Delegada Geral Adriana Accorsi fala sobre o seu trabalho em entrevista especial ao Opção

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Delegada Geral da PC: Adriana Accorsi

“Provas no caso Valério bastarão para condenação dos culpados”

 

Delegada-geral da Polícia Civil completa dez meses no cargo e diz que tempo parece muito maior, por causa das pressões, as quais ela avalia como normais na função

 

 

Greve de agentes, colegas questionando sua legitimidade no cargo, um assassinato atípico e gravíssimo contra um profissional da imprensa e um acidente fatal com nomes de ponta da polícia de Goiás — onde ela, mais do que colegas de ofício, perdeu também amigos. O período à frente da Delegacia-Geral da Polícia Civil é de pouco mais de dez meses, mas, para Adriana Accorsi pareceu muito mais. “Espero que tenhamos um período melhor a partir de agora”, desabafa.

Entre todos os percalços, o maior tem nome: Valério Luiz, o radialista assassinado em um crime que chocou a cidade pela brutalidade (tiros à queima-roupa), ousadia (na porta da emissora, à luz do dia) e motivação (a maior suspeita recai sobre crime de opinião). “Quando há um homicídio como esse, gravíssimo e que afronta até a liberdade de pensamento, a gente tem de parar e refletir sobre a tolerância entre as pessoas”, diz Adriana.

O crime testa os nervos de aço da primeira mulher a comandar a polícia goiana: são três meses, mas, para a sociedade goiana e a família enlutada — cujo símbolo de dor é a figura de Manoel de Oliveira, o “Mané”, pai de Valério e uma das referências da imprensa esportiva em Goiás — é tempo demais. Pelo contrário, pelo tipo de crime e pela preparação que certamente houve para ele, Adriana acha que está tudo transcorrendo bem. “Desconheço crimes desse tipo, que há indícios fortes de mandante e executor, que são solucionados em tal período.” Mas ela avisa: “Nossa equipe está trabalhando em sigilo. Na hora certa vamos concluir o caso com provas que entregaremos ao Judiciário e que, para nós, bastarão para a condenação”, finaliza.

Frederico Vitor — A sra. está à frente da delegacia desde o fim do ano passado. Qual o balanço desse período?

Foi um ano que pareceu muito mais tempo do que realmente foi. Um ano difícil, com muitos desafios e dificuldades, assim como aconteceu com o Estado, que teve dificuldades financeiras e isso se refletiu bastante em todos os órgãos e, obviamente, na Secretaria de Segurança Pública e na Polícia Civil. Uma situação particularmente difícil e dolorosa, para mim em especial, foi o acidente ocorrido com o helicóptero da nossa instituição, que ficou abalada com a perda de colegas valorosos. Um ano de muita luta, mas também não escolhemos essa profissão para ter uma rotina fácil. Essa foi nossa opção de vida. Foi, então, um ano de dificuldades, mas a gente precisa renovar a cada dia nossa força e lutar para melhorar as condições de trabalho, para nós, e de vida, para a sociedade. Espero que tenhamos um período melhor a partir de agora. Ao mesmo tempo, vamos agradecendo as pequenas vitórias, como a entrega de 30 viaturas para a De­legacia de Proteção às Mulheres. Faremos também um congresso com os trabalhadores na área da defesa da mulher, em novembro, entre outras ações que buscamos implementar.

Cezar Santos — No ano passado, em entrevista ao jornal, a sra. disse que estava quase tudo pronto para um concurso da Polícia Civil. Como está isso agora?

Eu tenho cobrado muito essa pauta. Falei esta semana com o secretário de Segurança Pública [João Furtado] sobre isso. Ele me disse que esteve na Segplan [Secretaria de Estado de Gestão e Planejamento] e ficou acertado que no próximo dia 15 o edital para a Polícia Civil será publicado. Ele já está pronto e nossa academia está pronta para receber os novos policiais. É uma grande necessidade. Nos Estados onde houve um sucesso no combate à violência, que hoje é um problema em todo o País, isso veio com várias ações, entre elas a questão estrutural, que diz respeito a aspectos físicos e humanos. Um concurso seria muito importante para a renovação da própria polícia. Pela Lei Orgânica da Polícia Civil, escrita em 2010, nós teríamos de ter 5,6 mil policiais e temos 2.890, o que é pouco mais da metade do necessário. Então, é urgente mesmo esse concurso. Há regiões onde temos muito poucos policiais e eu me preocupo muito com isso. Todo dia vai um delegado daqui para o Entorno do Distrito Federal, para ajudar no plantão de Val­paraíso de Goiás, por exemplo.

