DM fala de mulheres valentes que choram no exercício da profissão de Delegadas de Polícia

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Delegada Geral Adriana Accorsi

Valentes, elas também choram. Mesmo
fortes e a profissão exigindo princípios severos,
delegadas se revelam humanas e sensíveis

Três mulheres delegadas de Polícia Civil de Goiás se destacaram no comando da Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher (DPDM) pelos trabalhos conhecidos e reconhecidos em todo o Brasil. A primeira é Nadir Batista Cordeiro, que inaugurou a especializada em 1985, depois que o governador da época baixou decreto para a sua criação. Nadir permaneceu como titular até 1995. Hoje ela está como titular da Delegacia de Polícia de Apuração de Atos Infracionais (Depai), especializada no atendimento a menores infratores, uma das delegacias mais movimentadas de Goiânia. Com 37 anos de Polícia Civil, ela já poderia estar aposentada.

Mas Nadir bate o ponto, impreterivelmente, antes das 8h, faça chuva ou faça sol. Só deixa a delegacia no final da tarde e, às vezes, no início da noite. A porta de sua sala, inclusive, fica aberta o tempo todo, para melhor atender o público, que ela chama de clientes. Sobre a aposentadoria, ela revela que gostaria de trabalhar na Polícia Civil até os 70 anos. E diz que, ficando na ativa, pode contribuir não só com a sociedade, mas também com os colegas, principalmente, na luta para tornar a profissão de delegado carreira jurídica.

A outra é Gildeci Alves Marinho, que entrou em dezembro de 1997 e permaneceu até abril de 2003 (seis anos). Ela passou ainda na Delegacia Metropolitana, já extinta, e Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos Automotores (adjunta). Gildeci tem história de pioneirismo na instituição, com 38 anos de uma carreira digna de admiração. Ela acalenta o sonho de ser presidenta do Vila Nova Esporte Clube e desfilar em alguma escola de samba do primeiro grupo do Rio de Janeiro.

Outro grande destaque é Mírian Aparecida Borges de Oliveira. Em sete anos como titular, teve o seu trabalho reconhecido por vários segmentos da sociedade. Atualmente é titular da 13ª Delegacia de Polícia de Goiânia e a sua marca maior tem sido, ao longo desses 24 anos de trabalho, o amor incondicional à instituição Polícia Civil do Estado de Goiás em defesa da sociedade e do cidadão.

A delegada geral da Polícia Civil, Adriana Accorsi, que também se destaca pela sua atuação, aprova a equipe de mulheres que trabalha ao seu lado. “São mulheres fortes e trabalhadoras. Todas têm uma história de muita luta e de serviços prestados à Polícia Civil. Com a sensibilidade e honestidade, marcas registradas, as mulheres conferem uma grande imagem à PC”, elogia.

Gildeci Marinho

Delegada Gildeci Marinho

Gildeci Alves Marinho, 56 anos, sendo que 38 deles foram dedicados à Polícia Civil de Goiás, onde ela começou como “extranumerária mensalista”, uma espécie de pró-jovem da década de 70. “Eu ganhava um quarto do salário mínimo na época. Aos 18 anos, fiz concurso para escriturária e depois para comissária de polícia. Nessa função, trabalhei na Academia de Polícia, onde era secretária. Passei no concurso para delegada, junto com outros colegas do curso de Direito da Faculdade Anhanguera.”

Na década de 90, Gildeci foi a primeira mulher a ser lotada em uma especializada. Lidava com crimes mais pesados da Delegacia Metropolitana. Era preciso vencer o preconceito, tinha sob o seu comando 120 homens e apenas uma mulher. “Fui promovida a delegada de 1ª classe e assumi a Delegacia de Defesa da Mulher, onde permaneci por seis anos. Ali vivi o fato ainda cravado na minha memória e que nunca vou esquecer.” Gildeci, por alguns momentos não mostra o sorriso sempre cativamente.

