Laudo confirma que Aparecido Souza Alves agiu sozinho em Chacina de Doverlândia/GO

1547
Aparecido Souza Alves

As vítimas da maior chacina já registrada em Goiás, foram mortas por uma só pessoa. O autor dos crimes praticou necrofilia (relação sexual com cadáver) em uma das vítimas. A chacina com sete mortos aconteceu no dia 29 de abril, em Doverlândia, a 412 quilômetros de Goiânia. Aparecido Souza Alves, de 22 anos, que já havia trabalhado na fazenda como caseiro, foi o autor dos crimes. A tragédia foi precedida por outra – o maior acidente aéreo do Estado, com mais oito mortos, no dia 8 de maio, quando o helicóptero da Polícia Civil, que fazia o trajeto com delegados, peritos e suspeito para reconstituição do crime, caiu.

As novidades sobre o que aconteceu na fatídica noite de 29 de abril só foram reveladas ontem, em entrevista coletiva de peritos criminais que realizaram os estudos científicos sobre o que aconteceu no dia do crime. Os laudos foram concluído no final da semana passada e após isso, entregue na segunda-feira, 3, aos investigadores da Delegacia de Investigação em Homicídios de Goiânia (DIH), onde a investigação foi concentrada, que inicialmente solicitou as perícias.

Passos criminosos
Os estudos concluíram que Aparecido chegou só à fazenda Nossa Senhora Aparecida, a 45 quilômetros do Centro de Doverlândia, no final da tarde. Ele queria, na verdade, subtrair dinheiro do proprietário do local, Lázaro de Oliveira Costa, 57, que havia vendido dois caminhões cheios de gado dois dias antes. As investigações concluíram que o suspeito acreditava que o dinheiro estivesse no interior da casa, sede da fazenda.

Lázaro e o filho dele, Leopoldo Rocha Costa, 22 , foram mortos primeiro, já que estavam no interior da residência onde o suspeito acreditava que o dinheiro estivesse. Lázaro, além de ser morto com um corte profundo no pescoço (esgorjamento), como os outros, era o único corpo com uma outra perfuração profunda: na altura do peito. Os dois corpos teriam sido arrastados de onde tinham sido mortos – Lázaro no alpendre e Leopoldo num dos quartos – e colocados no banheiro do imóvel. Em seguida, Aparecido teria notado que o caseiro do imóvel era uma ameaça e o procurou, mas antes, ele buscou duas armas que sabia existir na sede – uma espingarda e um revólver.

Aparecido procurou o vaqueiro Heli Francisco da Silva, 44, no rancho onde ele morava com a esposa e o filho, de 14 anos, mais distante de onde era a sede da fazenda. A mulher de Heli não soube dizer onde o marido estava, mas deu certeza de que o esposo estava na propriedade. Aparecido o buscou e o rendeu com uma das armas e o matou assim como matou os outros dois, minutos antes.

Visita Final
Quatro pessoas, que iriam para o casamento de Leopoldo, marcado para o sábado seguinte, estavam em um Fiat Uno e chegaram logo em seguida, quando Aparecido já se preparara para sair do local onde havia matado três. Ele notou que seria descoberto: matar quem estivesse no carro era a solução para evitar ser pego. Foi então que matou o casal de amigos e futuros padrinhos de casamento de Leopoldo, Joaquim Manoel Carneiro, 61, e Miraci Alves de Oliveira, 65; o filho do casal, Adriano Alves Carneiro, 22, e a noiva dele, Tames Marques Mendes da Silva, 24. Eles deveriam estar mortos antes de verem o horror que já estava feito na fazenda.

Subitamente ele ataca Joaquim, Adriano e em seguida Tames e Miraci. Após matar Tames, o suspeito transloucado se sente atraído pelo cadáver da moça de 24 anos que se preparava para o casamento com Adriano. Os peritos encontraram espermatozoide nos órgãos genitais de Tames. O laudo cadavérico apresentou ferimentos post mortem na genitália – o que indica necrofilia aos peritos.

