Delegada Geral da Polícia Civil, Adriana Accorsi, fala ao Diário da Manhã sobre seu trabalho

411
Delegada Geral da Polícia Civil de Goiás, Adriana Accorsi

Agilidade, dinamismo e visibilidade. Com esse tripé de qualidades, a nova delegada-geral da Polícia Civil, Adriana Accorsi, quer imprimir a sua marca à frente de um dos cargos mais cobiçados da cúpula da PC do Estado. Ela está empenhada na tarefa de trabalhar de maneira árdua e em parceria com a Polícia Militar, para reduzir os altos índices de violência e criminalidade em Goiás.

A tarefa não é fácil, mas a tirania não é a principal arma dessa delegada de 38 anos de idade, que chega à Delegacia Geral da Polícia Civil, com apenas 12 anos de carreira. Um mérito que foi conquistado pelos revelantes serviços prestados na área de segurança pública ao Estado.

Adriana Accorsi foi responsável por presidir importantes inquéritos, entre eles, do maníaco Corumbá e, da menina Lucélia dos Santos, que foi torturada pela ex-empresária Sílvia Calabresi. Ambos os casos foram noticiados, na época, pela imprensa internacional. Para a delegada, a sua principal bandeira é avançar ainda mais no combate à violência.

Entre uma série de medidas de segurança para a população, Adriana Accorsi antecipa em visita ao DM a criação esse ano de uma delegacia especializada de Combate ao Crime Organizado, além de investimentos nos projetos de Escolas Sem Drogas. Também vai priorizar os crimes contra a vida, principalmente tendo mulheres e menores como vítimas.

Diário da Manhã – O que foi constatado com a sua chegada à Delegacia Geral da Polícia Civil e o que precisa ser reajustado quanto ao trabalho que vinha sendo feito anteriormente?

Adriana – Eu acredito que principalmente a questão da mobilização de estimular o policial a fazer seu trabalho, mesmo em condições que não são as ideais. Temos problemas importantes de déficit de pessoas. Delegados que estão há mais de sete anos sem reajuste salarial.

DM – Hoje, qual é o déficit de pessoal da Polícia Civil?

Adriana – Estamos discutindo isso agora, para saber qual é o número ideal de pessoas trabalhando na PC. Mas acredito que devemos ter um déficit de pelo menos 200 delegados e cerca de mil agentes e escrivães. Então é muito difícil conseguir todos esses números de uma só vez. Seria um mega concurso, mas vamos fazer um planejamento a longo prazo de concursos públicos para essa área.

DM – Para quando seria esse concurso?

Adriana – Estamos preparando o concurso para ser realizado em um prazo de seis meses.

DM – Quais são as principais operações deflagradas pela PC desde a sua posse?

Adriana – As principais estão ligadas ao tráficos de entorpecentes e homicídios. Vamos trabalhar buscando coibir o tráfico, mesmo que sejam os pequenos. Esse foi o ano que mais houve apreensão de entorpecentes em Goiás. Tem que focar nas bocas de fumo existentes nos bairros da Capital. Por meio do disque denúncia descobrimos que esse número é grande, inclusive nas regiões mais humildes. A droga que lidera é o crack.

DM – Para coibir o uso de drogas é necessária a presença apenas da polícia?

Adriana – Não. Queremos trabalhar com o traficante. Concordo que o viciado tem que ser tratado. É preciso estimular as políticas públicas relacionadas ao uso de entorpecentes. Pretendo investir no projeto de Escolas Sem Drogas em 2012, que é um projeto voltado para a prevenção dr crianças. Fizemos centenas de palestras em 2011 e queremos fortalecer e ampliar ainda mais. Acreditamos na prevenção e recuperação, e em relação ao traficante, não temos outra saída a não ser a prisão.

DM – O motivo dessa onda de violência é o crack?

Adriana – Não. A droga é um complemento a mais. Na verdade é uma série de elementos ao mesmo tempo. Acredito ser uma combinação de fatores sociais, como das drogas e da falta do aumento do efetivo da polícia.

DM – O número de homicídios continua crescendo em Goiânia. A senhora acredita que é possível reduzir esses índices?

Adriana – A gente acredita que sim. Investiremos nesses crimes que têm ligação com os homicídios, na repressão ao tráfico e ao mesmo tempo nas soluções dos assassinatos, responsabilizando os autores. As Delegacias de Homicídios e de Investigações de Narcóticos (Denarc) já estão sendo reforçadas, não só em Goiânia, como também em todo o Estado. Vamos reforçar as delegacias e trocar pessoas. Estamos discutindo com a Polícia Técnica formas de agilizar os laudos de homicídios.

DM – A senhora pretende trocar algum comando?

Adriana – As delegacias que estão hoje em Goiânia vão ser reforçadas. Nesse momento não vamos trocar ninguém.

DM – Outras delegacias serão reforçadas?

Adriana – Existem delegacias que não estão ligadas diretamente a de Homicídios, mas que sabemos ser de grande importância, por exemplo, de crimes passionais. Temos que ter uma Delegacia da Mulher (Deam) com condições de agir de forma rigorosa. Sem dúvidas a Deam e a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) precisam ser reforçadas. Também criaremos em breve a primeira Delegacia Contra o Crime organizado. Foi um pedido do Ministério Público e vamos acatar. Já estamos montando a equipe, e até o início de 2012, essa nova delegacia já estará em funcionamento.

DM – Essa delegacia vai trabalhar em parceria com a Denarc?

Adriana – Com certeza. Existirá uma troca de informações, principalmente com o Setor de Inteligência, que vai ser o nosso principal informante.

