Em Formosa, grupo “Mulheres em Ação” é exemplo de combate inteligente à violência doméstica

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Delegada Fernanda (dir) e psicóloga Iesca (esq): coordenadoras do grupo

No contexto dos casos de violência doméstica contra a mulher, o apoio à vítima é fundamental para que o crime não se repita e para que sejam minimizadas as sequelas no corpo e na mente da vítima. No processo que implica superar o estado de vitimização, o apoio psicológico é ferramenta conhecida. Criar as condições para que esse apoio ganhe efetividade constitui desafio que a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) de Formosa, no Entorno do Distrito Federal, vem enfrentando com crescentes resultados positivos.

É no âmbito da especializada que, por iniciativa de sua titular, delegada Fernanda Lima, vêm ocorrendo as atividades que integram o grupo de apoio psicológico “Mulheres em Ação”. Fruto de uma parceria entre a Deam de Formosa, da Secretaria Municipal de Saúde e do Poder Judiciário local, o grupo “Mulheres em Ação” se destina a prover apoio psicológico a mulheres vítimas de violência doméstica, a partir de inovações metodológicas destinadas à superação da situação de violência pelas ofendidas em casos enquadrados na Lei Maria da Penha.

O programa consiste em reuniões realizadas às quartas-feiras, em local sigiloso e neutro. Os encontros são realizados com o apoio de duas psicólogas e uma assistente social, ligadas à Secretaria Municipal de Saúde e Poder Judiciário de Formosa. Há ainda o apoio de uma escola da cidade (Colégio São José), e uma panificadora (Panificadora Barcelona) que fornece os lanches para a confraternização ao final de cada sessão.

Convite
De acordo com Fernanda Lima, qualquer mulher pode participar dos encontros. O convite mais comum ocorre quando a vítima de violência doméstica comparece às unidades da Polícia Civil em Formosa para a confecção do registro da ocorrência. “Elas recebem a orientação para comparecerem ao grupo. O Judiciário também pode encaminhá-las”, comenta. A delegada salienta que o comparecimento ocorre sempre de forma voluntária.

Lima acrescenta que a ofendida não precisa nem mesmo formalizar uma denúncia para comparecer ao grupo. “O foco das nossas atividades é o apoio à mulher para que ela saia do ciclo de violência”, afirma a delegada.

Dentro dessa estrutura de apoio psicológico, as mulheres recebem diversas orientações sobre seus direitos, bem como sobre a forma de proceder para que sua integridade física e moral seja protegida.

Nesse sentido, são aplicadas metodologias cujo objetivo é transmitir parâmetros de ação quanto a rotas de fuga, a “como” e “para quem” pedir ajuda, como perceber antecipadamente os gatilhos que disparam situações de violência, e, assim, impedir a evolução do quadro de agressão para sua configuração mais extrema, qual seja, o feminicídio.

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Local sigiloso
O sigilo do local se mostra uma outra estratégia das idealizadoras e participantes do grupo de apoio psicológico “Mulheres em Ação”, que garantem maior efetividade ao esforço empreendido. De acordo com uma das coordenadoras do programa, Iesca Paula de Almeida, psicóloga da Secretaria Municipal de Saúde que presta serviços à Deam, o sigilo do local onde ocorrem os encontros é fundamental para se evitar dois problemas comuns às ofendidas em casos de violência doméstica contra a mulher: a estigmatização social e o receio de perseguição por parte dos agressores.

“É necessário que exista um local neutro, onde as mulheres que se encontram nesse contexto possam frequentar sem serem julgadas”, comenta Iesca. O motivo da estigmatização social das mulheres vítimas de violência doméstica está ligado a correntes de opinião formadas no senso comum, que culpabilizam a mulher pela violência sofrida. “Muitas dessas mulheres, por exemplo, evitam falar sobre as situações de violência que vivenciam dentro de casa ou mesmo deixam de denunciá-las na DEAM porque continuam a viver com os parceiros”, relata Iesca.

Iesca pontua ainda que o principal ganho foi a descoberta, pelas coordenadoras do “Mulheres em Ação”, de que as vítimas de violência doméstica precisavam de um lugar onde pudesse dividir suas experiências sem o receio de serem estigmatizadas. “O que elas mais necessitavam era de um lugar para falar. Elas precisam compartilhar suas experiências, mas não têm ninguém porque são julgadas”, frisa.

Protagonistas
A partir de um caminho que começa com o apoio mútuo, no qual as vítimas iniciam um processo de apoio a partir do compartilhamento de experiências, as orientações e aporte psicológico representam o maior objetivo do “Mulheres em Ação”. Ao longo desses meses, o próprio grupo criou um nome e uma identidade, e encontrou sua finalidade mais específica. “Nossos esforços concentram-se em fazer com que as mulheres percebam que são protagonistas da sua própria vida”, salienta a delegada Fernanda.

O aumento do nível de informação, inclusive quanto aos trâmites legais resultantes da Lei Maria da Penha; as estratégias de proteção; a consciência do que é uma relação saudável e a superação do estado de vitimização provocou o aumento da assiduidade das mulheres às reuniões e permitiu traçar estratégias para o combate e prevenção da violência contra a mulher na Cidade.

Além disso, a realização do Grupo “Mulheres em Ação” demonstra que a parceria entre diversos órgãos torna possível a prestação de um serviço público de qualidade. “Sem o esforço mútuo da Rede de Proteção à Mulher do Município, o grupo de apoio não seria uma realidade” – finaliza a Delegada.