Frederico Vitor — Seu antecessor, Edemundo Dias, tinha um programa de reestruturação de delegacias, tanto em Goiânia como no interior, já que muitas estavam em condições precárias e eram até mesmo imóveis alugados. Como está esse planejamento?

Nós continuamos reivindicando que haja reformas ou novas construções. Várias prefeituras do interior cederam lotes e continuamos na luta pela implementação das obras. Juntamente com a comunidade estamos reformando delegacias, tanto em Goiânia como no interior. Es­tamos entregando a Delegacia da Mulher, o 19º DP, o 11º DP, o 5º DP de Anápolis. A DPCA [De­legacia de Proteção à Criança e ao Adolescente] de Anápolis está sendo criada também, o prédio está sendo reformado com a ajuda da sociedade. Em Goiânia, os conselhos de segurança e a comunidade como um todo estão nos ajudando, principalmente em relação a pequenas reformas. Nesse sentido, juntamente com a divulgação do PAI [Plano de Ação Integrada de Desenvolvimento], o governo divulgou um programa de reforma para todas as delegacias do Estado, da mesma forma que foi feito com as escolas. Esperamos a partir de janeiro a reforma de cada delegacia de Goiás.

Cezar Santos — Como está a estrutura de nossa polícia, comparada à de outros Estados do mesmo porte de Goiás?

As estruturas são extremamente diferentes. Por exemplo, o Distrito Federal. Com­parti­lha­mos muitas ações com a polícia do DF, mas as estruturas são completamente diferentes. Lá, eles têm muito mais gente, tem muito mais recursos, é realmente uma diferença imensa, apesar de que o problema da criminalidade lá também é muito grave, o crime contra a vida é um grande desafio, há uma onda de sequestros-relâmpago, conforme informações de colegas de lá. Em relação à polícia de Minas Gerais, que em muitos aspectos se relaciona com a de Goiás, existem uma carência muito grande também. Estão terminando um concurso agora, mas que não suprir todas as necessidades. Há um número muito maior de municípios e a remuneração é mais baixa que a dos policiais goianos. A estrutura física, penso, é pior do que a nossa. A verdade é que os Estados e o governo federal nunca deram a importância devida à questão da segurança. Lembro-me da minha infância, quando desde pequena eu falava que queria ser policial e meu pai [Darci Accorsi, ex-prefeito de Goiânia] brincava comigo, falando “olha, se você não estudar vai acabar sendo policial mesmo”, mas sempre com muito respeito às minhas opiniões e sempre me dando muita força para eu seguir o que eu queria. O fato é que o policial nunca foi considerado um indivíduo de extrema importância e esse descaso — e não falo do descaso apenas dos governos, já que somos nós que escolhemos os governos e que queremos que o governo faça asfalto, obras, mas esquecemos da segurança e da formação dos policiais — trouxe esse resultado hoje: uma sociedade com problemas graves de segurança, com um sistema penitenciário falido, sem investimento há 30, 40 anos, com a disseminação de uma droga terrível, como é o crack, que significa a morte.

Cezar Santos — Qual é o peso do crack nos índices de violência?

O crack está em todas as cidades, das maiores às menores, em todos os bairros, em todas as famílias, deixando as pessoas e as instituições sem saber o que fazer. A polícia prende os traficantes, mas não prende os usuários, que só podem ser tratados se eles quiserem isso de forma espontânea — com o que concordo, acho que isso tem de ser discutido. Acompanho famílias sofrendo com isso todos os dias e isso me comove muito, pode acontecer com cada um de nós. Tem o caso de uma senhora, pessoa de formação intelectual elevada, que eu respeito e admiro, e que está passando um grande sofrimento com um filho, menino também inteligente, mas que infelizmente se viciou nessa droga. Em busca de tratamento, a família perdeu todo o seu patrimônio e ele não conseguiu superar o vício, está sendo ameaçado por dívidas com traficantes. Estamos tentando ajudar, mas isso depende da pessoa também e que se vicia em crack não consegue tomar as melhores decisões para si. Há um boom de idosos sendo espancados, agredidos, molestados psicológica e fisicamente por filhos e sobrinhos, que ficam presos por um dia ou dois e depois são soltos. Os próprios idosos não querem abandoná-los, temendo que eles virem moradores de rua. Não há dúvidas de que o crack alimenta a violência em todo o País. Recentemente, aqui, o cidadão matou a namorada e o pai; outro matou a mãe e o padrasto, em Catalão; outro, em Senador Canedo, matou um rapaz e uma criancinha de colo por conta de dívida de crack. Foram várias mortes brutais em poucos dias, todas relacionadas a essa droga.

