Adriana Accorsi prega ação humanista, mas dura contra o crime em entrevista Opção

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“Temos de refletir sobre como estamos criando nossos filhos”

 Delegada Adriana Accorsi assume a Delegacia-Geral da Polícia Civil e prega uma prática mais humanista nas ações policiais. Mas o recado dela é de dureza contra o crime

Um detalhe importante observado na fala de Adriana Accorsi durante a entrevista que concedeu ao Jornal Opção foi a frequência com que ela usa a palavra “pessoa”. A primeira mulher a assumir o comando da Polícia Civil em Goiás não abre mão do termo nem mesmo quando o sujeito a que se refere é o que a maior parte da população não chamaria de outro nome que não “bandido”.

Delegada Geral da Polícia Civil, Adriana Accorsi, durante entrevista ao Jornal Opção

A forma de respeitar o outro — mesmo que esse outro tenha feito a um terceiro algo muito mais grave do que desrespeito — é um dos traços humanistas da nova delegada-geral da Polícia Civil e encontram origem, provavelmente da formação que teve em casa. Ela é filha do ex-prefeito Darci Accorsi e da professora Lucide Accorsi. Da criação que recebeu dos pais e da educação que dá aos filhos ela tem um orgulho: “Nunca houve nenhuma espécie de castigo físico”, conta Adriana.

Em suas primeiras semanas à frente da polícia goiana, ela mostra disposição e vontade de devolver à sua equipe — outra palavra que ela gosta de usar — a motivação necessária para o combate à crise no setor de segurança em todo o Estado. Formada em Direito pela UFG e com especialização em Ciências Penais e Gestão em Segurança Pública, ela completa 12 anos de carreira como delegada em janeiro. A marca continua a mesma desde que assumia o posto no interior, em cidades como Turvânia, Bela Vista de Goiás e Nazário, e com a qual se destacou na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) e que mostrou recentemente na Superintendência de Direitos Humanos: a credibilidade e a disposição para o trabalho.

 Herbert de Moraes Ribeiro — A sra. é conhecida como uma delegada dedicada, com capacidade de comando, objetividade e resultados. Como é os policiais se sentem administrados por uma mulher?

O trabalho, para mim, é um prazer. É um sonho de criança que consegui realizar e sou feliz em ser policial. Ser chefe da minha instituição também é um sonho. Recebi isso com muita alegria e creio que minha força, que fez com que eu, com minha equipe, resolvesse tantos casos durante esses anos, pode fazer diferença na vida das pessoas. Cheguei a atender 50 pessoas por dia. Quando eu trabalhava com pedofilia, as pessoas me falavam “poxa, você resolve um caso, mas chegam 20, 30 todo dia”. Mas uma criança que a gente salvar vale toda a minha vida, se eu escolhi ser policial. No futuro, retornarei a uma delegacia, normalmente, mas agora quero compensar minha inexperiência a­dministrativa no cargo com a ajuda de minha equipe e com muito trabalho. Gosto de estar junto, de almoçar com os policiais, de ir para  uma campana, de estar as operações. Fiz minha primeira operação na região Noroeste de Goiânia, a localidade mais humilde e também mais atingida pelo pequeno tráfico, com grande número de homicídios. Estávamos lá, às 4h30 da manhã, liderando os policiais. Ainda não tenho um retrato total do que é administrar 3 mil policiais em todo o Estado, temos muitos problemas, mas o que venho sentindo é um novo ânimo. O que eu disse é que nós vamos fazer operações, vamos prender, vamos para a rua, vamos agir. Essa é a minha marca e é assim que vai ser. Não mudei ninguém agora, acho que não é por aí que se começa. Mas quem não entrar no ritmo vai ser relocado, vai ser transferido. Vamos ver quem vai se adaptar. Por outro lado, os colegas mesmo vêm, mostram planos para suas regiões, chegam animados, trazendo ideias. Estou tendo até a possibilidade de escolher as operações. O mesmo tem acontecido com entidades de classe. Vejo que há uma identificação com o que eu penso. Então, estou mesmo muito animada e acredito que a gente possa fazer a diferença como chefe da Polícia Civil.

