Dor, dúvida e angústia. As mortes de Delegados e Peritos causam comoção em Goiás

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Dor, dúvida e angústia marcam dia após queda de helicóptero

<p>Chegada dos corpos das vítimas ao IML</p>

Dor, dúvida e angústia. Assim foi o dia ontem para familiares, amigos e colegas de trabalho dos cinco delegados e dois peritos criminais que morreram na queda do helicóptero da Polícia Civil na tarde de terça-feira, numa fazenda distante cerca de35 quilômetrosde Piranhas. A aeronave retornava de Doverlândia, onde foi feita a segunda parte da reconstituição da chacina de sete pessoas no dia 28 do mês passado.

Também morreu no acidente o acusado da chacina, Aparecido Souza Alves. O trabalho das equipes de resgate varou a noite de terça-feira para ontem. Somente o corpo do delegado Vinícius Batista da Silva, de 33 anos, foi enterrado ontem, por ter sido arremessado para fora do helicóptero com o impacto da queda. Os demais só foram removidos do local no início da tarde de ontem e chegaram ao Instituto Médico-Legal (IML) de Goiânia no início da noite.

O trabalho de identificação das vítimas pelas equipes do IML seria feito durante toda a noite. A Secretaria de Segurança Pública informou que o velório dos cinco delegados mortos e dos dois peritos será coletivo, assim que terminar o trabalho de identificação dos corpos. Ontem, o governador Marconi Perillo e o secretário de Segurança, João Furtado, visitaram o local do acidente com o helicóptero da Polícia Civil.

Cinco corpos chegam de helicóptero ao IML

 

Texto: Rosana Melo
Foto: Cristina Cabral

 

 

Cerca de 200 policiais civis, militares e peritos criminais cercavam o campo de futebol da Associação dos Peritos Criminais do Estado de Goiás (Aspec), ao lado do Instituto de Criminalística, na Cidade Jardim, quando, às 18h48 de ontem, pousou o helicóptero do Corpo de Bombeiros de Goiás. Dois minutos depois, o helicóptero do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal pousou no mesmo campo.

Fora o barulho das hélices e dos flashes de máquinas fotográficas, não se ouvia mais nada. Aos poucos, os servidores do Instituto Médico-Legal (IML) e os tripulantes dos dois helicópteros se encontraram rentes às aeronaves com guardiolas e começaram a colocar os despojos de cinco das oito vítimas do acidente com o helicóptero da Polícia Civil, ocorrido na tarde de terça-feira, em uma fazenda em Piranhas.

Ao deixar o campo, cada um dos corpos foi aplaudido pelos amigos e colegas de profissão. A maioria chorou. Também ficou o dia todo no local aguardando a chegada dos corpos. Falavam baixinho, como se já estivessem velando os corpos.

O assessor de comunicação social da Polícia Civil, delegado Norton Luiz Ferreira, informou que por falta de espaço nas aeronaves, dois corpos estariam vindo para Goiânia de carro. “Um dos corpos é de Aparecido de Souza Alves, parcialmente carbonizado, mas ainda com as algemas. O outro não foi identificado.”

O médico-legista Décio Marinho disse ontem que as equipes do IML e do Instituto de Criminalística já estavam preparadas para começar o trabalho de identificação dos corpos. “Tudo vai depender do estado geral dos corpos. Sabemos que estão parcialmente carbonizados e fragmentados”, disse.

Eles tentarão identificar os corpos fazendo a comparação papiloscópica (através das digitais). Caso não seja possível, será feita a comparação da arcada dentária. Se não for possível também, será feita a comparação do DNA. Familiares das vítimas já forneceram material biológico para a comparação e, neste caso, o exame fica pronto em até cinco dias.

O corpo do delegado Vinícius Batista Silva, que chegou a Goiânia de madrugada, foi identificado rapidamente. Ele foi “expulso” da aeronave assim que ela chocou-se no chão. O delegado, que presidia o inquérito da chacina de Doverlândia, em que sete pessoas tiveram os pescoços cortados, foi decapitado no acidente aéreo. Ele foi sepultado ontem.

O delegado Norton Luiz Ferreira confirmou ontem que todos os corpos serão velados em cerimônia única, assim que forem liberados do IML. O médico-legista Décio Marinho disse que espera que todos os corpos sejam realmente identificados, mas alerta para a possibilidade de algum ou partes de corpos não terem identificação positiva.

