Delegada de Polícia é a única Vereadora eleita em Aparecida de Goiânia ao longo de 24 anos

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Delegada Cybelle Tristão foi a única mulher eleita Vereadora no município de Aparecida de Goiânia

Município com 272.115 eleitores é o 2º maior colégio eleitoral de Goiás. Policial terá 24 colegas; ela disputou com 361 homens e 160 mulheres.

A única mulher eleita entre os 522 candidatos a vereador em Aparecida de Goiânia nas eleições de 2012, Cybelle Silva Tristão (PSDB), de 34 anos, pretende conciliar a atividade legislativa com a profissão de delegada de polícia, que exerce há quase nove anos no município. A policial concorreu com 160 mulheres e 361 homens e a partir de 2013 vai trabalhar com 24 colegas do sexo masculino. Ela também é a primeira mulher eleita para a Câmara Municipal do segundo maior colégio eleitoral de Goiás, com 272.115 eleitores, desde 1988.

Para Cybelle, fazer parte de um universo predominantemente masculino não é novidade e não a assusta. Ela é a delegada titular do 4º Distrito Policial de Aparecida, no Setor Garavelo – onde funcionam o Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops) e a central de flagrantes do município – e chefia um grupo de seis delegados, quase 80 servidores e ainda é responsável pela carceragem onde ficam cerca de 70 detentos.

“Essa questão de homens não me intimida. Os meus colegas de trabalho, na delegacia onde estou, são seis delegados, homens, e eu sou a única mulher, e sou titular. Os agentes de polícia são todos homens, eu não tive nenhuma mulher. Apenas algumas escrivãs mulheres. Acredito que para cada momento a pessoa deve ter um tipo de atitude. Há momentos em que é preciso ser incisiva e se impor. Em outros, é preciso atuar com brandura. É preciso colocar a emoção também. Aquela coisa muito racional, muito fria, não é o meu perfil, mas eu tenho certeza de que sei dosar na medida certa, como fiz durante todos esses anos como delegada”, observa.

Suplente
Cibelly acredita que a chegada de uma mulher eleita vereadora na Câmara é uma novidade também para os colegas vereadores. Isso porque a única vereadora em exercício na Câmara Municipal de Aparecida de Goiânia, Divanita Avelino Dias Marques, a Diva do Cais (PT do B), assumiu o cargo há menos de seis meses, pois era suplente. Neste ano, Diva também foi candidata à vereadora, mas mais uma vez ficou como suplente.

“Além disso, sou uma mulher que já tem um trabalho prestado na área da segurança, que é uma área forte, uma área dura. Trabalhei com muitas coisas difíceis. Quando se fala em mulher prendendo, atuando na rua como policial, isso também causa um certo impacto. Vi muita coisa que precisa ser feita nessa área”, diz.

Cybelle é a terceira mulher escolhida pelos eleitores da cidade e será a quarta a assumir uma cadeira na Câmara. A primeira vez que Aparecida de Goiânia elegeu uma mulher para vereadora foi em 1982. Romilda Neta de Medeiros ficou no cargo de 1983 a 1988. O segundo caso aconteceu em 1988, quando Berenice Medeiros Bittencourt, exerceu o mandato de 1989 a 1992.

“É muito gratificante. Eu acho que a gente consegue romper vários tabus na política de Aparecida que, querendo ou não, ainda é muito machista, pelo histórico que a gente vem analisando. A gente teve muitas candidatas mulheres e deveríamos ter tido mais mulheres eleitas. Então, acho que a responsabilidade aumenta bastante quando se coloca que eu fui a única mulher eleita. Estou recebendo muito apoio das mulheres e também muita cobrança. Além das mulheres, também represento a segurança pública”, comenta.

Mesmo na vizinha Goiânia, capital do estado e maior colégio eleitoral de Goiás, com 850.777 eleitores, o equivalente a 20% das pessoas aptas a votar em Goiás, a representatividade feminina é pequena. Dentre os 35 vereadores eleitos, apenas quatro são mulheres. Dos 763 candidatos que concorreram a uma vaga na Câmara Municipal de Goiânia, 530 eram homens e 233, mulheres. Até o momento, nenhuma das duas cidades foi administrada por uma mulher.

“Apesar de termos mulheres em vários setores da sociedade, chefiando empresas, delegacias, médicas, ainda há poucas mulheres na política. Acho que é uma questão de cultura. Se formos analisar, deveríamos ter mais mulheres, porque a maioria dos eleitores é do sexo feminino”, avalia Cybelle, que quando era criança e adolescente não imaginava que um dia entraria para a vida pública.

Vaidade
Solteira e mãe de um menino de 7 anos, a delegada Cybelle Tristão não permite que a aparente agressividade da profissão que exerce interfira na sua feminilidade. Ela está sempre maquiada, bem vestida e com as unhas feitas. “A vaidade feminina não pode ser deixada de lado. Não é porque sou policial, que tenho um trabalho duro, que tenho de deixar essas coisas de lado”, ressalta.

A delicadeza da mulher contrasta com a pistola ponto 40 que ela afirma não portar o tempo todo. Cybelle argumenta que o instrumento de trabalho do policial não se limita ao uso da arma, e que isso depende do local em que o policial estiver. Segundo a delegada, há policiais aficionados por armas e que só andam armados. Ela conta que já soube de situações em que o policial só consegue dormir com a arma debaixo do travesseiro.

“Não é o meu caso. Claro que é preciso haver uma preocupação com a questão da segurança, pois acima de tudo sou uma policial e já tive embates fortes com criminosos perigosos, mas também procuro dosar essa questão. Tudo tem o seu lugar, o seu tempo, mas a gente tem que andar armado sim”, comenta.

Retorno
Na segunda-feira (15), Cybelle retomou o seu trabalho na Polícia Civil depois de ficar afastada para fazer a campanha eleitoral. Após assumir a cadeira na Câmara, ela também pretende continuar atuando como delegada, mas como plantonista para não prejudicar o expediente no legislativo. “Eu não posso deixar de exercer a minha função de maneira alguma. Tenho condições de exercer as duas com toda a certeza e é o que vou fazer”, diz.

Bem-sucedida já na primeira vez em que se candidatou, a delegada atribui a aprovação nas urnas ao exercício profissional. “Sempre procurei estar bem próxima à comunidade. Como delegada, sempre fizemos trabalhos preventivos em escolas, igrejas, e a comunidade me aclamou para me candidatar. O trabalho da polícia depende muito do poder público. Uma voz da segurança pública na Câmara vai ajudar muito”, acredita.

Entre os principais objetivos da vereadora eleita estão a criação de secretarias municipais de segurança pública e da mulher. No primeiro caso, o órgão deverá coordenar projetos na área de segurança pública com a finalidade de reduzir os índices de criminalidade em Aparecida de Goiânia. Já a secretaria da mulher desenvolveria políticas públicas voltadas para a mulher e combateria a violência doméstica. Pleitear a implementação de uma nova Delegacia Estadual de Atendimento à Mulher no município também está em seus projetos.

A vereadora eleita afirma que vai manter o seu escritório político montado no Setor Garavelo, o mesmo bairro onde trabalha como delegada. Segundo ela, o local foi um marco na sua campanha e ela pretende atender pessoas no local, no mínimo, uma vez por semana. “O vereador que fica só dentro de gabinete não é vereador. O vereador tem que estar próximo do povo, e tem que ter um local para atender às pessoas que estão mais distantes do Centro da cidade. Há pessoas que não têm acesso ou condições de ir até a Câmara Municipal”, discursa.

Versanna Carvalho Do G1 GO
(Foto: Adriano Zago/G1)