Herbert de Moraes Ribeiro — Nesses poucos dias de trabalho à frente da polícia, já se pode vislumbrar algum resultado?

São poucos dias, mas já há estatísticas em elaboração e veremos queda em todos os tipos de crime. Talvez roubo de carro seja algo mais difícil de se observar isso, mas também houve redução das ocorrências. É claro que houve todo um contexto, não foi apenas a Polícia Civil que veio em nova versão, mas também a Polícia Militar. Isso foi muito importante e trouxe alento para todos, homens e mulheres, que trabalham hoje com a segurança. É inegável que a PM estava desmotivada desde aquela operação do início do ano [Ope­ração Sexto Manda­men­to, que prendeu vários militares sob acusação de formar grupos de extermínio]. Assim também ocorreu com os policiais civis, que estão em uma luta de muitos anos sem reposição salarial. Os delegados não têm reajuste há sete anos, não há concursos e as delegacias estão em condições ruins. Então, há vários motivos para que estivesse ocorrendo essa desmotivação. Era necessário essa troca de comando para trazer esse novo ânimo. E acho que isso aconteceu, tanto com a Polícia Militar como com a Civil. O combate à criminalidade precisa ter seus dois vértices funcionando muito bem: a PM atuando na ostensividade, pelas ruas, coibindo a criminalidade que ocorre no dia a dia. O fato de ver a viatura circulando traz uma real sensação de segurança e representa a própria segurança, sim, não é uma ilusão. E a Polícia Civil, por outro lado, cumprindo também sua atribuição de forma eficaz, investigando, prendendo e indiciando quem pratica o crime, dando assistência às vítimas, tudo isso traz uma tranquilidade para o cidadão, para as famílias. Mesmo sem resolver totalmente o caso, a pessoa se sente satisfeita porque houve a prestação de serviço por parte da polícia judiciária. Essa sensação, eu acho que já anda existindo e veremos também que os números diminuíram, inclusive os de homícidios.

Herbert de Moraes Ribeiro — O trabalho da sra. não é só de prender o bandido, mas também de tentar mantê-lo preso. A sra. já entrou em contato com o Ministério Público e o Poder Judiciário para um apoio efetivo a essas ações da polícia em Goiás?

Isso sempre foi uma preocupação minha, ainda como chefe da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), co­brando uma ação mais rigorosa do Poder Judiciário contra assassinos, pedófilos e pessoas em geral que co­metem crimes contra mulheres e crianças, que era a minha área. Sou autora de uma proposta, que está hoje na Justiça, para a criação de uma vara especializada para julgamento dos crimes contra a criança, que hoje demoram cinco, seis, até sete anos. Os crimes de pedofilia em Goiânia, se o réu está solto, demoram cinco anos. Como fica isso? A vítima  é uma criança! (enfática) Não pode acontecer isso. Sempre protestei, inclusive de público, contra a libertação de criminosos que eu prendi. Vejo que é imprescindível, então, esse trabalho em conjunto. Já conversamos, nesta semana, com o Ministério Público e discutimos a necessidade de criação de uma delegacia contra o crime organizado, que criaremos em breve. Com o Poder Judiciário, teremos um novo presidente do Tribunal de Justiça to­mando posse daqui a alguns dias. Uma das primeiras providências de ano-novo será visitá-lo e falar com ele sobre isso, com propostas claras, inclusive dando no­mes de juízes que dificultam nosso trabalho. Vamos provar, mostrando juízes que nunca deferem prisões de criminosos, às vezes assassinos com várias passagens, que não têm suas prisões decretadas. Às vezes vamos até o fim do mundo atrás de um assassino, de um estuprador, e, ao chegar aqui, o advogado entrega meia lauda para o juiz e este o liberta, mesmo com passagens pela polícia, mesmo sendo foragido. Como isso pode acontecer? Isso tem de ser critério para prisão preventiva, como essa pessoa pode ser libertada? (enfática) São questões que refletem impunidade. A polícia tem de ser cobrada, tem de ser eficaz e rigorosa. Mas sem o Ministério Público e o Poder Judiciário agirem da mesma forma, não há eficácia, isso não vai adiante. Espero essa cooperação, porque promotores e juízes também são sociedade: afinal, seus filhos vivem aqui. A contribuição deles é essencial para conseguirmos fazer a criminalidade voltar a ter níveis aceitáveis.