Ciência Forense
A perita criminal em material de DNA forense, Mariana Flávia da Mota e a perita criminal Ercimar Rodrigues concederam a entrevista e deram detalhes de como foi o crime de Doverlândia que abalou o País e despertou pavor na população de Doverlândia. Em depoimento, ele teria relatado como abusou sexualmente de Tames. “Ele contou que para não ver o corte do pescoço, tapou o rosto da vítima”, contou Ercimar. Esse é um dos casos que a ciência forense tem desvendado. Os laudos são imprescindíveis ao inquérito que avalia o que realmente aconteceu no local de crime, já que suspeitos e delegados que iniciaram a investigação morreram em uma queda de helicóptero.

A morte
Aparecido chegou a confessar o fato à polícia. Ele, juntamente com outras sete pessoas, acabaram morrendo na queda do helicóptero da Polícia Civil dias após a chacina. O grupo voltava da reconstituição do crime.

Além de Aparecido Sousa, estavam no helicóptero dois dos delegados mais experientes da Polícia Civil de Goiás e responsáveis por investigações sem precedentes e inquéritos que servem até hoje como peça de exemplo em cursos de Direito: Jorge Moreira da Silva (à época titular da Delegacia Estadual de Repressão a Furtos e Roubos de Cargas), Antônio Gonçalves Pereira dos Santos (superintendente da Polícia Judiciária, no período). Também delegados e piloto e copiloto da aeronave, Osvalmir Carrasco Melati Júnior (chefe do Grupo Aeropolicial) e Bruno Rosa Carneiro (chefe-adjunto do Grupo Aeropolicial); Vinícius Batista da Silva (titular da Delegacia de Iporá e presidente do inquérito da chacina); e dois peritos, os primos Fabiano de Paula Silva, lotado em Iporá (GO), e Marcel de Paula Oliveira, lotado em Quirinópolis (GO).

Assassino não era louco
Psicólogo forense, Leonardo Faria, entregou o perfil psicológico que traçou de Aparecido Souza. “Ele não tinha traços psicológicos de doença mental. O que Aparecido tinha eram problemas de afeto, conduta e ética. O diagnóstico já foi dado, mas por uma questão de ética, não posso dizer o que ele tinha. A Polícia Civil tem o material e, se quiser, pode divulgar, mas eu, como psicólogo que tracei o perfil, não tenho essa autonomia”, aponta Leonardo.

O psicólogo chegou a estar com Aparecido duas vezes antes que o suspeito morresse no acidente aéreo. “Estivemos cerca de 7 horas juntos. Foi o suficiente para traçar o perfil, mas se eu tivesse tido oportunidade de estar com ele mais tempo, seria melhor e mais consistente o perfil psicológico para a investigação”, diz. Sobre o suspeito ter dito à Leonardo sobre ter violentado a vítima Tames, Leonardo ressalta que houve uma confirmação de que a vítima foi abusada, mas não estava claro se foi antes ou após a sua morte.

“Aparecido tinha um poder de persuasão muito forte e tinha noção do que estava fazendo. Ele dizia com detalhes como fez os cortes ‘de baixo para cima’, apontando a direção, com as mãos, como se estivesse com a faca. Isso indica que ele tinha memória e que o suspeito era uma pessoa ciente de riscos e culpabilidade, portanto, não se tratava de um sujeito desorientado que não sabia o que estava fazendo”, descarta o especialista.

O suspeito tentava mentir, tanto nos depoimentos, quanto nas conversas que teve com o psicólogo. “Esse era um meio que ele tinha de tentar se isentar da culpa”, ressalta Leonardo Faria. O psicólogo ainda deixou claro que alguns desafetos antigos dele foram descobertos logo que ele tentava inserir mais pessoas no próprio problema. “Era como se ele estivesse descontando em desafetos antigos. Ele pensava em dar o troco a algumas pessoas que não o agradaram antes. Um exemplo é o pai, que na fala dele, teria abusado sexualmente da menina enquanto ele matava outras pessoas. Isso foi desmascarado em seguida, quando se soube de rancor e mágoa sentidas pelo filho.”

Fonte: Diário da Manhã
Texto: Jairo Menezes
Foto: Patricia Neves