“Foi um caso de estupros praticados por um chaveiro. Mais de 25 vítimas! Todas foram abordadas ao saírem de faculdades e, muitas vezes, nas portas de suas residências. Além da violência sexual, as vítimas indefesas eram agredidas fisicamente. Demonstrava uma selvageria jamais vista sequer em animais irracionais. O que mais me chocou foi o caso de uma das vítimas ter sido estuprada na presença de um filho de 10 anos. O cabra voltou a mostrar selvageria. Fizemos diligências. Horas exaustivas à casa do animal. Ele foi preso. E identificado por todas as suas vítimas. Permaneceu na sala de reconhecimento. A criança pediu autorização para vê-lo.

O menino queria ter a certeza de que o acusado era aquele que machucara sem piedade a sua mãe. Refleti! Acabei concordando. O jovenzinho de 10 anos mostrou seu argumento: ‘Se eu não vê-lo, vou ficar minha vida inteira com a imagem dele na minha cabeça.’ Levei-o. Momentos de tensão. E de silêncio. Aquela cena nunca será esquecida. Não somente por ser eu uma  delegada, mas, também, por ser mãe! O menino começou a chorar! Abraçou as minhas pernas, chorava copiosamente. E conseguiu dizer: ‘Nunca vou esquecer esse rosto que acabo de ver no dia de hoje. A Justiça foi feita.’ Sabem o que eu fiz? Eu chorei também. As lágrimas saíam aos borbotões…”

Mirian Aparecida Borges de Oliveira

“O que marcou minha trajetória como profissional de Polícia Civil (delegada) foram sete anos de dedicação exclusiva à DelegaciaEspecializada ao Atendimento à Mulher de Goiânia (Deam), onde, de forma intransigente, defendi os direitos das mulheres vitimizadas e levantei a bandeira no combate à violência doméstica e familiar, encorajando-as a vencer o medo, a romper o silêncio e denunciar o seu agressor. Esse trabalho foi reconhecido pelos vários segmentos da sociedade civil organizada, o que, inclusive, rendeu-me inúmeras homenagens pelos relevantes serviços prestados. Vale destacar a premiação recebida no ano de 2010. Uma pesquisa realizada pela Altus Global Alliance colocou a Deam-Goiânia como sendo a melhor Delegacia do Estado de Goiás na qualidade e excelência no atendimento ao público”, destaca.

Delegada Míriam Borges

Mirian Aparecida Borges de Oliveira é casada com o delegado de Polícia Civil, Manoel Borges de Oliveira. Com ele teve duas filhas. Trabalhou três anos no interior do Estado. Foi transferida para Goiânia e atuou na 1ª, 5ª e 14ª Delegacias de Polícia e também no 20º Distrito Policial. São 24 anos de trabalho, onde prevaleceu o amor inconstitucional à instituição Polícia Civil, em defesa da sociedade e do cidadão.

Ela lembra um caso. “Um moço, que utilizava uma bicicleta como meio de transporte, começou a praticar estupros. Foram mais de 100 nas imediações da Universidade Católica e em Aparecida de Goiânia. Terrível a situação. Minha sala parecia romaria de Trindade, tal o número de vítimas. Finalmente o encontramos. Mas houve um descuido e ele fugiu, não deixando sequer rastro de sua catinga.”

Mirian não gostou do descuido. Procurava incansavelmente o suspeito, que era conhecido por “Mulata”. Grampeou telefones de familiares dele. Finalmente o suspiro de alívio. “Mulata” estava escondido em Paraúna. Dentro de uma gruta, em local difícil. “Ele não ficaria impune. Anotamos detalhes dos dias que os pais levavam comida para ele. Reuni minha equipe. Partimos para voltar com o safardana. Virgem Santa. Rodamos mais que Brasília de feirante no meio do mato. Encontramos uma boiada. Nunca vi tanto chifre na minha vida. Eu e minha equipe, zanzando entre os animais. E tivemos sorte, encontramos os pais dele. Foram cercados. Contei que o filho precisava ser preso. Sabíamos estar ele armado. Se reagisse, seria morto. Essa era a minha ordem.”