Herbert de Moraes Ribeiro — A sra., obviamente, esbarra na realidade estrutural brasileira.

Como superintendente de Direitos Humanos, eu já procurei acompanhar esse aspecto e suas discussões. Esse é um grande desafio hoje de todo o Brasil e se relaciona sempre a governo federal e governos estaduais. Todas as obras que estão sendo propostas são em verbas conjuntas, estaduais e federais. Não é só a questão estrutural, de construir mais presídios e mais vagas. Toda a Nação precisa parar e refletir sobre isso. Se nós queremos, como hoje, quando sai uma pesquisa como a que saiu, sobre o número de homicídios, que essas pessoas estejam presas, é preciso parar e refletir. É preciso dizer “nós queremos que elas paguem pelo que fizeram”. Esse é um dos caminhos necessários. A técnica para diminuição de homicídios é buscar a responsabilização. E responsabilização, em caso de homicídios, significa cadeia. Em um país em que não há prisão perpétua nem pena de morte, essas pessoas fatalmente vão voltar para a sociedade. Então, temos de repensar tudo, não é só aumentar número de vagas nos presídios. É preciso saber que essas pessoas presas vão sair e pensar em como elas vão sair. Hoje elas saem piores. Isso tem de ser pensado por todos nós. Aqui em Goiás, as delegacias, onde se deveria concentrar energia nas investigações, estão lotadas, é um problema grave. Estamos tentando buscar soluções juntamente com o secretário, buscando verbas federais, para construir quatro grandes presídios em 120 dias, além de um centro de triagem em Goiânia para que as cadeias não fiquem abarrotadas. Mas creio que os técnicos do governo federal e da segurança têm de se debruçar sobre essas questões: o que vamos fazer agora, vamos só construir presídios e abrir vagas lá? É preciso pensar, tem de haver pelo menos um índice mínimo de pessoas presas que se recuperem. Elas têm de trabalhar, estudar, se recuperar de seus vícios.

Cezar Santos — Há algumas semanas, o governo anunciou uma série de ações para reforçar a segurança. Há uma cobrança grande da sociedade. A sra. considera que a segurança pública em Goiás está em crise?

Como funcionária pública e também parte da sociedade, acho que o País inteiro tem esse desafio hoje, o de encontrar o caminho certo para a segurança pública. Sou admiradora da presidenta Dilma Rousseff e torço muito por ela, mas esse ainda é um nó, tanto na política nacional como em todos os Estados. Assistimos uma avalanche de crack atingir nossos filhos, nossas famílias. É como “Walking Dead” [série norte-americana de TV], vai ficando todo mundo zumbi e não sabemos como agir. Com certeza, isso é uma das causas do aumento da criminalidade, não é conversa, mas não acho que seja um problema de Goiás, mas nacional. Por aqui, várias questões fizeram com que o ano fosse problemático para a segurança no Estado. A Ope­ra­ção Sexto Mandamento de alguma forma tinha de acontecer, em minha opinião, mas ela trouxe uma desmotivação muito grande à polícia, principalmente à PM, mas que atingiu todos no geral. Outro dado é que tivemos um crescimento populacional muito grande em Goiás nos últimos anos e que se reflete nas ocorrências. Você pega o relatório de ocorrências e vê lá “Bahia”, “Pará”, “Maranhão”, “Bahia”. É um fato que pessoas de fora, sem condições de moradia, de saúde, de trabalho, acabam por cometer crimes aqui. Longe de mim criticar isso, Goiás é um Estado maravilhoso, Goiânia é uma cidade linda, eu também sou de uma família que veio de outro Estado. Mas o fato é que isso tudo está acontecendo e o contingente da polícia não aumentou. Ficamos sem concurso e, no concurso que tivemos, para delegados, metade saiu, porque não houve reposição salarial durante todo um mandato. Tudo isso é muito grave. Portanto, são fatores que se juntaram e causaram uma situação problemática.