Cezar Santos — Depois dessa greve recente dos policiais, que saldo ficou?

Frederico Vitor — Os policiais civis estão satisfeitos com a remuneração atual?

Não há saldo ainda, a negociação ainda está em andamento. Houve uma proposta de reenquadramento, com promoções, e com indicativo de que no início do próximo ano haveria um aumento. Recebi os líderes do movimento dos policiais, que depois seguiram para uma reunião na Segplan. O processo, portanto, ainda está sendo construído, mas acredito que os policiais não estão satisfeitos e retornaram do movimento grevista ainda com essas pendências. Há essa proposta e espero que tudo chegue a um consenso. Os policiais civis de Goiás hoje têm excelente formação, todos têm curso superior, são pessoas dedicadas ao ofício e acredito que mereçam um salário digno. Infelizmente, nossa pasta não tem o poder de definir esse tipo de pauta, sobre a questão salarial, mas temos colocado sempre nossa opinião de que é preciso que o policial mereça ganhar mais. Isso não vale só para Goiás, mas para todo o País. É preciso que haja o avanço da proposta de um piso salarial para todos os policiais deve ocorrer logo, porque há diferenças muito grandes. Na Bahia, por exemplo, o policial ganha muito pouco. Com raras exceções, a remuneração é muito baixa. Essa discussão tem de avançar e o governo federal tem também de catalisar esse debate. É preciso fazer esse investimento em segurança e tudo começa em investir em pessoas.

Cezar Santos — A sra. é conhecida por não engavetar processos. Havia uma cultura de deixar inquéritos parados na polícia?

Não posso dizer isso. Em minha experiência como delegada foi muito restrita à ação, não tive muita experiência administrativa para fazer essa avaliação, minha experiência foi no campo. É muito difícil para eu fazer qualquer tipo de ilação sobre isso. O que posso dizer, como investigadora, é que há investigações extremamente complicadas, muito difíceis, nem sempre com apoio do Poder Judiciário para prosseguir. Tivemos uma época no Brasil, na qual eu não era policial, durante o período da ditadura militar, em que a polícia tinha muito poder. Depois viemos para outro extremo, que foi necessário, de um controle maior por parte de outras instituições, como o Poder Judiciário e o Ministério Público. Só que hoje temos uma Polícia Civil muito engessada, porque um número muito grande de ações depende de autorização judicial. Não que sejamos contra isso, obviamente é um procedimento que faz parte da democracia, já que isso pode interferir na liberdade das pessoas. Só que essas questões precisam ocorrer de forma célere, apoiando o trabalho da polícia. Por exemplo, uma informação simples, como saber a quem pertence um telefone celular. Para esse tipo de informação, a polícia deveria ter um acesso facilitado, mas não é o que ocorre hoje: é preciso fazer uma representação, explicar por “a + b” por que tal informação é necessária, em que esse telefone se relaciona com um crime etc. É preciso mostrar a necessidade dessa prova em especial e não outra. Isso demanda dias, semanas, meses, até que o juiz conceda — e nem sempre isso acontece. Aí, então, a solicitação vai para a operadora. Dependendo de qual seja essa operadora, pode ser que a resposta chegue em alguns dias. Agora, se for para a Claro — e isso vocês podem colocar na entrevista —, se o caso for de sequestro ou coisa assim, a informação vai demorar para chegar até a polícia.  A Claro demora muito mais do que as outras operadoras. Basta dizer que o presidente da Claro foi preso por ordem judicial, por causa disso. Nós, da Polícia Civil de Goiás, vamos ao Conselho Nacional de Chefes de Polícia pedir para que essa questão seja discutida, porque todos têm de ter prazos. Temos dezenas de investigações graves — estupros, homicídios etc. — que estão paradas aguardando informações da empresa Claro. Isso é muito grave. Por que a polícia não pode ter acesso a um cadastro ao qual qualquer funcionário da operadora tem acesso? Mesmo porque isso não interfere na liberdade, não se está ouvindo a conversa da pessoa, não se quer saber para quem ela ligou. Apenas se quer saber no nome de quem está registrado um telefone! (enfática) Muitas vezes essa simples informação leva à resolução de um delito ou a descartar a necessidade da quebra de um sigilo telefônico. Até que isso mude, aconselho as pessoas a pensarem nisso na hora de comprar um celular da operadora Claro.

