O Hoje relata a dor de familiares das vítimas do trágico acidente com o avião da Polícia Civil

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Marizete Gonçalves, viúva do Delegado Antônio Gonçalves

Há seis meses, Jaci Maria da Silva, de 75 anos, tomava café da manhã com o filho quando pediu que ele não fizesse uma viagem. Delegado há 20 anos, Jorge Moreira foi convocado para substituir a delegada-geral Adriana Accorsi na reconstituição de uma chacina em Doverlândia, interior do Estado. O trabalho foi realizado, mas a volta para casa nunca aconteceu. No retorno para a capital, o helicóptero da Polícia Civil que trazia cinco delegados, dois peritos e um suspeito, caiu em Piranhas, município localizado a 325 km de Goiânia. Nenhum dos ocupantes sobreviveu.

Ainda muito abalada, a mãe de Jorge Moreira conta que perdeu o ânimo para trabalhos rotineiros como fazer almoço ou limpar a própria casa. “Jorge morava perto e, mesmo estando na delegacia fazia questão de almoçar comigo. Era simples, se tivesse feijão e salada, ele estava satisfeito. Se eu falava para ele almoçar em outro lugar, devido à distância mesmo, ele logo perguntava: ‘Mãe, tá enjoada de mim?’ Já perdi minha mãe, pai, mas quando é doença a gente vai se preparando. A morte dele foi muito brutal, eu só tinha vontade de dormir, e na hora do almoço passava muito mal, suava frio, ele nunca mais almoçaria comigo. Eu estou me recuperando e acho que vou ficar bem”, espera Jaci.

Jorge era titular da Delegacia Estadual de Repressão a Furtos e Roubos de Cargas, mas pela experiência de sete anos à frente da Delegacia de Investigação de Homicídios foi convidado para a reconstituição da chacina, crime que chocou o país. Junto com ele estavam Antônio Gonçalves Pereira dos Santos (superintendente da Polícia Judiciária), Osvalmir Carrasco Melati Júnior (chefe do Grupo Aeropolicial), Vinícius Batista da Silva (titular da Delegacia de Iporá (GO) e responsável pelo inquérito da chacina), Bruno Rosa Carneiro (chefe-adjunto do Grupo Aeropolicial) e dois peritos, os primos Fabiano de Paula Silva, lotado em Iporá (GO), e Marcel de Paula Oliveira, lotado em Quirinópolis (GO) e o suspeito Aparecido de Souza Alves.

Com a morte, a filha caçula, de 25 anos, foi morar no apartamento do pai. Doutoranda na Universidade de São Paulo (USP), ela decidiu voltar a morar em Goiânia. Uma cadela de estimação de Jorge foi um dos motivos de a filha ficar na capital. Agora, vai periodicamente para São Paulo para participar das aulas.

Objetos intactos
Marizete Gonçalves, viúva de Antônio Gonçalves, 64, não conseguiu sequer reorganizar o escritório do marido. O paletó ainda está estendido no encosto da cadeira principal e as gravatas que mais gostava separadas em uma espécie de cabide. A poeira ainda está sob os móveis, medalhas e troféus recebidos durante 43 anos de profissão. “Foi muito brutal, ninguém esperava. Ele saiu, me beijou e disse: benzinho, seis e meia eu estarei de volta. Eu espero esse dia até hoje”, confessa.

A policial aposentada diz que não consegue pensar que nunca mais verá o marido e, ao contrário disso, apenas imagina como se ele estivesse em uma longa viagem. “Tenho a impressão que ele foi pra uma longa viagem e independente se demora dois ou 20 anos, ele vai voltar. Meu coração ainda pede isso. A gente não viu os corpos, então parece que ele não morreu”, completa.

O guarda-roupa também está da mesma forma que estava há seis meses. As camisetas, sapatos, paletós, calças e camisas permanecem com o cheiro do delegado que a esposa inala para se sentir mais perto do marido.

“Eu sei que o amor que ele deixou é que nos conforta”, diz irmã de vítima
O caso aconteceu em 8 de abril e mudou radicalmente a vida das famílias. “Foi uma experiência muito estranha. A gente vai aprendendo a tirar forças não sei de onde, acho que de Deus mesmo. A cada dia um dá suporte para os outros e a nossa família é muito unida. Tem dia que eu acordo em crise por alguma coisa que eu lembro, outro dia é um pouco mais fácil. É claro que pai e mãe sofrem mais. A resposta deles é bem mais lenta. Eu trabalho, tenho minhas atividades, mas meus pais não têm estado bem. Eu arranjei um monte de ocupações pra fugir dessa dor. Ela se recusa a sair de casa. Já teve dias em que a dor veio muito forte, outros mais fracas. Mas tudo que a gente vai fazer, a gente lembra dele, é muito difícil”, afirma a irmã do delegado Jane Moreira.

