Polícia Civil prende integrantes de quadrilha que atuava no roubo de veículos e no tráfico

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Para as autoridades policiais, no início, tudo se parecia com um grande quebra-cabeça com um número de peças desconhecido. Porém, depois de muita investigação, monitoramento, interceptação de telefonemas – autorizadas pela Justiça – tudo começou a se encaixar e o ‘monstro’ foi sendo desvendado pouco a pouco. Esta era a primeira visão da equipe de delegados e agentes da Delegacia Especializada de Repressão a Roubos e Furtos de Veículos Automotores (DERFRVA) de Goiás quando foi desencadeada a Operação Elo do Crime, que culminou com a prisão de 15 integrantes de uma quadrilha (cinco deles já cumprem pena no Complexo de Prisão Provisória de Aparecida de Goiânia) que atuava no roubo de veículos e no tráfico de drogas na Região Metropolitana de Goiânia.

Uma sequência de boletins de ocorrência de furto registrados no início de 2012, de acordo com o titular da DERRFVA, delegado Edson Carneiro Caetano, uma pessoa, até então suspeita de comandar o esquema, foi identificada e passou a ser monitorada a partir de junho daquele ano, com a Polícia Civil concluindo que realmente havia uma quadrilha de alta periculosidade e extremamente organizada agindo em Goiânia e região sob o comando de presos do CPP de Aparecida de Goiânia. “Um deles (Anderson Divino, ou  Éderson), inclusive foi executado, há um mês, em um salão de cabelereiro no Setor Pedro Ludovico”, lembra o delegado.

Com a certeza de que havia esta quadrilha, o delegado Wilton Marchezzini, juntamente com o agente Moacy Alves Lemes e a escrivã Raquel Rodovalho, foi designado para comandar o inquérito policial e o trabalho seguiu em sigilo absoluto, de acordo com Edson Carneiro, “para não atrapalhar as investigações. Durante praticamente um ano eles monitoraram os passos dos suspeitos, interceptaram telefonemas e tomou depoimento de suspeitos, colocando cada peça do quebra-cabeça em seu devido lugar”, revela.

CÉLULAS
O delegado Edson Carneiro explica que a quadrilha funcionava por células, com cada uma delas se responsabilizando por um tipo de ação. “Havia a célula dos responsáveis pela escolha do tipo e modelo do veículo a ser furtado, outra que cuidava da parte financeira, mais uma que tomava conta do movimento do tráfico e venda de drogas ilícitas. Todas agindo em consonância uma com a outra, de forma que não houvesse brechas”, diz ele.

Com isso, de acordo com Edson Carneiro, o trabalho criminoso fluía bem, com as ordens partindo de elementos que estavam na Penitenciária Odemir Guimarães, a Central de Prisão Provisória e no semiaberto, todos do Complexo Penitenciário de Aparecida de Goiânia. “Eles (os comandantes da quadrilha) faziam uso de telefones celulares, inclusive com acesso à internet, para liderar os elementos que estavam fora das grades e para cobrar serviço, controlar o tráfico e, possivelmente, até para ordenar a execução de integrantes de outras quadrilhas”, esclarece o delegado.

O delegado Edson Carneiro revela ainda, que, com as interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça, a Polícia Civil descobriu, por exemplo, a execução de um bandido, com 12 tiros, e ordens para furtos e roubos de carros para serem usados na troca por drogas, no Paraguai, país para onde eram levados os veículos furtados na Região Metropolitana de Goiânia. “Conseguimos detectar que os carros iam para o Paraguai e voltavam em forma de drogas que eram distribuídas a traficantes, em Goiânia e cidades vizinhas, fomentando o tráfico na região”, informa.

“PINADOR”
Para “esquentar” um veículo furtado, a célula criminosa responsável pelo setor de furtos e roubos de carros contratava um profissional para mudar o número do chassi, o chamado “pinador”. Este serviço hoje é feito por equipamentos sofisticados, a laser. “Vem técnico especializado contratado em São Paulo para trabalhar para o grupo na adulteração do chassi. Alguns veículos também ficavam para os integrantes do grupo, que adulteravam chassi, motor e documentos. Os criminosos ainda teriam cometido vários homicídios. “Se havia algum desentendimento com alguém, eles matavam”, conta o delegado.