Andréia Bahia — Sobre o problema das drogas ligadas à criminalidade, é essencialmente o crack que é responsável pela condição difícil que encontramos hoje?

O crack trouxe uma nova situação. Sou delegada da época em que a gente prendia quem vendia maconha ou cocaína mais amiúde. O crack transformou toda a questão, desde o tratamento ao comportamento do viciado. O usuário de maconha raramente se envolve em crimes, a não ser o do tráfico. Não é uma pessoa agressiva, que sai praticando crimes violentos. Ele também tem momentos de lucidez, em que pode escolher se tratar, fazer um acompanhamento ambulatorial. O viciado em crack, não. Não sou profissional da área, mas vejo que a pessoa não consegue perceber que está se acabando. Ele vai em um círculo doentio, que só vai piorando. A relação familiar também só vai piorando, se deteriorando até o fim. A pessoa bate no filhinho que a acordou, bate na mãe, estupra a avó, corta o pescoço do pai, porque não lhe deu 5 reais. Hoje, as crianças que se prostituem acabam nessa vida essencialmente por causa do crack, inclusive com preço pago em crack. É uma droga que realmente veio transformar tudo negativamente.

Andréia Bahia — A sra. é a favor da internação compulsória para viciados?

É uma discussão que temos de fazer. Em determinados casos isso é necessário. Um caso exemplo, para mim, é a Rauane, uma menina de 12 anos e era uma menina normal, bonita. A mãe era muito humilde e ela não tinha pai. E um dia ela começou a usar crack. Rapida­mente a vida dela se deteriorou. Ela precisava de dinheiro para comprar a droga e a mãe não tinha mais. A Rauane começou então a vender as coisas em casa e a mãe não deixou mais. A saída para sustentar o vício foi se prostituir, por 10 reais a cada relação sexual. Na primeira vez, ela estava na rua, na hora do almoço, com um motoqueiro, em um beco. Ele foi preso por nós e ela, internada. No dia seguinte, a Rauane fugiu. Aconteceu tudo do mesmo jeito, 15 dias depois. Na terceira vez, a minha equipe veio com a mãe e me disse que não sabia o que fazer, porque ela tinha acorrentado a filha à cama. Chamamos todo mundo de novo, autoridades municipais, Conselho Tutelar e tudo o mais. Alguns meses depois, estava eu com a Rauane morta com um tiro na cabeça e eu tinha de investigar quem a matou. A gente descobriu quem era — um criminoso com várias passagens, inclusive latrocínio, que também acabou morto antes de ser preso, em confronto com a Rotam. O que tinha acontecido? Ele a deu 10 reais em troca de sexo, ela usou a droga e depois não quis fazer sexo. Ele a matou em uma noite, na rua. A pergunta que eu faço é: quando essa menina teria discernimento para se internar? Nunca! (enfática) O que deveria ocorrer era sua família, sua mãe, que me disse chorando que não queria ver sua filha morta, ter direito a uma internação após seu caso ser avaliado por um juiz. O plano da presidente Dilma Rousseff para recuperação desses viciados é o primeiro ao qual se alocam recursos grandes para isso e todos temos de apoiá-lo. Se for assim, tem o meu apoio. E, se um dia eu puder criar um lugar para as pessoas se tratarem, ele vai se chamar Casa Rauane.

Andréia Bahia — O que a sra. pensa sobre a chamada Lei da Palmada, pela qual se quer coibir o pai de educar seu filho?