IML trabalha em força-tarefa para identificação dos corpos

 

Equipes do Instituto Médico Legal (IML) trabalham em força-tarefa para identificação das vítimas do acidente envolvendo sete servidores da Polícia Civil, ocorrido em Piranhas na tarde de terça-feira (8). Cada equipe é composta por um médico legista, um médico antropolegista e um odontolegista forense, além das equipes de DNA, compostas por três peritos e dois auxiliares de laboratório. Cinco profissionais de necropapiloscopistas também atuam no trabalho de identificação. Todos esses profissionais contam com o auxílio de uma psicóloga da Polícia Técnico-Científica.

Todas as equipes trabalham paralelamente, até que um método dê positivo, de forma que a identificação seja feita da forma mais rápida possível. Mesmo com a mobilização, que vai adentrar toda a noite de hoje (9), ainda não é possível precisar quanto tempo será necessário para a identificação de todas as vítimas.

Luto na área policial e criminalística

 

Peritos criminais e policiais civis estavam chocados ontem com a morte de sete colegas. Trabalharam apenas aqueles que estavam de plantão ou que foram escalados para trabalhar na investigação sobre a queda do helicóptero da Polícia Civil.

No Complexo de Delegacias Especializadas da Cidade Jardim entravam apenas policiais civis. Na porta de cada uma das seis delegacias, avisos de que todos estavam de luto. Policiais civis, peritos criminais e alguns policiais militares usaram fitas pretas na roupa indicando o luto nas instituições. “Ainda não acreditamos que tudo isso aconteceu. Todos eram profissionais apaixonados”, comentou o delegado Edvaldo Félix.

 

Corpos estavam dilacerados

Texto: Cleomar Almeida
Foto: Ricardo Rafael

 

Consumidos pelo fogo, com difíceis sinais de identificação e totalmente dilacerados. Essa sequência de descrições resume a forma como os corpos de cinco delegados, de dois peritos e do principal suspeito da maior chacina registrada em Goiás, o garçom Aparecido Souza alves, de 22 anos, foram encontrados ontem dentro do helicóptero da Polícia Civil que caiu na Fazenda Rancho Alegre, a cerca de35 quilômetrosde Piranhas, na Região Sudoeste do Estado. Por causa de uma suposta falha técnica, eles não resistiram ao impacto no chão que abriu uma cratera de aproximadamente1,5 metrode profundidade.

Destroços da aeronave no local do acidente

As oito vítimas retornavam, na terça-feira, da segunda e última reconstituição da chacina que deixou sete mortos na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, na zona rural de Doverlândia, a cerca de412 quilômetrosde Goiânia. Estavam na aeronave os delegados Jorge Moreira, Antônio Gonçalves, Osvalmir Carrasco Melati Júnior e Bruno Rosa Carneiro, os dois últimos piloto e co-piloto, respectivamente. Além deles, os peritos Fabiano de Paula Silva e Marcel de Paula Oliveira, primos.

Os profissionais de investigação carregavam relatórios da reprodução assistida cuja difícil missão era desvendar como Aparecido teria executado, em 28 de abril, o fazendeiro Lázaro Oliveira Costa, de 57, o filho dele, Leopoldo Rocha Costa, de 22, e do caseiro Heli Francisco da Silva, de 44. Além deles, a lista de vítimas do garçom incluiu o casal de vizinhos de Lázaro, Joaquim Manuel Carneiro, de 61, e Miraci Alves de Oliveira, de 65; o filho deles, Adriano Alves Carneiro, de 22, e a noiva do rapaz, Tâmis Marques Mendes da Silva, de 24.

Devido à forma como a aeronave despencou no chão, apenas o corpo do delegado Vinícius, que foi lançado para fora durante a queda e encontrado primeiro, saiu menos desfigurado. O corpo dele foi removido exatamente à 0h10 de ontem e enterrado ontem à tarde no Cemitério Jardim das Palmeiras. Mas a aflição é ainda maior para as famílias das demais vítimas, que ficaram contraídas entre si, dentro da cabine do helicóptero Koala AW 119 MK II. Delas, restaram apenas um retrato horroroso, em meio aos diversos destroços da aeronave. “Os corpos estavam misturados com terra, raízes e peças da aeronave”, disse o delegado Carlos Roberto Teixeira, gerente de operações da Polícia Civil.

Conforme apurou com exclusividade O POPULAR, depois de Vinícius, foram removidos os corpos de Aparecido, com algemas que prendiam mãos e pés, Antônio, Fabiano, Marcel, Jorge Moreira, Bruno e Carrasco. A sequência teve a confirmação da perita Ercimar Vieira Rodrigues, que enfrentou a emoção para ver o fim trágico de seus amigos. Com ela restaram as fotografias da segunda reconstituição da chacina – agora os únicos documentos sobre o esclarecimento das últimas cinco vítimas da chacina. “Não fui de helicóptero porque estava cheio”, disse, antes de se silenciar ao lembrar-se das últimas conversas com a equipe de investigação.

