Diário da Manhã destaca o trabalho da Delegada de Polícia Mayana Rezende, da DERCAP

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Delegada de Polícia Mayana Rezende

Em tempo pretérito, não muito distante, elas cumpriram uma rotina diferente. Eram puramente donas de casa e procriadoras. Dizer que existiam como objetos no seio de uma sociedade onde prevalecia a supremacia masculina pode soar como exagero. A verdade é que mulher já foi mesmo usada como ser destinado à dedicação exclusiva à casa e aos filhos. O homem mandava, a mulher, submissa e dependente, obedecia. Muito estranho e injusto, mas era assim a regra social de convivência entre os dois sexos. Era o que acontecia desde os primórdios da civilização entre os dois sexos. Durou séculos, décadas e anos, mas finalmente, o grito de liberdade foi dado.

Os tempos mudaram. E como mudaram! Mulheres corajosas em tempos difíceis iniciaram uma luta árdua. Sofreram pela “ousadia” e “atrevimento” de se rebelarem pelos mesmos diretos do homem. A igualdade pretendida foi muito rechaçada pela sociedade machista e tida como uma afronta. Aos poucos, as mulheres foram quebrando tabus. A cada passo dado, os gritos de liberdade ganhavam mais força. Mulheres que não tinham coragem de dizer aos homens que queriam respeito, ter voz e, acima de tudo, ser tratada como gente, se inspiravam na força das guerreiras dos primeiros embates e iam à luta.

A liberdade tão sonhada foi conquistada. O tabu virou estilhaço. Foi preciso muita garra e coragem. Elas ainda cuidam da casa e dos filhos, mas asseguraram espaço no mercado de trabalho e mostraram aos homens, impondo-se com competência e respeito, que sabem realizar trabalhos e decidir destinos antes exclusivos da casta masculina. Os homens já se acostumaram tanto em vê-las desenvolvendo tarefas antes exclusivas que não se assustam mais, nem mesmo nas situações em que estão em posição de subordinação profissional. E não são poucos os casos.

As mulheres chegaram aonde chegaram não foi pela incapacidade do homem. Elas venceram pela sua força e coragem, sem que jamais perdessem a ternura. Por falar em mulher, esta obra traz exemplos típicos de quem foi à luta, ocupou seu espaço e, hoje, pode dizer, longe de preconceitos e de dúvidas sobre a capacidade de cada uma que a luta não foi em vão.”

delegada bela

Mayana Rezende: delegada de Polícia Civil de 2ª Classe, lotada na Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública-Dercap, ao lado do delegado Jerônimo Rodrigues. Ali mostra toda a sua beleza no rosto e a simplicidade do olhar sendo tudo realçada pela sua capacidade de trabalhar na sua função dentro de um crime diferente: contra a administração pública. Desconhecida? É casada com um empresário. Pode ser desconhecida por não lidar com a tradicional violência mundana ou simplesmente a pancadaria. Não esconde sua origem: “Sou nascida e criada no interior de Goiás. Ali eu vivi com meus pais, os quais me ensinaram os princípios morais que moldaram a pessoa que hoje sou.”

ENTREVISTA COM MAYANA REZENDE

Diário da Manhã – Qual é o seu momento maior?

Mayana Rezende: “Tenho 26 anos de idade. Sou casada com o empresário proprietário da Madeireira Tobias. Tenho um filho de um ano. Ambos abençoados por Deus. Meu marido e meu filho movem o desejo de fazer parte do amanhã. Fazem parte da minha estrutura. Com eles aprendo todos os dias coisas melhores.”

DM – E o maridão? O que pensa da esposa delegada?

Mayana: “Ele admira minha profissão, e procura entender os horários pouco convencionais que por vezes trabalhamos. Ele sempre me diz que sou melhor que a personagem “Elô” interpretada pela atriz Giovanna Antonelli na novela denominada Salve Jorge. Na verdade, ele se diverte com isso e se sai muito bem nas piadas que não são poucas.”

DM – Escolheu a carreira de delegada! Vocação ou salário?