Não concordo que essa lei tenha essa intenção. Não fui criada com castigo físico e não acredito no castigo corporal. Tenho três filhos já saindo da adolescência e não os crio assim. Aliás, esse nome, “Lei da Palmada”, é totalmente equivocado. O que a lei diz é que o castigo e a humilhação não devem estar junto à educação dos filhos, com o que concordo plenamente. Participei das discussões e de audiências públicas. O abuso físico é tão grave ou mais grave até do que a pedofilia, porque as pessoas ainda acham que isso é certo, dar um tapa na cara de uma criança! As pessoas acham que isso é uma palmada. Se alguém der um tapa em um adulto vai preso, porque é injúria qualificada. Por que, então, a criança, que ainda está aprendendo as regras, pode levar um tapa na cara? Para ver o tanto que bater é errado, basta ver que o adulto faz coisas erradas o tempo todo: traições, trapaças, furtos etc. Mas, se alguém bater na gente, a gente vai até a polícia. A gente deveria saber as regras da vida, mas se for corrigido com violência física é crime, é tortura. Então, por que a criança tem de ser corrigida com violência? É a maior forma de humilhação, algo como dizer “eu sou mais forte, por isso (simula um tapa) fica quieto!”. E as pessoas denunciadas não dão palmadas: quem se acha no direito de educar com castigo físico arrancam cabelos, quebram dedos, quebram braços, esquenta colher e queimam a criança. As pessoas fazem isso, coisas assim chegam todo dia na delegacia! É por isso que temos de dizer não ao castigo corporal, porque as pessoas frequentemente passam do limite, fazem isso bêbadas, drogadas, fora de si. Por isso tudo, acho que essa lei não vem dizer como educar, mas, sim, alertar para o fato de que a violência, o castigo físico não é uma forma de educar.

“Situação do Entorno do DF é preocupante”

Elder Dias — Mas isso já não está contemplado pela lei brasileira?

Sim, está contemplado, mas veja: temos uma legislação de 1945 e nós, que trabalhamos com isso, estamos dizendo que ela não é eficaz, que as pessoas não a respeitam. Então, era preciso essa discussão nacional. Estamos em um país onde se mata como se mata em guerras. Temos de refletir sobre como estamos criando nossos filhos. Será que não estamos ensinando exatamente é que todo conflito que houver só será resolvido com violência? Não adianta só cobrar da polícia, mesmo porque ela só aparece depois de ocorrer o homicídio. Temos de pensar no que estamos fazendo. E isso está acontecendo em casa. Não é só mandar a polícia prender quem matou. Muitas dessas mortes são por motivos fúteis, porque não sabemos resolver conflitos com diálogo. Uma lei como essa, chamada erroneamente de Lei da Palmada, traz, no fundo, é essa recomendação de que temos de repensar como criar nossos filhos.

Elder Dias — Avaliando o papel da imprensa, a sra. considera que há uma distorção do sentido inicial da lei? A imprensa presta, então, um desserviço?

Realmente há uma distorção, mas acredito que o que a imprensa faz é refletir um pensamento que está na sociedade. É provável que muita gente não tenha entendido, o que é, então, uma falha de quem está divulgando a proposta. Nesse sentido, as audiências públicas que estão ocorrendo pelo País são interessantes. Participei de uma delas aqui em Goiânia, mas infelizmente poucas pessoas da comunidade estavam lá. Compa­re­ceram diretores de escolas, de entidades de proteção à criança, de assistência familiar. É um tipo de discussão importante.  Se a imprensa usa o termo “Lei da Palmada”, eu considero uma forma equivocada, mas é assim que uma parte da sociedade vê. Quero contribuir para essa discussão como uma pessoa que se preocupa com o drama da violência. É um processo de aprofundamento e socialização da ideia. Como essa lei não prevê punição, ela só vai dar certo se todos entenderem qual seu sentido.

Elder Dias — Essa lei não levaria a uma sensação de permissivismo, principalmente se a gente observar como era o jeito de educar de nossos pais e avós, às vezes muito rígido?

