável a persistência, coragem e heroísmo desses profissionais. Emociona constatar que eles não perdem a esperança e agem com respeito aos pais de família. É gratificante acompanhar, por exemplo, o trabalho da equipe Alfa sob a responsabilidade do delegado Eduardo Prado e sua equipe, composta pelos agentes Levi Moura de Sousa, Evangelis Cardoso dos Santos, Jesus P. Campos e escrivão Valdeir Gomes da Silva, que tem conseguido enfrentar com sucesso perigosas falanges.

São heróis raramente reconhecidos. Não são os únicos, felizmente existem intrépidos colaboradores nas policias Militar e Civil que impedem a instalação da barbárie. Mas estão cansados e se nutrem apenas de uma particular motivação: dignificam o cargo que ocupam. Não fosse por eles, o frágil limite que impede o domínio das quadrilhas já teria sido rompido em terras do cerrado.

Urge que se reconheça a necessidade de apoiar os que combatem o tráfico de drogas. Não é possível que continuem praticamente isolados em uma guerra que é de toda a sociedade. A Denarc precisa de reforços em seu número de agentes, carece de veículos novos e possantes, merece armas e equipamentos modernos e verbas capazes de permitir investigações qualificadas.

Mas acima de tudo isso, torna-se urgente vaga nos presídios e juízes menos flexíveis com a corja que mata pais de família e vicia crianças. Sendo hoje, mais do que nunca, uma profissão de altíssimo risco é necessária uma política qualificada de apoio estrutural garantindo proteção e auxilio aos familiares, seguro de vida e contra-cheque compatível com as agruras do cargo.

Caso contrário vamos nos afundar em um lamaçal profundo e toda a sociedade será engolida pelo esgoto dos imprestáveis. As cracolândias que se multiplicam comprovam essa cruel realidade. Algumas dezenas de homens destemidos são importantes. Mas não podem vencer sozinhos os conflitos já instalados. Infelizmente reina, em todo o Brasil, a hipocrisia que não se envergonha. Fingimos apoiar os que combatem o narcotráfico e depois ficamos surpresos que os traficantes estejam tomando conta de todas as ruas.

Publicado no jornal Diário da Manhã, na edição do dia 09 de abril de 2012