Cezar Santos — Isso pode ajudar no cruzamento de informações…

Qualquer informação desse tipo hoje é complicada. Outro exemplo, saber onde uma pessoa vota. Por que isso precisa ter tanto sigilo? Isso faz com que muitas vezes as investigações se tornem difíceis, limita muito nosso trabalho. A gravidade dos crimes, o número de homicídios e a necessidade cada vez maior de que a Polícia Civil tenha uma ação eficaz e rápida na elucidação desses crimes têm de trazer uma discussão sobre as condições que te­mos para investigar tudo, da relação das instituições entre si. Tudo isso para que a gente possa responder à sociedade da forma mais rápida possível.

Cezar Santos — A sra. está se sentindo à vontade no cargo? Há alguma forma de pressão?

Uma das provas do concurso para delegado de polícia é sobre como você se sente sob pressão. A pressão faz parte do nosso trabalho. Estive sob pressão inúmeras vezes no exercício de meu trabalho. Basta observar quantos casos a imprensa acompanhou, que foram rumorosos, como o caso da menina Leidiane, morta pelo “Corumbá” [assassino em série], e vários outros que tive participação na resolução. Casos de estupros, troca de bebês na maternidade, crimes contra a vida, invasões de escola etc. A pressão faz parte e o policial jamais pode se ressentir da pressão, ela é um direito da família, da população, da sociedade como um todo. Devemos conseguir trabalhar bem, com a cabeça fria, mesmo sob a maior pressão. De forma alguma eu vou deixar de me sentir à vontade como delegada-geral da Polícia Civil porque há casos difíceis para ser solucionados. Eles sempre existirão, porque, mesmo que um dia cheguemos a ter um número muito baixo de crimes contra a vida, não conheço sociedade em que eles não existam, infelizmente. O que eu tenho é muito orgulho de falar do nosso esforço para tentar solucionar esses crimes. Isso eu posso comprovar, quando a gente puder esclarecer todos os detalhes dos casos rumorosos, especialmente o caso Valério Luiz [radialista morto na porta da emissora em que trabalhava, no dia 5 de julho], um dos casos em que a população tem se manifestado o desejo de vê-lo solucionado, ao menos no que diz respeito ao âmbito policial, que é apenas uma das fases do processo, digamos assim. Tenho orgulho e tranquilidade para poder dizer que estamos fazendo tudo o que poderia ser feito. Se há colegas que comentam — ou que dizem ser colegas, ou delegados experientes — esse caso, basta lembrar de casos similares que foram investigados por anos e não apenas por três me­ses, tanto em Goiás como no Brasil. Posso estar enganada, não me recordo agora, de al­gum crime em que houve um grau de preparação e de complexidade como o do caso Va­lério que tenha sido resolvido em menos de três meses. Pode até haver, mas não me recordo. Os casos que foram divulgados pela imprensa em que há possibilidade de mandantes, executores e houve uma preparação do crime, digamos assim, foram resolvidos em um tempo muito mais longo.

“O caso Valério Luiz vai ser esclarecido”

Cezar Santos — Em relação ao caso Valério Luiz, as dificuldades de apuração também ocorrem pelo fato de haver gente poderosa envolvida, gente de grande poder financeiro?

Eu acredito que, cada vez mais, a Polícia Civil precisa abstrair quem pode ser o culpado para poder fazer sua investigação de forma isenta. É o que a gente tem procurado fazer nesse caso.