DM – A saída do Batalhão de Rondas Táticas Metropolitanas (Rotam) às ruas foi um erro?

Adriana – Acho que no momento foi uma solução necessária. Foi preciso repensar a volta da Ronda. Inclusive a sociedade fez um reflexo sobre o papel fundamental da Rotam.

DM – Neste momento, quais são os casos prioritários para a PC?

Adriana – Sem dúvidas aqueles contra mulheres. Priorizaremos crimes contra

mulheres e menores. Casos que não foram resolvidos, serão a nossa prioridade.

DM – A senhora assume a diretoria da PC em um momento onde acontecem as famosas ‘saidinhas de banco’. O que pode ser feito para diminuir esse tipo de crime?

Adriana – Com um trabalho de parceria entre a Polícia Civil e a Polícia Militar. É função da PC realizar um trabalho ostensivo que traga uma sensação de segurança e a PM de fazer um trabalho de monitoramento, como aconteceu na semana passada. Um indivíduo com atitude suspeita próximo a um banco foi preso pela PM e levado para a delegacia. Lá foi descoberto que ele era um indivíduo que participava de uma quadrilha de assalto a bancos.

DM – Outro indicador da violência, além das drogas, é o roubo e furto de carros. Na semana passada tivemos acesso a um levantamento que comprova que mais de cinco mil veículos foram roubados ou furtados este ano em Goiânia.  Como a senhora pretende reduzir isso?

 Adriana – Essa é uma questão importante, que se relaciona também aos homicídios. Fizemos na semana passada dois dias de operação na região da Vila Canaã, onde foram fechadas 33 lojas, que conseguimos verificar indícios de atos ilícitos. Com certeza o roubo de carros tem que ter um trabalho de investigação. Na maioria das vezes são investigações complicadas porque se tratam de grandes quadrilhas. São grupos preparados para esse tipo de ação, onde tem uma grande quantidade de dinheiro envolvida. Por isso, estamos focados em fazer as operações.

DM – Observa-se que todos os anos operações são feitas e mesmo assim as lojas da Vila Canaã continuam com suas portas abertas. O que acontece naquela região?

Adriana – Vamos trabalhar em parceria com a Prefeitura de Goiânia porque a PC fecha o estabelecimento e o proprietário vai até a Prefeitura e consegue retomar com o comércio. A PC não tem o direito legal de fechar e manter fechado. Isso tem que ser apoiado pela Prefeitura e Justiça.

DM – Quanto à superlotação nas delegacias, agentes estão tendo suas funções desviadas. O que será feito pela PC para que esses voltem a investigar crimes?

 Adriana – Esse é um problema sério. Na semana passada, desceram 140 presospara a Casa de Prisão Provisória (CPP). Inclusive as primeiras delegacias esvaziadas foram aquelas que tiveram tentativa de fuga: 4° DP de Aparecida e 22° DP de Goiânia. O que queremos em parceria com o Edemundo Dias, que assumiu a Agência Prisional, é que a situação não volte como estava.

DM – Mas têm delegacias em situação precária, inclusive com celas interditadas. Têm recursos para melhorar isso?

Adriana – O que pretendemos fazer já no início do ano é construção de um Centro

de Triagem com 150 vagas, que funcionará próximo as especializadas. Esses presos ficariam no Centro até irem para a CPP.

DM – Pessoas que cometeram crimes em qualquer área serão levadas para esse Centro?

Adriana – Isso. De qualquer área vai para o Centro. Eles ficariam lá no período de 10 dias, que é o tempo para a conclusão de um inquérito.

DM – A senhora pretende acompanhar de perto o trabalho da PC, ou tem a intenção de trabalhar apenas no gabinete?

Adriana – De forma alguma. Eu quero estar presente nas operações, inclusive a primeira que aconteceu na minha gestão eu estava lá. Meu trabalho sempre foi mais na prática, operacional. Sempre trabalhei em delegacias que estavam juntas com a população. Respeito os projetos que o Edemundo estava executando, tanto que estamos dando continuidade a alguns, mas temos que imprimir a nossa marca, que é de agilidade, dinamismo, e visibilidade.

DM – A senhora se considera uma delegada linha dura?

Adriana – Não. Eu me considero uma delegada que cumpre sua obrigação eresponsabilidade como servidora pública. Acredito na justiça. Devemos ser rigorosos, mas dentro da lei.

DM – Em entrevista com o novo comandante geral da Polícia Militar, Edson Costa, ele afirmou que sente que a sociedade está com medo. A senhora também tem essa impressão?

Adriana – Não usaria o termo medo, por ser muito absoluto. Eu diria que existe uma sensação de angústia da população. Na sociedade existem crimes, mas têm que ser números aceitáveis e vamos trabalhar para isso, para que a população sinta se mais segura.

DM – A senhora sendo a primeira mulher a assumir um cargo como esse, representa o quê para a classe feminina?

Adriana – Quero que seja relevante, importante e representativo para as mulheres. Hoje, somos poucas na PC. Existem cargos especializados que nunca foram ocupados por mulheres. Esse foi o primeiro ano que tivemos uma mulher na Delegacia de Homicídios, delegada Adriana Ribeiro. Nas importantes delegacias nunca houve mulheres, apenas passagens como adjuntas.  É importante pensar no que é preciso fazer para ampliar a participação das mulheres na Polícia Civil.

Texto:Wanda Oliveira  –  Foto: Marco Monteiro

Matéria publicada no jornal Diário da Manhã, edição do dia 11.12.2011