Réquiem para um amigo

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Maria José Sá

Sou jornalista e, nesses últimos 20 anos, tive contato quase que diário com o dr. Jorge Moreira, que acabou se transformando em um grande amigo. Fomos apresentados pelo meu saudoso colega Orlando do Carmo Arantes, de quem fui estagiária em O Popular. Anos depois, trabalhei na Editoria de Polícia do Diário da Manhã e, mais recentemente, fui repórter de Cidades de O Hoje.

Nessa jornada árdua, tive a honra de acompanhar a rotina de trabalho de grandes profissionais goianos, como o dr. Clélio, que era titular da Deic quando comecei no jornalismo; o perito super-inteligente dr. Leonardo Rodrigues, que foi homenageado tendo seu nome no Instituto de Criminalística; a organização do dr. Gilberto Ferro é marcante; o dr. Jerônimo, que atualmente está em Anápolis é uma figura!

São inúmeros delegados, escrivães e agentes que marcaram a minha trajetória, muitos já aposentados. Alguns deixaram de ser meras “fontes” e passaram a ser amigos, e o dr. Jorge Moreira é um deles.

Há de se ressaltar que eu nunca traí a confiança de nenhuma fonte, o que me causou inúmeros problemas com meus chefes editores, sempre ávidos por “manchetes”, algumas vezes sem se importar com o lado humano por trás das notícias e suas consequências…

Passei por vários empregos, mas sempre carreguei minhas fontes comigo, em sigilo.

Por duas décadas, eu vi nos olhos do dr. Jorge Moreira o brilho da satisfação do dever cumprido, todas as vezes que um inquérito era concluído com êxito. Mas também acompanhei, de perto, momentos de angústia e desespero quando algum crime não era elucidado dentro do prazo.

Observadora e caladinha, foram muitas vezes que descobri “coisas”, que os colegas não descobriam. E muitas vezes o dr. Jorge me chamava para conversar e explicava detalhadamente porque eu não poderia divulgar tal informação.

Eu explicava que não podia chegar na redação de mãos abanando, então ele me pedia um tempo. Passados alguns minutos, ele me chamava novamente e me dava algumas sugestões de pauta, em troca do meu silêncio sobre o “outro tema”.

Nessas “negociações” surgiu uma enorme cumplicidade entre nós. Ele me explicava a natureza do trabalho dele e vice-versa. Assim passaram-se duas décadas.

Faz 1 ano que saí de cena, após perder o movimento da perna esquerda, em consequência de um acidente. Escapei de ter que dar essa notícia terrível da queda do helicóptero. Fiquei muito mal, é como se fosse um familiar muito próximo. Nem tenho visto os noticiários na tv, porque dói muito quando vejo a foto do Dr. Jorge Moreira.

No nosso último encontro, há pouco mais de 1 ano, ele me deu uma pauta, em troca do meu silêncio em outra. Nosso último encontro, na Delegacia de Homicídios, foi marcado por um dos nossos “acordos silenciosos”.

Não se pode confiar em jornalistas e ter sido digna da confiança de um profissional tão perspicaz é uma honra.

Que Deus conforte as famílias desses profissionais destemidos, que trabalhavam com amor e sempre colocaram a segurança da sociedade acima de tudo.

Maria José Sá