Cezar Santos — Mas uma pessoa poderosa tem meios para dificultar a investigação…

Isso interfere na preparação, assim como a inteligência da pessoa também interfere na preparação, por exemplo, para montar o álibi. Toda a preparação, o planejamento do crime, causa efeitos na investigação. Mas isso não ocorre necessariamente por se tratar de uma pessoa de grande condição financeira. Pode ser simplesmente por ser uma pessoa extremamente inteligente, experiente na prática de crimes, que tenha conhecimento de investigação. O que posso dizer é que a investigação está se transcorrendo normalmente, independentemente de quem sejam os suspeitos. A única diferença no caso Valério — tendo em vista tratar-se de uma vítima extremamente conhecida, querida, que todos acompanhavam em seu trabalho e havendo suspeição sobre pessoas igualmente conhecidas, conforme a própria família fez — é o sigilo. Se não houver o sigilo das diligências em si estas não terão resultado. Isso também ocorre em outros casos também. Veja o caso do promotor que sofreu um atentado: os criminosos foram apresentados seis meses depois do crime. Tudo foi feito em absoluto sigilo. Embora não houvesse tanta cobrança da mídia, não interrompemos a investigação e en­tendemos que era uma questão de honra sua resolução — aliás como são todos, mas nesse caso ainda mais, para que a população se sentisse reconfortada, além da própria instituição Ministério Público. No caso Valério também há um grande sigilo nas investigações, como há em outros casos os quais a imprensa sequer questiona. Quando você fala em dificuldades diante desse caso, respondo que as investigações estão ocorrendo normalmente. Não há dificuldades. Estamos trabalhando com provas técnicas, que são demoradas para sua produção, a cargo da Polícia Técnica. Quando apresentarmos o resultado da investigação policial, pode ter certeza de que faremos isso com provas, para então se passar a outra fase, no Judiciário. E, para nós, tais provas bastarão para a condenação. Nós esperamos que o Poder Judiciário haja com rigor igual ao que estamos agindo nesse caso.

Frederico Vitor — A sra. confirma que há um retrato falado do executor do crime contra Valério Luiz?

Não estamos divulgando essa informação, se existe ou não, assim como outras informações. Achamos importante que isso seja mantido em sigilo, haja vista o risco que há para as pessoas envolvidas.

Cezar Santos — Houve o interrogatório de uma testemunha-chave, que viu o crime?

Houve depoimentos de dezenas de pessoas que estavam nas proximidades do crime, muitas mesmo. O número de testemunhas ouvidas, entre transeuntes, moradores e trabalhadores, é muito grande. Não podemos é especificar, porque isso colocaria tal pessoa ou tais pessoas em risco. Não podemos fazer isso.

Cezar Santos — Volta e meia surgem algumas críticas a sua atuação no caso Valério. Esse tipo de crítica lança suspeição sobre o trabalho da polícia e especificamente sobre seu trabalho, como delegada-geral, jogando uma suspeita de corpo mole. Isso magoa a sra., deixa-a triste?

Sim e não. Por um lado a gente precisa estar preparada para isso. Faz parte do cargo, as pessoas têm o direito de criticar. Sendo uma servidora pública, uma pessoa que dirige uma instituição cujo trabalho é tão importante para a sociedade, é preciso ouvir essas críticas de forma fraternal, procurando refletir se não posso realmente melhorar. Quem me conhece sabe que eu sou assim. Levo muito a sério o fato de ser uma funcionária pública. Quem paga meu salário tem o direito, sim, de criticar. Por outro lado, temos de considerar — eu repito — que esse tipo de crime nunca ocorreu em Goiás para ser resolvido em um prazo de três meses — se é que foram resolvidos, porque há vários que nunca foram solucionados. Por isso, acredito, embora possa estar enganada e eu pediria desculpas humildemente, que essas críticas são injustas. Falo isso porque não posso mostrar o trabalho que minha equipe fez e está fazendo porque é preciso manter o sigilo. Não posso relatar o que foi feito ontem, anteontem, por delegados reconhecidos, que têm uma folha de serviços prestados a Goiás que deveria ser respeitada. A delegada Adriana Ribeiro, que dedica a vida a essas investigações; o delegado Kleyton Alencar, que quem já precisou dele sabe de seu empenho. Suas equipes são de policiais extremamente dedicados. Então, é claro que a gente respeita essas críticas, mas são injustas. Se a gente puxar pela memória, há casos similares, em que às vezes nem houve tanta preparação, com suspeita de mandantes e executores, como o caso Boadyr Veloso, o caso do padre Moacir, ou o caso Túlio Jaime, que não foram resolvidos por colegas que estiveram aqui, em meu posto, antes de mim — ou que foram resolvidos depois de três, quatro, sete anos. Vendo dessa forma, não é justo uma pessoa ir até a imprensa anonimamente e criticar o trabalho. Acho isso um absurdo. A pessoa tem de ser ho­mem ou ser mulher de mostrar a cara, senão fica muito fácil. Há fatos muito chatos, como essa denúncia, que foi arquivada nesta semana pelo Ministério Público, segundo a qual eu não teria direito de ser chefe de polícia porque eu não era uma delegada de última classe, que é a classe final dos delegados. Isso foi feito de forma anônima. Acho isso vergonhoso, principalmente quando o autor é uma pessoa que se diz policial. Não pode estar no vocabulário de um policial isso de fazer acusação ou denúncia anônima. Então, creio que são críticas injustas, mas não tem problema. A verdade vai ser esclarecida e a gente está trabalhando nesse sentido. No momento em que a gente puder mostrar tudo o que está sendo feito, isso com certeza será reconhecido, como foi o caso Polyanna Arruda, do qual eu tive a honra de estar como chefe quando o crime foi esclarecido, podendo ajudar os companheiros que estavam naquele trabalho, depois de dois anos de investigação. A resposta a sua pergunta, portanto é “sim e não”. Acredito, sinceramente, que a sociedade goiana acompanha a vida de cada um de nós como profissional e sabe que a gente pode até errar, mas que se esforça e dá tudo de si.