O filho do caseiro da fazenda onde o helicóptero caiu, Douglas Antônio Marcos de Almeida, de 12 anos, relatou detalhadamente como o acidente aconteceu, por volta das 15h40. Segundo ele, a aeronave rodopiou em torno do seu próprio eixo, uma peça se desprendeu dela e, logo em seguida, o motor parou de funcionar. “Ela caiu de ponta e, depois, só ouvimos o estrondo e a fumaça subir”, disse. A mesma versão foi confirmada pelo fazendeiro Edimar Vilela, conhecido como Boi, uma das primeiras testemunhas a ver as ruínas do Koala. “Foi uma cena horrorosa, a gente tentou apagar o fogo e só viu pedaços de gente”, ponderou Edimar.

Como o corpo de Vinícius foi removido na madrugada, a retirada dos demais levou cinco horas e foi realizada, durante o dia, com a supervisão de três peritos do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).

“Eles morreram na busca da verdade”

Delegada Adriana Accorsi

Delegada Geral da Polícia Civil de Goiás, Adriana Accorsi falou ontem pela primeira vez depois do acidente com o helicóptero da instituição. Ela estava bastante emocionada e não conteve o choro.

 

Texto: Malu  Longo
 Foto: Diomício Gomes
Como a senhora está enfrentando esse dia ?

Hoje (ontem) é Dia do Policial Civil, tínhamos preparado uma comemoração alegre, mas infelizmente estamos velando nossos colegas. Estamos tomando várias providências no sentido de apoiar, ajudar e socorrer cada uma das famílias em todos os aspectos: psicológico, médico e financeiro. Estamos empenhados na investigação do acidente e queremos pedir o apoio de toda a sociedade à instituição. Agradecemos os sentimentos, a energia e as orações.

A senhora poderia estar entre as vítimas. Como recebeu a notícia do acidente?

Com muita tristeza. Não me senti em nenhum momento feliz por não estar no helicóptero. Faz parte do trabalho, tenho muito orgulho de ser colega desses policiais. Eles morreram no cumprimento do dever, em busca da verdade, e isso é uma honra para o policial. Sempre os terei como grandes exemplos, em especial dr. Antônio, que foi meu professor e meu chefe. Eu tinha dito a ele dias antes que eu queria ser um chefe tão bom como ele foi.

Quais eram as condições da aeronave?

Era nova, tinha acabado de passar por manutenção, estava abastecida, era usada constantemente. Já que foi adquirida, optamos por usá-la para estar mais junto da população, ir aos locais mais distantes, fazer uma administração mais perto das pessoas.

Por que o delegado Jorge Moreira foi à Doverlândia se ele estava à frente da Decar?

O Jorge era uma grande autoridade em crimes de homicídio, uma pessoa de saber reconhecido e inteligente. Desde o início manifestou o desejo de auxiliar. Como eu não poderia ir desta vez, ele foi convidado pelo Antônio para ir.

Como ficarão as investigações da chacina?

Temos as provas técnicas que foram colhidas. As investigações vão continuar.

A senhora acredita numa possível reação do preso dentro da aeronave?

Isso não e possível, O preso ia algemado nos pés e braços, o cinto de segurança é de difícil retirada. Ele estava seguro pelos delegados, não podia ter contato com os pilotos. Realmente, não considero essa hipótese. Reafirmo minha convicção na competência e conhecimento dos nossos pilotos, pessoas cuidadosas e comprometidas, que jamais teriam cometido esse erro.

 

Delegado é sepultado em Goiânia

Texto: Carla de Oliveira
Delegado Vinícius Batista da Silva

O delegado Vinícius Batista da Silva, de 33 anos, foi a primeira vítima da tragédia com o helicóptero da Polícia Civil, que vitimou oito pessoas durante queda na terça-feira, a ser sepultada.

O enterro ocorreu no fim da tarde de ontem, no Cemitério Jardim das Palmeiras, em Goiânia. Vinícius era delegado em Iporá, para onde foi transferido de Aruanã, primeiro município a atuar desde que tomou posse no cargo, há cerca de três anos. O corpo de Vinícius, localizado do lado de fora da aeronave, foi o primeiro a ser resgatado e o único que não estava carbonizado.

Colegas de trabalho prestaram uma última homenagem a Vinícius, com uma salva de tiros, antes do sepultamento, que reuniu integrantes da Segurança Pública de Goiás, entre eles a delegada-geral Adriana Accorsi, familiares e amigos.