Esse é um pensamento equivocado, mesmo porque essa lei não vem para punir, não tem esse objetivo. Fui criada, assim como meus irmãos, sem nenhuma espécie de castigo físico e assim eu e meu marido criamos nossos filhos também. Mas, por outro lado, não dá para criticar as pessoas que usaram um tipo mais rude de educação no passado: era comum, normal, às vezes até considerado como uma forma de atenção. Só que tudo tem de mudar, tem de avançar.

Andréia Bahia — A sra. disse que uma das prioridades de sua gestão será o crime contra a mulher. Por quê?

Minha prioridade é o crime contra a vida. E isso inclui, também, a ameaça. Agir com rigor contra quem ameaça mulheres é essencial, é um absurdo registrar só TCO para alguém que diz “eu vou te matar”. Acredito que a gente possa prevenir muitas ações criminosas dessa forma, intimidando quem faz ameaças. O fato de haver uma mulher no comando da polícia precisa ter significados. Um deles é fazer uma mobilização que priorize os crimes contra as mulheres, que são, sim, mais vulneráveis, mais indefesas. Penso aqui, por exemplo, na situação daquela diarista, que foi assassinada e ficou morta em pé, após ser assaltada. Poderiam ter tomado o dinheiro dela e ido embora. Mas o que demonstram crimes assim é uma crueldade muito grande.

Andréia Bahia — Há algum caso específico que incomoda mais a sra., que seja prioridade?

Vários casos me incomodam muito. Tenho chamado meus colegas e solicitado que se faça o necessário para dar respostas a essas famílias. Espero, sinceramente, trazer em breve a solução desses caso para a população.

Andréia Bahia — A situação dos policiais civis do Entorno do DF é especialmente preocupante?

Estive conversando com os policiais da região. A greve terminou há cerca de uma semana. Estamos nos esforçando no sentido de trabalhar como interlocutores das reivindicações dos policiais do Entorno, que acredito serem muito justas. O projeto que dobra a gratificação da categoria já está na Assembleia Legislativa e será atendido.

Andréia Bahia — A solução para a violência no Entorno envolve um trabalho conjunto de governo federal, de Goiás, do DF e das prefeituras. Há como fazer com que todos esses entes participem de verdade?

As autoridades precisam se dar conta, de uma vez por todas, da necessidade de investimento tanto na questão policial diretamente como nas demais carências, que acabam contribuindo para essa situação de violência que ocorre. Existem muitos outros aspectos que precisam ser observados pelos governos no atendimento à população — saúde, educação, saneamento, exclusão social em si. Não é, absolutamente, só policiamento. Temos, então, duas grandes frentes para atuar contra a violência no En­torno. Em relação à ação governamental, está sendo assinado um termo agora entre a União e o Estado para a construção de presídios e delegacias. Já há verbas realmente chegando para diminuir esse problema de superlotação da população carcerária. Na parte da Polícia Civil, estamos trabalhando em uma grande operação, principalmente contra o pequeno tráfico na região. O Entorno também será o primeiro local para o qual mandaremos mais efetivo — os aprovados no concurso cujo edital sairá em janeiro. Então, temos algo na área de segurança. Seria essencial, no entanto, ter medidas em áreas como saúde e educação, porque a exclusão social lá é profunda.

Andréia Bahia — O pequeno tráfico envolve muito, em sua execução, menores de idade. O Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) está defasado, nesse sentido?

De forma geral, sou uma grande defensora do ECA. É uma lei muito importante em vários aspectos, revolucionário até. Sobre o adolescente em conflito com a lei, creio que ele funcionaria se fosse realmente posto em prática.

Elder Dias — O que parece não há é estrutura para isso.