Frederico Vitor — O que a sra. pode dizer sobre o caso Boadyr Veloso?

Infelizmente é um caso que teve uma investigação que ficou parada, mas não está mais assim. Determinei que ele fosse retomado e medidas judiciais foram requeridas. Estamos agora aguardando autorizações judiciais e acreditamos que poderemos ser bem sucedidos. Infelizmente, o lapso de tempo em que o caso ficou sem ser investigado atrapalha um pouco, mas tudo foi retomado e tentaremos superar isso.

Frederico Vitor — E sobre o caso de Doverlândia?

No que diz respeito ao trabalho da Polícia Civil, o caso está completo. Estamos aguardando agora duas provas periciais extremamente importantes, imprescindíveis para a conclusão. Uma é o laudo da reconstituição e outra é o laudo de DNA. Após a reconstituição, que foi publicizada e acompanhada pela imprensa, a parte da Polícia Civil se en­cerrou. Hoje, por causa do número aquém da necessidade de peritos e profissionais da Polícia Técnica, esses laudos demoram mais um pouco, também porque são muito minuciosos. A perita que fez o trabalho juntamente com nossos colegas que faleceram no acidente com o helicóptero conseguiu recuperar parte do que foi feito anteriormente. Assim, fotografias e outros materiais que já estavam produzidos foram juntados ao que ela produziu. É um trabalho que unifica o que foi feito pelos delegados e peritos que sofreram o acidente e o que foi produzido por ela e os novos delegados designados. É um trabalho complexo, minucioso. Acredito que não há urgência para esse caso, mas vamos apresentar o resultado da investigação à sociedade com certeza absoluta.

Frederico Vitor — E em relação ao acidente com o helicóptero? Já há alguma resposta?

Infelizmente esse tipo de investigação é muito demorado. A Polícia Civil está acompanhando, por meio de um delegado, cada passo da investigação no Cenipa [Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aero­náuticos, órgão da Infraero que investiga acidentes aéreos]. Também temos nosso inquérito policial e estamos ouvindo testemunhas. Aguardamos esse laudo do Cenipa para que a gente tenha uma indicação. A gente espera saber as razões do acidente. É muito angustiante ficar sem explicações para esse caso. Há muitos inquéritos de acidentes aéreos que não são conclusivos. Torcemos muito para que não seja o caso. No momento, as peças da aeronave estão sendo analisadas pelo fabricante. In­felizmente todos esses laudos demoram muito.

Cezar Santos — Em sua última entrevista ao jornal, a sra. disse que o índice de resoluções de homicídios de Goiás era bom. Continua assim?

Sim. Temos tentado levar isso também para os grupos de investigação de homicídios no interior do Estado, mas sem o aporte de mais pessoal tudo se torna muito limitado. Com o concurso, queremos criar grupos de investigação de homicídios em todas as regionais no Estado, em especial no Entorno de Brasília. Queremos também reforçar as equipes de Goiânia, Aparecida e Senador Canedo. A capital tem uma grande equipe, nunca houve tantos policiais trabalhando. Temos um índice de solução muito alto e pretendemos aprimorá-lo ainda mais com os colegas que chegarão. Temos vários projetos em andamento com relação a questões estruturais, como viaturas, computadores e materiais de trabalho em geral para o policial. Conseguimos colocar isso no PAI e vamos investir mais em estrutura. No caso de Senador Canedo, infelizmente tivemos um aumento no número de casos de homicídios, a partir de 2008. Mas praticamente não há homicídios não solucionados na cidade. Pode ser por causa de não haver tanta gente de fora, como ocorre em Aparecida e no Entorno do DF, mas também é o resultado do trabalho de uma equipe atuante.