Mayana: “Não escolhi esta profissão, mas sinto que Deus a escolheu para mim. Depois de concluir a Faculdade de Direito, fui aprovada em dois concursos públicos, escrivã e delegada, ambos da Polícia Civil. Todos os concursos que fiz fora da instituição fui reprovada. Por isso que é bom deixar Deus governar sua vida. Quanto ao salário, entendo que todas as pessoas que se dedicam ao que fazem esperam ser bem remuneradas. Me identifico com a profissão e acho que tenho muito a contribuir com a Polícia Civil. E acho que tenho feito e bem o meu papel.”

DM – Como avalia uma mulher dirigindo o nosso País?

Mayana: “O fato de termos uma mulher na Presidência do Brasil deve ser o resultado de um longo processo gradativo de inclusão das mulheres não somente no mercado de trabalho como também no cenário político que deve ser encarado com naturalidade. Acho que, apesar de estatisticamente, no setor privado, a mulher ainda ocupar cargos mais baixos e pior remunerados do que os homens, é importante ter em mente que somos todos igualmente capazes.”

DM – A mulher na Polícia Civil, que como se sabe, historicamente se pautava pela força masculina. Existe algum preconceito nos dias de hoje?

Mayana: “As turmas de delegados não têm por maioria o sexo masculino. Na verdade tem sido meio a meio. Creio que esse estereótipo de que a carreira policial é para homens tende a desaparecer, pois o ingresso das mulheres nesta carreira é uma realidade. As mulheres, sejam elas agentes, escrivãs ou delegadas, têm cumprido com maestria os encargos da profissão e não estão deixando a desejar em relação ao sexo masculino. O preconceito na instituição quanto ao sexo feminino é quase imperceptível. Ressalvados alguns casos esparsos.”

DM – A mulher é tratada com igualdade em seu local de trabalho junto aos demais policiais do sexo masculino? Existe realmente respeito ou ainda existem reparos?

Mayana: “Estou lotada na Delegacia de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública – Dercap, local onde todos os profissionais ali lotados são tratados com igualdade de oportunidades, deveres e direitos. Daí a importância das delegacias serem administradas por pessoas capacitadas, livres de preconceitos e atuantes, pois do contrário corre-se inclusive o risco de comprometer o sucesso da equipe.”

DM – Você é a favor da redução da maioridade penal?

Mayana: “Trata-se de um tema polêmico. É preciso entender, e muito, os problemas hoje enfrentados pela sociedade em relação aos menores infratores que têm sua origem na ausência do Estado. Falta educação de qualidade, saúde, programas sociais que sejam atrativos para as crianças e jovens mais do que as vantagens oferecidas pelo mundo do crime, enfim, os jovens infratores de hoje são na verdade, em grande parte, pelo menos vítimas do próprio Estado. Infelizmente a criminalidade entre os menores infratores chegou a números intoleráveis e com uma crueldade que desclassifica sua presunção de inimputabilidade, bem como o de ser inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato de determinar penas de acordo com esse entendimento. Quem convive de perto com os crimes praticados por esses menores infratores sabe que muitos mostram-se com plena capacidade intelectiva e volitiva quanto aos atos praticados. É  pensando nesta categoria de menores infratores que entendo ser insatisfatória a aplicação de medida de segurança de internação de três anos. Esse período não recupera um homicida, latrocida, estuprador ou autor de outras infrações hediondas e repugnantes. Por estas constatações entendo que uma reforma na Legislação é inevitável. Com o nível de informação que hoje contam as crianças e adolescentes, repito que a maturidade chega mais cedo e por isso penso ser razoável que a maioridade penal seja reduzida para 16 anos, que o tempo de internação seja aumentado proporcionalmente ao bem jurídico afetado, sem a limitação de 21 anos de idade que atualmente existe na Legislação. Estas mudanças podem não ser a solução para o problema, mas é certo que do jeito que está não está dando certo e é por isso que a população anseia por mudanças nas leis.”

DM – É contra ou a favor da pena de morte?

Mayana: “Sou contra a pena de morte. Porém sou a favor do cumprimento integral da pena com a permissão de progressão de regime apenas em casos devidamente justificados e excepcionais.”

DM – A experiência como escrivã de Polícia Civil  contribuiu para o seu desempenho profissional como delegada?

Mayana: “Posso dizer que quando ingressei nos quadros da Polícia Civil como delegada já sentia uma certa segurança para conduzir os desafios da profissão, até mesmo porque mudei de cargo, mas permaneci em “casa”. Não há nada de dentro de uma delegacia que eu não saiba ou não possa fazer. A experiência na atividade policial é fundamental e o seu acúmulo converge para a prestação do serviço de qualidade.”