O delegado Edson Carneiro estima que a quadrilha vinha atuando há mais de cinco anos na Região Metropolitana de Goiânia. “Não tem como calcular com precisão o valor que eles arrecadaram durante esse período. É muita coisa. Acreditamos que eles roubaram 3.500 veículos, somente em um ano”, declara o delegado.

Segundo a polícia, o comando da quadrilha está dentro da CPP. Weslley dos Santos Oliveira é suspeito de comandar o tráfico e a adulteração de veículos, enquanto Jhonantan Mafra Pinto, o Nego Boy, seria o responsável pelo contato com os compradores dos carros roubados. Fora da cadeia, Alex Ferreira Andrade gerenciava o roubo de veículos. O ex-líder da quadrilha, que seria um preso do semiaberto, morreu há duas semanas. Com isto, o comando do bando foi subdivido, entre Weslley, Nego Boy e Alex, este último seria o comandante da quadrilha, pois estaria a frente do roubo de carros.

FORAGIDOS
O delegado Edson Carneiro, apesar de não revelar todos os nomes, revela, porém que, além dos elementos já presos, a Polícia Civil está à caça de cerca de 100 elementos considerados foragidos da Justiça. “Todos têm algum envolvimento com a quadrilha, quase todos são altamente perigosos e continuam agindo, mesmo com a Polícia Civil trabalhando no sentido de encontrá-los e levá-los para trás das grades. Por isso pedimos a colaboração da população para que, em caso de verificar movimentos estranhos, entre em contato com a polícia, podendo ligar diretamente para o meu gabinete da DERRFVA –(62) 3201 1195 ou 3201 11 22 –, que terá sua identidade preservada.”

“DIMENOR”
O aumento da criminalidade, na opinião do delgado Edson Carneiro, pode estar ligado também ao ingresso de jovens adolescentes no mundo do crime, acobertados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Nas interceptações telefônicas feitas pelos agentes da Delegaria Especializada em Repressão a Roubos e Furtos de Veículos Automotores, foi constatada a utilização, pela quadrilha, de menores de idade para guardar armas e assumir a autoria de crimes, inclusive de homicídios. “Nós apreendemos os menores, mas o fato de não permanecerem presos, torna estes jovens malfeitores piores do que realmente são. Ainda por cima, quando saem das casas de acolhimento riem dos policiais que os apreenderam”, desabafa o titular da DERRFVA.

A proliferação das drogas, em especial do crack, de acordo com o delegado Edson Carneiro, também contribui com o aumento de furto ou roubo a veículos. “O usuário furta qualquer objeto que encontra pela frente. Seja ele um veículo inteiro ou partes dele, como uma roda, aparelhagem de som ou outro objeto qualquer que esteja dentro do carro, para trocar por algumas pedras de crack e, com isso, sustentar seu vício”, diz.

O delegado Edson Carneiro garante que a especializada comandada por ele, “assim como toda a Polícia Civil, tem trabalhado diuturnamente no combate ao crime. Nós prosseguimos com o monitoramento dos suspeitos que ainda não foram presos, da mesma forma que combatemos o furto e roubo de veículos. Só no mês de junho, efetuamos 23 autos de prisão em flagrantes, contra 18 do mesmo mês no ano passado”, diz ele revelando que a DERRFVA tem conseguido recuperar uma média de 80% dos carros furtados em Goiânia e região. “Estes carros, muitas vezes, são furtados para serem usados em outras modalidades de crime e acabam abandonados pelos criminosos”, explica.

SAÚDE
A quadrilha, de acordo com revelações do delegado Edson Carneiro, tinha ramificação também dentro do sistema público de saúde. Segundo ele, os presos do regime semiaberto conseguiam atestados de saúde falsificados para apresentarem à direção do presídio e com isso tinham garantido o direito de não retornar para não dormir na prisão. “Na verdade, eles ficavam nas ruas praticando crimes, uma vez que não precisavam retornar no fim da tarde. Eles agiam livremente, acobertados pelos atestados forjados”.

ÚLTIMA HORA
Na manhã de ontem (19), o delegado Edson Carneiro informou que o telefone celular do engenheiro civil Carlos Benedito Resende Moreira, 41, encontrado morto, no último sábado, dentro do porta-malas de seu veículo no Bairro Cardoso II, em Aparecida de Goiânia, estava com um dos integrantes da quadrilha do CPP.

Fonte: Diário a Manhã
Texto: ANTÉRO SÓTER