Exatamente. Sou uma pessoa que tem batalhado muito pela aplicação plena do ECA, porque, no dia em que conseguirmos colocar em prática tudo o que está nele com relação ao adolescente infrator teremos bons resultados. No caso das drogas, o adolescente usuário não seria punido mesmo se fosse tratado como adulto, porque o vício não é crime no País. Se o adolescente faz o pequeno tráfico, também não fica preso. O que caberia ao ECA, então? Seria o apoio efetivo a esse adolescente, com liberdade assistida, assistência social, psicólogos, tudo o que fosse necessário para dar uma perspectiva de vida para ele, com estudo e emprego. Sobre casos graves, homicídios, crimes cruéis, penso que deveriam ser punidos com rigor, sejam eles cometidos por adultos ou adolescentes. Não sou a favor da redução da maioridade penal, porque isso não resolve. Mas hoje, no Brasil, pessoas que cometem crimes graves, tenham 26 ou 16 anos, deveriam ser punidos rigorosamente e ser isolados da sociedade, sim. Há pessoas que fazem mal à sociedade, apesar de terem 16 ou 17 anos. A população tem o direito de se protegida de quem demonstrar algum transtorno antissocial.

Andréia Bahia — A sra. é a primeira delegada a comandar a polícia no Estado, o que é emblemático, mas o que isso acrescenta de fato?

Acho que há um crescimento do número de mulheres em várias profissões, inclusive na polícia. Estamos avançando, mas não apenas em número, mas também em qualidade. É inegável o aumento do número de mu­lheres em todas as polícias, inclusive na Polícia Civil, e sua ascensão a cargos cada vez mais importantes. Na delegacia considerada mais importante, a de Homicídios, hoje a titular é uma mulher, Adriana Ribeiro.

Elder Dias — A mulher policial é menos corrupta do que o homem policial?

Considero que sim. Tal­vez seja por isso que a população goste tanto da mulher policial. Quando iniciei mi­nha carreira, no interior de Goiás, cheguei a achar que seria discriminada, mas não fui. Pelo contrário, fui recebida muito bem, muito apoiada. Disseram para mim, “agora, sim, vamos ter um bom trabalho policial aqui na cidade”. Ouvi isso inclusive de policiais. Então, a mulher delegada tem uma imagem — que geralmente reflete a verdade — de ser dedicada, honesta, dura e sensível ao mesmo tempo.

Andréia Bahia — Há como reduzir a corrupção dentro da polícia somente por meio da corregedoria?

Creio que é preciso todo um contexto para isso acontecer. Além de uma corregedoria fortalecida — com poder real de investigar e promover a responsabilização, composta de pessoas isentas e colegas que tenham credibilidade interna e externamente —, é preciso haver um princípio de direção. Qual é essa linha hoje? Meu foco não é a corrupção policial. Tenho uma missão, que é reduzir a criminalidade e esse é o meu foco. Não haverá caça às bruxas, mas também não haverá tolerância. A denúncia que chegar será encaminhada, com determinação de ser profundamente investigada. É importante que se diga isso.

Andréia Bahia — Crimes como roubo de carros e tráfico de drogas têm com grande frequência, a conivência de policiais.

Não acredito que essa seja a realidade de Goiás. Em outros Estados temos problemas muito mais sérios do que aqui, com relação à corrupção policial. Isso à parte, o envolvimento de pessoas que deveriam cuidar da segurança e da proteção da população com o crime é fato sempre muito grave e deve ser combatido com rigor. Creio que a linha de atuação que escolhemos vai coibir esse tipo de comportamento e não veremos por aqui o fenômeno que aconteceu por décadas, por exemplo, no Rio de Janeiro. Um fator positivo é que a população goiana denuncia, não teme a corrupção policial, da mesma forma que ocorre em relação à pedofilia.

Elder Dias —Há sempre uma espécie de concorrência e até de certa animosidade entre PM e Polícia Civil. Como será, para a sra. ter de administrar isso agora? A mudança em conjunto nos comandos das duas polícias é positiva, olhando por esse lado?

