Bicicleta apreendida põe o principal suspeito do atentado a bomba a casal na cena do crime

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Uingles Queiroz da Costa dentro da viatura da Polícia Civil

Bicicleta era de autor de atentado

 

Para Polícia Civil, veículo de homem que botou
bomba em ônibus é o mesmo usado em Anápolis

 

Ele diz que parou de estudar quando terminou o ensino básico, no entanto fala um português correto e costuma frequentar lan houses para fazer pesquisas. Às vezes esquece algum detalhe de afirmações anteriores, mas nunca muda a versão. Diz que já foi dependente de álcool e outras drogas ilícitas, agora está “limpo”. Nasceu em Belém (PA), mudou-se para Aparecida de Goiânia, morou em São Paulo e Anápolis, cidade que costuma visitar com frequência porque “gosta de andar de ônibus”. Este é Uingles Queiroz da Costa, o homem que, segundo a Polícia Civil teria atirado um artefato explosivo no interior de um Gol no dia 5 de janeiro, em Anápolis, ferindo o casal de namorados Thays Mendes, 19 anos, e Guilherme Almeida, 20. Ambos permanecem internados no Hospital de Queimaduras de Anápolis.

Para o delegado Eder Martins, do 7º Distrito Policial de Anápolis, que investiga o fato, não há dúvida sobre a autoria do crime. Resta saber agora se agiu sozinho ou a mando de alguém. Ele ouviu Uingles em Goiânia na quarta-feira, depois que o rapaz de 30 anos – e não 20 como O POPULAR divulgou – foi detido após detonar explosivos artesanais no interior de um coletivo na segunda-feira, causando intoxicação em duas pessoas. Foragido do regime semiaberto do Sistema Prisional de Goiás onde cumpria pena por tentativa de homicídio, Uingles foi levado para a carceragem da Delegacia de Capturas, no Setor Jaó, de onde seria transferido para Anápolis.

A hipótese da participação de Uingles no atentado de Anápolis foi levantada pelo delegado Eduardo Gallieta, do 5º DP de Goiânia, respondendo também pelo 7º DP. Ao interrogar o rapaz, ele entendeu que as particularidades de cada fato eram muito semelhantes. O atentado no Centro de Anápolis foi filmado por uma câmera de segurança. Uingles confirmou que tinha uma bicicleta e que costumava ir a Anápolis, mas negou a participação no atentado ao casal.

Para o delegado Eder Martins, as dúvidas foram desfeitas quando a bicicleta mencionada foi encontrada desmontada numa oficina de Anápolis e embalada para a viagem a pedido de seu proprietário, o próprio Uingles, que esteve no local exatamente no dia 5 de janeiro, data do crime. A bicicleta, segundo Eder, é a mesma utilizada no atentando e, por isso, pediu a prisão preventiva de Uingles Queiroz.

A mãe do rapaz, uma funcionária pública que mora em Aparecida de Goiânia, não foi localizada para falar sobre o assunto. Uingles não é uma pessoa bem aceita no círculo familiar. Parentes disseram que eles não têm contato e que o rapaz sempre viveu na rua por causa de drogas e bebidas.

 “Arma de fogo é muito mais perigosa”

Nesta entrevista, Uingles Queiroz da Costa conta como aprendeu a fazer explosivos, diz que já procurou ajuda psiquiátrica e garante que não tem má intenção quando transporta artefatos com pólvora, o que é muito comum.

Foi você que atirou o artefato explosivo no carro do casal de namorados em Anápolis?

Eles estão dizendo que sou culpado porque faço explosivo artesanal, mas não tem nada a ver. Todos os caseiros são feitos de PVC. Qualquer um pode fazer, basta estudar, como eu fiz. Se forem comparar, vão ver que não fui eu. Também tem a história da bicicleta, mas a minha não tem garupeira. Eu pedi para guardá-la numa oficina de Anápolis porque pretendia voltar para São Paulo onde estava trabalhando e estudando. Eu não vou assumir esse crime. Assumo pelo do ônibus de Goiânia.

E se encontrarem suas impressões digitais?

Eles não vão encontrar.

Está com medo?

Não. Não tenho motivo, só se tiver ameaça. Um policial me disse que tem uns colegas dele querendo me matar e que a família do casal vai pagar para me matar.

Onde você estava indo no dia em que soltou os explosivos no ônibus em Goiânia?

Gosto muito de passear de ônibus. Esse é um dos motivos pelo qual vou muito a Anápolis, a viagem é mais longa. Ando sempre com esses explosivos na bolsa, mas não fico jogando em qualquer esquina. Só se eu fosse ameaçado. Uma arma de fogo é muito mais perigosa. Num bar, a pessoa simplesmente usa, não pensa. O explosivo serve para retardar um possível ataque da arma de fogo. Dentro do ônibus, por exemplo, ainda bem que foi uma bomba porque deu certa segurança para as outras pessoas. Se fosse uma arma poderia colocar mais gente em risco e a bomba foi direcionada apenas para a pessoa que me provocou. (NR: A polícia acredita que não exista essa pessoa).

Você sente prazer em ver a explosão?

Não, mas costumo testar o artefato em locais isolados para ver onde tenho que melhorar. O fato de eu andar com explosivo não quer dizer que tenho má intenção.

Como aprendeu a fazer bombas caseiras?

É por curiosidade. Tenho estudado. Costumo passar em lan houses para pesquisar.

Por que fabrica as bombas?

Sou curioso e também como instrumento de defesa. A gente não conhece o homem e os espíritos que se manifestam.

Você tem uma vida normal?

Mais atribulada do que normal. Desde que vim ao mundo tem sido muito difícil.

Usa drogas?

Quando era mais novo cheguei a usar álcool e drogas, mas hoje nem cigarro.

Já teve ajuda médica?

Já fui internado duas vezes, uma em São Paulo, no Capes, e outra em Anápolis, na Missão Vida (instituição filantrópica que atende mendigos). Eu procurei ajuda sozinho porque estava com certa dificuldade espiritual.

Você tem família?

Tenho mãe, padrasto e três irmãos, que moram no Jardim Mont Serrat, em Aparecida de Goiânia, mas não gosto de incomodá-los. Tenho buscado viver sendo responsável por mim.

Você trabalha?

Sim, em qualquer serviço. Em São Paulo estava trabalhando como auxiliar de serviço de exportação. Em Anápolis trabalhei numa metalúrgica.

Estava em Anápolis no dia do atentado?

Tenho certa dificuldade com datas, mas sempre vou passear lá. Domingo mesmo eu estava em Anápolis porque tenho muitos conhecidos lá e gosto de ir à sorveteria.

Como está passando o tempo na prisão?

Estou na carceragem dividindo a palavra de Deus com meus irmãos.

Fonte: O Popular
Texto: Malu Longo (Colaborou Paulo Nunes Gonçalves)
Foto: Diomício Gomes