DM  –  Sofreu algum tipo de preconceito? Gente de fora da polícia?

Mayana:  “Qualquer tipo de preconceito ou segregação no meio em que vivo, pelo fato de ser policial civil, na verdade percebo que isso é despertado pela curiosidade e admiração nas pessoas que querem saber como é o dia a dia de uma policial, se realmente acontece o que veem nos filmes e novelas. Geralmente a pergunta que mais respondo é: você tem mesmo uma arma?”

DM – Precisa continuar tendo um bom preparo jurídico amplo depois que se entra na polícia, ou bastou o Direito Penal e Processual Penal?

Mayana: “No exercício da profissão as demais disciplinas acabam se comunicando. Na delegacia onde atualmente estou lotada, por exemplo, aplico o Direito Administrativo igualmente ao Direito Penal e Processual Penal. Além de ser necessário um amplo conhecimento quanto às demais disciplinas, faz-se importante aplicar ensinamentos que somente se aperfeiçoam com os anos de experiência policial. Esse conhecimento não se acha nos livros, mas sim nos anos de dedicação de um profissional à elucidação dos crimes.”.

DM – O que deixa você feliz na polícia?

Mayana: “Primeiro o que me entristece: Nada! E o que me deixa feliz são os amigos verdadeiros que fiz, a satisfação de realizar um trabalho investigativo com êxito. Outra coisa que agradeço à polícia é por me proporcionar conhecer melhor o ser humano. O que mais me deixa triste na polícia é a falta de estruturas física e de pessoal, hoje fatores limitadores da prestação de um serviço público de melhor qualidade.”

DM – Se começasse a estudar hoje com a experiência e a maturidade adquirida, você faria o mesmo concurso?

Mayana: “Sim! Certa que a instituição Polícia Civil ainda está longe do ideal e por isso os ingressantes e já ingressados na profissão devem sempre estar focados na necessidade de se trabalhar em prol de melhorias para a categoria. Importante citar a perda de algumas conquistas do passado, como, por exemplo, a busca e apreensão realizada com autorização da autoridade policial que hoje necessita passar por um processo burocrático.”

DM – Deixou de frequentar certos lugares devido à profissão?

Mayana: “Sempre fui uma pessoa de hábitos comedidos e que prima por privacidade. Posso dizer que a profissão nos leva a algumas mudanças de comportamento, pois é inevitável que passemos a ter um olhar mais crítico sobre o comportamento das pessoas, situações e ambientes que frequentamos.”

DM – Observa historicamente o avanço da Legislação Penal brasileira em sua forma ampla?

Mayana: “A Lei Penal brasileira ainda é baseada em leis ultrapassadas e carece de muitas reformas, como, por exemplo, a questão da maioridade penal e o ineficiente sistema de execução da pena. A política criminal de um País deve refletir o anseio e a evolução da população. Os crimes e o os seus Modus Operandi estão em constante evolução e direcionados a burlar as leis, bem como criar meios eficazes e inéditos para surpreender a vítima. Apesar de termos penas rígidas, a Lei Processual Penal ainda oferece muitas benesses, fato que traz uma grande sensação de impunidade junto à população, bem como não se deixa de incentivar para que pessoas se iniciem no crime ou mesmo reincidam nele.”

DM – Como você avalia o trabalho da Polícia Civil em Goiás?

Mayana: “Conta com excelente profissionais, os quais diante da carência de pessoal e estrutura física têm prestado serviço de qualidade à população goiana. Quem acompanha de perto o trabalho desses profissionais conhece bem estas limitações, que quando não prejudicam muitas vezes impedem o êxito nas investigações. Uma coisa é certa, o diferencial da Polícia Civil do Estado de Goiás não está em salas climatizadas, em computadores de última geração e tão pouco no número de servidores, mas sim na vontade de fazer a diferença entre os policias que a integram.”

DM – O recado que você deixa para as mulheres que pretendem ingressar nos quadros da Polícia Civil de Goiás.

Mayna: “A carreira que nos inspira dia a dia, com desafios constantes, vale a pena verificar e verificar a diferença.”

Fonte: Diário da Manhã
Texto: Edson Costa