Há um mês, a família decidiu reformar a casa e, segundo Jane, esta está sendo uma fuga para os pais. Para Jane, a religião também é uma força. “O interessante é que, com tudo que aconteceu a minha fé aumentou. Esse era um fator de questionamento, de revolta, mas não foi. Eu comecei a crer e ver a mão de Deus em tudo. Dói, mas eu sei que ele está em outro plano e que é caminho natural. Acho que a gente tem uma percepção muito pequena da vida, de Deus e por isso a gente não entende essa dimensão da morte e damos um peso muito grande pra ela. À medida que evoluirmos, vamos entender isso. Eu sei que o amor que ele deixou é que nos conforta. O amor que a gente planta e as lembranças boas são os sentimentos que ficam e consola”, se emociona Jane.

Pressentimento

Com lágrimas nos olhos, Jaci lembra-se do dia 8 de abril, marcado pelo acidente e de se despedir do filho logo pela manhã. “Eu disse assim: filho não vai e ele dizia que precisava ir. Eu questionei e disse que ele nem estava mais na Delegacia de Homicídios, mas ele insistiu. Ele ficava triste quando eu falava pra ele na ir, mas eu senti. Nenhum instante eu esqueci o que aconteceu”, conta segurando choro.

A mãe diz que ainda hoje se pega esperando o filho Jorge e quando o filho mais velho, João, chega em casa nos horários nos quais Jorge costumava chegar, ela se confunde. “João tem a voz muito parecida e quando ele chega muitas vezes venho correndo para ver se é o Jorge, parece que no fundo ainda sinto que ele vai voltar”, lamenta.

No horário em que Antônio faleceu, Marizete, que além de policial aposentada é artista plástica, estava pintando uma tela. “Eu tinha feito cinco corações de tamanhos diferentes representando meu marido e meus três filhos. No dia da morte, eu não sei porque, mas quis pintar outra coisa por cima daquela tela. Fiz uma floresta sombria, e estava terminando de pintar quando bateram no portão para me avisar do acidente. Não sei, mas tenho a sensação de que era um aviso”, revela. Depois disso, o ateliê ainda não foi usado.

A chacina
A chacina ocorreu por volta das 21 horas do dia 28 de abril deste ano em na fazenda Nossa Senhora Aparecida, em Doverlândia. Lázaro de Oliveira Costa, e o filho dele, Leopoldo Rocha Costa, de 22 foram os primeiros a serem assassinados, na casa principal da fazenda. Na residência do caseiro outras três pessoas foram degoladas e na saída, as últimas duas. Os corpos foram identificados como sendo de: Joaquim Manoel Carneiro, de 61 anos, Miraci Alves de Oliveira, de 65, Heli Francisco da Silva, de 44, Tames Marques Mendes da Silva, de 24, e de Adriano Alves Carneiro, de 22. O assassino, Aparecido Alves foi preso no dia 30 de abril. Uma primeira reconstituição foi feita no dia 3 de maio e a segunda, no dia 8 de maio quando aconteceu o acidente. O atual delegado responsável pelo caso segundo a assessoria da PC, Ronaldo Leite foi procurado por telefone, mas não atendeu as ligações.

Cotidiano e rotina são o que mais provocam saudades em quem ficou
Com um pouco de dificuldade, Jane, que mora com os pais diz que tenta levar algumas situações na brincadeira, para aprender a lidar com a perda. “Eu e meu pai sempre falamos que mamãe cozinhava melhor quando o Jorge vinha para cá. De segunda a sexta-feira era certeza, mas no final de semana ela relaxava. Um dia eu estava cozinhando cm meu pai e brinquei: Pai, estamos ferrados porque o Jorge nunca mais vai almoçar com a gente e a comida da mamãe na vai ser a mesma”, sorri.

Marizete conta que Antônio foi seu companheiro durante 33 anos, e os dois se casaram quando ela tinha apenas 17. “Ele foi meu primeiro namorado, meu primeiro homem, meu primeiro amor, o único amor da minha vida. Eu sinto muito solidão e tive que entrar na terapia, pra desabafar. Tem coisas que a gente não consegue dizer para a família ou para amigos e essa terapia tem sido ótima. Eu recomendo”.

 Fonte: O Hoje
Texto: Catherine Moraes
Fotos: Selma Candida