Cezar Santos — A sra. tem números comparativos com outros Estados sobre a questão da resolução de homicídios?

Os números mudam frequentemente, mas de tempos em tempos os analisamos. Percebemos que este ano a maioria dos Estados teve aumento no número de homicídios. Percebemos também que onde houve um investimento maior no combate ao crime contra a vida houve também um aumento do número de casos apurados e uma redução das ocorrências. Isso não se deu só por causa da apuração, mas também pelo investimento em diversas áreas simultaneamente, por parte do Estado e do governo federal. Vejo que hoje estamos, aqui em Goiás, em uma posição elogiável em relação à elucidação de homicídios. Em Goiânia solucionamos cerca de 60% dos casos, mas em algumas regiões isso pode chegar a quase 100%. Podemos dizer também que houve um acúmulo de inquéritos policiais e de homicídios não solucionados no Estado. Já reunimos esse passivo de inquéritos de homicídio até 2008 e designamos uma comissão que está estudando esses inquéritos. Eles serão divididos e todos os policiais de Goiás vão contribuir para a elucidação ou para o arquivamento desses inquéritos, que são mais de 3 mil.

Cezar Santos — É uma espécie de força-tarefa?

Já existe a força-tarefa, que está funcionando em parceria com o Ministério Público, inclusive no prédio dessa instituição. Mas há também outro procedimento, que é esse, pelo qual todos os colegas delegados, agentes e escrivães do Estado de Goiás vão contribuir com esses inquéritos. Quis tirar isso da responsabilidade das delegacias de homicídios hoje para que isso não aconteça no futuro, para que esses crimes que estão ocorrendo hoje sejam solucionados em um número cada vez mais alto e nunca mais acumulemos esse passivo de inquéritos não solucionados. Um homicídio cometido em 2008 é uma ferida na família da vítima, em toda a sociedade, naquela comunidade, naquela cidade, en­quanto não for solucionado. A gente tem de dar um novo olhar no caso, para tentar dar resolução. Caso não consigamos, o inquérito será arquivado pelo Ministério Público. Se surgir uma nova prova, claro, poderemos reabri-lo.

Frederico Vitor — Nossa sociedade está perdendo a noção do valor da vida?

Quando há um homicídio como esse contra Valério Luiz, gravíssimo e que afronta até a liberdade de pensamento, a gente tem de parar para refletir sobre como está a tolerância entre as pessoas. Tiram a vida das pessoas por motivos cada vez mais fúteis. Fico muito triste quando vejo uma pessoa tirar a vida de outra por causa de times de futebol, ou por causa de votar ou deixar de votar em certa pessoa. Ou aquele caso em que uma dançarina pediu ao namorado para assassinar a colega dela. É muita crueldade, futilidade, falta de dar valor à vida. Em Goiânia, fiz um estudo sobre os crimes relacionados a brigas de torcida. O número de casos que foram solucionados, com pessoas presas e condenadas, é muito grande. Mesmo assim, a cada campeonato, jovens se envolvem em situações de violência e assassinam outro jovem que nunca fez nada a eles, simplesmente por estar com a camisa de outro time ou de outra torcida. Não é o fato de a PM ou a Polícia Civil prenderem as pessoas acusadas e serem condenadas, inclusive com a qualificação de motivo fútil, com grau que impede essas pessoas de tirar a vida de outra. Então, é uma discussão que tem de ser feita e na qual a imprensa tem papel importante. Esses crimes fúteis estão acontecendo em todo o País. Em Cocalzinho de Goiás, uma cidade tranquila, tiraram a vida de um senhor por ele ter reclamado de um cachorro que estava no interior do bar. Os autores são presos, autuados em flagrantes, estão presos, mas, no entanto, no outro dia crimes similares ocorrem. Não é so­mente uma questão de polícia. Temos de rever o que está acontecendo com a convivência entre as pessoas em nossa sociedade.

Matéria publicada no Jornal Opção, edição de 7 a 13 de Outubro de2012
Texto: Cezar Santos e Frederico Vitor
Fotos: Fernando Santos