Nesse momento, a delegada brinca: “Se reagisse, pois tinha um trabuco, ficaria mais pesado uns dez quilos pelo volume de chumbo no corpo. E deu certo. Entregou-se. Naquela gruta, o malandro estava acompanhado da namorada. Isso mesmo. Suspeito de mais de 100 estupros e tinha uma namorada. Mais feia que trombada de avião a jato. Foi condenado. Continua preso. Quantas lágrimas eu vi de agradecimento de vítimas? E quantas menores? Eu também não suportei. Chorei!”, conta emocionada.

Nadir Cordeiro

“Tudo o que eu quis, eu corri atrás, sempre com muita luta. Nada foi fácil para mim. Tudo o que tenho, consegui com muito suor e trabalho. Esse legado eu vou deixar para os meus filhos e netos, que é o legado da perseverança, de honestidade, da seriedade. Trabalho por amor à profissão, para ajudar as pessoas e meus colegas. Nunca fiz trabalho político. Sempre me dediquei integralmente à Polícia Civil.”

Delegada Nadir Cordeiro

Nadir Batista Cordeiro, de 66 anos, começou a carreira na Polícia Civil como escriturária em 1973. Na época, o teste físico parecia ter sido feito para mulheres não serem aprovadas – como correr 100 metros com um saco de 60 kg nas costas. “Em 1977, eu me formei em Direito. Depois de formada, prestei mais um concurso para Comissária da Polícia Civil e, dois anos depois, tomei posse como Delegada de Polícia Civil.

Em 1985, o governador da época baixou um decreto para que criasse a Delegacia de Defesa da Mulher, após forte pressão dos movimentos feministas. Esses mesmos movimentos, como o Cevam, na gestão de Consuelo Nasser, reivindicaram o direito de escolher o nome da delegada, e assim me escolheram para representá-las à frente da Delegacia da Mulher. Tornei-me a primeira Delegada da Mulher do Estado de Goiás e lá fiquei por 10 anos.”

O caso que Nadir não esquece e tacha de “mais revoltante, odioso e, porque não dizer, o mais nojento”: a morte de Gerusa Alves Pereira, 20, e do filho dela, Guilherme, de 60 dias. “Ambos foram jogados no leito do Rio Meia Ponte, na cidade de Hidrolândia, a mando do fazendeiro e amante Hélio Barbosa de Oliveira, 45, com a participação do pistoleiro Andrógenes Pedro da Cruz, 76 anos. O fato aconteceu no dia 21 de março de 1986. Segundo a denúncia, Hélio pagou Cr$ 23 mil para Andrógenes da Cruz assassinar a amante e o filho. O próprio fazendeiro confessou o crime na polícia, mas o negou em juízo. O mesmo fez Andrógenes, que acusou Hélio Barbosa, alegando que apenas o acompanhou para lhe dar “apoio moral.”

Segundo ela, pela segunda vez alternada em três julgamentos em Hidrolândia, o fazendeiro Hélio Barbosa de Oliveira foi absolvido da acusação de mandante e um dos executores do assassinato de Gerusa e de seu filho. Ganhou a liberdade por seis votos a um (seis homens e uma mulher que integraram o Conselho de Sentença). A negativa de autoria foi sustentada pelo advogado Wanderley de Medeiros.

Com este último e definitivo julgamento, restou do caso Gerusa a condenação do pistoleiro Andrógenes Pedro da Cruz a 19 anos e seis meses de prisão pelo Tribunal do Júri de Hidrolândia. Nadir acompanhou todo o desenrolar do Júri Popular, que ocorreu em Hidrolândia. Quando soube do resultado da absolvição do fazendeiro Hélio Barbosa de Oliveira, acusado de mandar matar Gerusa Alves Pereira e o filho dela, ela conta que não conseguiu segurar as lágrimas.

Os anos se foram, mas a policial não esqueceu o desfecho do caso: “O fazendeiro Hélio perdeu toda a sua fortuna. Não teve mais condição de cercar um picolezeiro. A mulher dele tornou-se lésbica (sapatão), e, para ambos, a coisa ficou mais preta que a consciência de Judas. O autor do homicídio, Andrógenes Pedro da Cruz, morreu sem ter quem limpasse suas fezes durante a velhice.”

Fonte: Diário da Manhã
Texto: Edson Costa
Fotos: Polícia Civil