Delegada Gildeci Alves Marinho – Mais uma história retratada no Livro Mulheres de Delegacia

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Lidava com os crimes mais pesados da Delegacia Metropolitana, mas isso era o de menos. Era preciso vencer o preconceito, principalmente porque tinha sob seu comando 120 homens e apenas uma mulher.

Gildeci Alves Marinho

Meu nome, Gildeci Alves Marinho. Tenho 56 anos e grande parte deles dedicados à Polícia Civil de Goiás. São 38 anos na instituição, onde comecei como “extranumerária mensalista”, uma espécie de pró-jovem da década de 70. Meu pai, que era escrivão, queria que eu arrumasse um emprego e me colocou na polícia. Eu ganhava um quarto do salário mínimo na época. Com 18 anos, fiz concurso para escriturária, que era um cargo administrativo, igual a escrivão. Em 1977, fiz concurso novamente para comissária de polícia. Na nova função trabalhei na Academia da Polícia, onde era secretária – nunca exerci o cargo de comissária. Passei no concurso para delegada, junto com outros colegas do curso de Direito da Faculdade Anhanguera como Josuemar Vaz de Oliveira, Simone Fernandes, Adailton Medrado e Lilian de Fátima.

Acompanhei de perto as mudanças na PC. Fui a primeira policial a colocar a mão, ou melhor, os dedos em uma máquina de escrever elétrica. Lembro-me da história do “Brucutu”, um ônibus da PC que acompanhava as batidas na década de 80. Sem viaturas suficientes para colocar os presos, o Brucutu ficava encostado ao lado das blitzes e ia enchendo de gente, principalmente quando o trabalho era nas zonas de meretrício. Também nas investigações houve mudanças significativas. Nos anos 70 e 80, eram feitas essencialmente na rua, interrogando pessoas, procurando pistas. Hoje, o uso da tecnologia é essencial para a elucidação do crime.

Na década de 90, fui a primeira mulher a ser lotada em uma especializada, como adjunta. Lidava com os crimes mais pesados da Delegacia Metropolitana. Era preciso vencer o preconceito, tinha sob o meu comando 120 homens e apenas uma mulher. Fui promovida a delegada de primeira classe por esse trabalho e assumi a Delegacia da Mulher, onde permaneci por sete anos. Fui adjunta da Delegacia Estadual de Repressão a Furtos e Roubos de Veículos. Até hoje, só eu e a delegada Adriana Ribeiro (atual titular da Delegacia de Homicídios), ocupamos esta função nesta especializada. É uma delegacia com atividades operacionais mais intensas e complexas, culturalmente espaços reservados aos homens.

A minha grande inspiração, Dona Rita Fernandes, minha mãe. Sou torcedora apaixonada pelo Vila Nova, e quero ainda assumir a presidência do time. Adoro dançar e encontrar as amigas nos finais de semana. Sonho desfilar em alguma escola de samba do primeiro grupo do Rio de Janeiro. Com tempo de trabalho suficiente para aposentar, penso em passar mais tempo em casa com meu filho Matheus, estudante de Engenharia Civil. Meu companheiro e de quem me orgulho. Estou feliz em ver a Delegada Adriana Accorsi no comando da Polícia Civil – a primeira a ocupar a função. Isto é mais uma prova de que as mulheres têm ocupado cada vez mais postos importantes por mérito próprio.