Enterro de Vinícius Batista da Silva

Ex-superintendente da Polícia Judiciária de Goiás, o delegado Josuemar Vaz de Oliveira destacou que Vinícius era uma pessoa trabalhadora e muito humilde. “Quando na Superintendência de Polícia Judiciária (SPJ), ele me disse que seu grande sonho era ser delegado da Polícia Civil de Goiás, o que tinha realizado, e que gostaria de trabalhar, caso surgisse vaga, na Regional de Iporá, onde pretendia se aposentar”, lembra. “Apesar do pequeno tempo de atuação, não houve qualquer reclamação quanto a atuação dele como delegado ou policial civil. Ao contrário, só elogios. Era uma pessoa que tinha um futuro brilhante”, ressalta, lembrando que o último contato com Vinícius ocorreu na sexta-feira, quando ele teria falado sobre a investigação.

Instrutor da Polícia Civil, Ricardo Fernandes conta que conheceu Vinícius durante o curso de formação para delegados. “Ele foi um aluno muito dedicado”, disse. Presidente do Rotary Club de Iporá, do qual ele era associado, Davina Abadia de Moura fez questão de destacar o quanto Vinícius era querido na cidade e choque dos moradores de Iporá.

Pá solta teria causado desastre

Informação é do secretário João Furtado Neto. Especialista, porém, diz que situação, se confirmada, é raríssima

Texto: Rafael Xavier

A queda do helicóptero da Polícia Civil ainda está longe de ser esclarecida. As versões para a causa do acidente, que vitimou oito pessoas (cinco delegados, dois peritos e o suspeito da chacina em Doverlândia), vão ficando restritas de acordo com a divulgação das informações e imagens dos destroços da aeronave, que caiu em uma fazenda no município de Piranhas (distante cerca de300 quilômetrosde Goiânia). A hipótese mais defendida ainda é de falha mecânica.

O secretário de Segurança Pública e Justiça de Goiás, João Furtado Neto, confirmou que uma das pás do motor central teria se soltado e causado o desastre. “Só uma pá se soltou do motor principal. Isso foi suficiente. É difícil saber, mas a gente estima que ele vinha voando a500 pés(aproximadamente152 metros). Encontramos dois vestígios, a cerca de300 metrosum pedaço da pá e a200 metrosa pá propriamente dita. Dentro de uma lagoa próxima”, revelou João Furtado.

O comandante Raul Francé Monteiro, coordenador do curso de ciências aeronáuticas da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), destacou que caso a hipótese seja confirmada seria algo raro. “A chance é pequena, raríssima, de a pá se soltar, mas não podemos descartar nenhuma alternativa”, disse Raul Francé Monteiro, que tem mais de 14 mil horas de voo acumuladas. “Só mesmo a investigação do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos) dirá o que houve para ocasionar o acidente”, ressaltou.

No momento da queda, a estimativa era de que o helicóptero teria400 litrosde combustível em seu tanque, que tem capacidade para640 litros. O impacto causou a explosão do aparelho e o disparo das munições que estavam de pose dos policiais. Outro dado importante é a distância e a forma que o rotor de cauda foi encontrado. Em uma peça única, a parte do aparelho estava a cerca de três quilômetros do restante da fuselagem.]

O rotor de cauda é responsável por dar estabilidade ao helicóptero. Sem ele a aeronave perde controle e acaba girando em torno de seu eixo. Porém, o modelo que caiu na segunda-feira pode se sustentar no ar mesmo sem a peça, desde que esteja em uma velocidade superior a 60 nós (cerca de111 quilômetrospor hora). Neste caso, o piloto teria de fazer um pouso corrido, em uma pista, semelhante ao que faz um avião, para que não haja o risco de perda da estabilidade.

Investigação

O Cenipa tem um prazo de 30 dias para apresentar um relatório preliminar do acidente. A conclusão da investigação, no entanto, não obedece a um prazo específico. “O prazo é indeterminado e levará o tempo que for necessário para apurar as causas reais do acidente”, explicou Raul Francé Monteiro.

Além do Cenipa, os delegados Alexandre Pinto Lourenço, adjunto da Delegacia Estadual de Homicídios e Kleyton Manoel Dias, da Delegacia Estadual de Repressão a Furtos e Roubos de Veículos Automotores estão colaborando com as investigações sobre a queda da aeronave, considerada moderna.

“É um modelo de ponta, dos mais modernos que existem para este segmento”, comentou Raul Francé Monteiro, falando sobre a aeronave, que foi adquirida no fim de 2010 pelo Governo do Estado e tinha cerca de 300 horas de voo acumuladas.

Fonte: O Popular