Sempre trabalhei muito bem com a Polícia Militar, é uma característica minha desde a época em que eu atuava no interior. Creio até mesmo que isso possa ter sido um dos motivos da escolha do meu nome para o cargo. É essencial fazer esse trabalho conjunto para trazer de novo segurança à população do Estado. A prestação de serviço da segurança pública tem de ser feita pelos dois lados. Vou dar um exemplo sobre um crime muito grave, que é a saidinha de banco, que eu considero um absurdo. A PM, em patrulhamento os-tensivo na Avenida T-63, notou um indivíduo em atitude suspeita nas proximidades de um banco. Ele estava armado, tinha passagens por roubo, foi detido, levado ao distrito e autuado em flagrante. A investigação da Polícia Civil, a partir daí, levou à prisão de uma quadrilha. Foi uma prova de que o trabalho em conjunto precisa ser feito. Acredito que a mudança dos comandos ao mesmo tempo trouxe um novo ânimo para todos nós. Para um futuro, eu imagino que possamos ser uma única polícia, como há em vários países, e sinto muito que não haja isso aqui. Seríamos mais eficazes ain­da, mas no contexto que existe hoje não há como forçar essa unificação.

“Fim de ano é a época mais difícil para a polícia”

Herbert de Moraes Ribeiro — Vamos ter agora indultos de Natal e ano-novo, saídas privilegiadas dos presídios. Em pouquíssimo tempo, muitos deles vão estar presos novamente, por cometer assaltos, furtos, estupros. A política de inteligência da polícia tem critérios para antecipar essas ações criminosas em decorrência dessas leis?

Na verdade, o fim de ano para nós, policiais, é sempre problemático. É a época em que há mais suicídios, mais problemas de violência familiar, mais mortes por embriaguez, mais homicídios. Ao mesmo tempo, enfrentamos a diminuição de pessoal, pois grande parte dos colegas entram em férias. São, então, problemas internos e externos. Uma coisa que as pessoas não sabem, e que nós temos de trabalhar preventivamente, é que os presos ficam loucos, desesperados, na época do Natal. Todos querem fugir. É uma angústia que toma conta do ambiente em que há pessoas encarceradas, seja por não estarem com a família, seja pelo crime que cometeram, seja por estarem na cadeia. É um problema grave, para mim o pior, porque as pessoas se suicidam, brigam, se matam. Isso também já faz parte da nossa rotina. Sobre o indulto, não há o que discutir, porque é um direito. O que se tenta fazer, por meio do dr. Wilson da Silva Dias, da Vara de Execuções Penais, é um critério correto de escolha. O certo é que só ganhem o indulto presos de bom comportamento, que não sejam perigosos para a sociedade. O dr. Wilson se esforça nesse sentido, mas, como não sabemos o que se passa na cabeça de todos, já contamos com a transgressão por parte dessas pessoas beneficiadas. Temos o mapa de quem ganha o indulto, mas seria impossível seguir cada uma delas. Nossa legislação não prevê monitoramento de pessoas simplesmente porque são beneficiárias de um indulto. O que defendo é que haja um critério e considero que o responsável tem um grande esforço nesse sentido. Os casos em que eu não recomendava a liberação por indulto, de pessoas compulsivas, que poderiam reincidir, ele sempre respeitou e atendeu minha solicitação. Estupradores e pedófilos têm alto índice de reincidência.

Elder Dias — Uma pergunta inevitável: seu pai, Darci Accorsi, foi prefeito de Goiânia e continua no trabalho político, como secretário do atual gestor, Paulo Gar­cia. A sra. tem intenção de seguir os passos dele, algum dia?

Minha história de participação social se iniciou no movimento estudantil e na militância política, que praticamente abandonei para seguir a carreira de policial. Mas foi uma época excelente e da qual tenho ótimas lembranças. A posição que ocupo hoje não pode ser nublada por questões políticas e essa missão, a maior que eu já recebi, tem toda a minha prioridade. Vou me dedicar totalmente. Um envolvimento político-partidário atrapalharia de qualquer forma. Mas penso, sim, que um dia eu possa ajudar como parlamentar. Tenho muitas ideias, principalmente na área de segurança, de combate à violência contra crianças e mulheres.

Fonte: Jornal Opção
Fotos: Fernando Leite