Luziano Carvalho: “Maior mal é a cultura de ignorância, desmatamento e destruição”

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Luziano-Carvalho
Delegado Luziano concede entrevista a Murilo Santos

Um delegado com 30 anos de Polícia Civil. Boa parte desse tempo dedicada à Delegacia do Meio Ambiente (DEMA). Luziano Carvalho fala ao Hoje de Frente com o Poder sobre as bacias do João Leite, Meia Ponte e Araguaia. Ele explica que a principal causa da seca é o desmatamento desenfreado. Luziano também comenta sobre os lixões e o tratamento de resíduos sólidos. Ao jornalista Murilo Santos revela que pede à família e aos amigos que nunca o deixem entrar na política.

Qual nosso maior problema, segurança pública ou crise da água?

Como delegado de polícia me preocupo com a segurança pública e estou à frente da Delegacia do Meio Ambiente, tenho que me preocupar com a crise da água. É uma crise não apenas do estado de Goiás, mas de todo o Brasil. Agora vejo que temos, nesse momento, meios de prevenção. Porque a área ambiental é eminentemente preventiva e temos condições de ainda deixar preservadas as áreas boas e recuperar… Claro que temos situações irreversíveis na área ambiental no estado.

De que forma, quais são esses meios de preservação?

Sempre falamos e acredito que o Brasil tem de analisar com profundidade. O maior mal que temos hoje é a cultura da ignorância, do desmatamento, da destruição. Ao longo do tempo se ignorou estudos técnicos científicos. Tem que se ‘bater’ nisto: destruir e desmatar seca as águas. Há quem diga que nascente não seca. Mas se tem uma nascente em uma região, vai baixando, migrando, mudando de posição até desaparecer.

Desaparece?

Desaparece mesmo. E outra: pode ser irreversível. Temos dezenas de exemplos. Aqui na bacia do João Leite estamos lidando com algumas nessa situação…

Inclusive, nessa semana, o senhor à frente da delegacia apresentou um relatório. É verdade que mais de 20 nascentes estão irrecuperáveis?

Já estamos fazendo esse levantamento há algum tempo. A nascente principal da bacia do João Leite já está pronta, recuperada, cercada, reflorestada, que é em Ouro Verde. Agora 23 outras, classificamos como que sofreram danos irreversíveis. Uma foi do tipo desmatamento, ocorreu e vai migrando até secar. Agora estamos buscando um compromisso, uma integração, principalmente com o produtor rural, mexendo na sua sensibilidade. O curso e o programa que apresentamos essa semana é muito simples. Basta cercar a nascente, onde está aflorando a água, para se contar com o poder e a colaboração da própria natureza. Porque regenera naturalmente a sua cobertura vegetal. Isso vai melhorar e muito. Portanto estou muito otimista, cheio de esperança.

E as irrecuperáveis?

Agora temos as nascentes que não têm jeito. Exemplos: algumas no município de Anápolis, na zona urbana. Porque construíram muitas casas já na encosta, na nascente. Em muitas, jogaram lixo, entulho. Para tirar são toneladas. E vai desapropriar essas pessoas? De qualquer forma, vejo que ali o dano é irreversível. Mas mesmo assim, a natureza é sábia, em um determinado momento você pode retirar, mas parece que não é oportuno nesse momento. Temos que cercar as preservadas e recuperar as outras que ainda têm condições de serem melhoradas.

Percebe-se que o senhor tem preferência por ações mais educativas. Na área ambiental não cabe uma ação mais punitiva, fiscalização?

Não tenha dúvida. Mesmo porque o Brasil ao longo do tempo, ou seja, desde 1934 temos as melhores leis ambientais. Hoje o que chamamos de APP (Área de Preservação Permanente), chamavam de florestas protetoras das águas. Mas nunca se cumpriu, ou seja, temos que analisar a falta de fiscalização, de monitoramento e de punição. Mas não pode parar por aí. Temos que analisar que a maior cultura nossa hoje se chama conscientização, educação. Qual é o problema de se ter punição e conscientização juntos? Quem disse que a Polícia Civil de Goiás não está elaborando inquéritos, batendo recordes nesses procedimentos encaminhados ao poder Judiciário? Só na bacia do João Leite encaminhamos, entre 2009/2011, 55 procedimentos. Ou seja, construções em áreas não edificáveis, hortaliças em áreas de APP, psiculturas, frigoríficos, lava jatos, extração de argila e essa questão da utilização de nascentes. Quer dizer, encaminhamos para o poder Judiciário, muitas situações já estão ou foram resolvidas. Jamais vamos alimentar o crime ambiental. Mas a educação vem em primeiro lugar.

É fundamental?

Essencial. Sem educação não tem salvação.

Apesar disso, as multas são importantes… Em Goiás se aplicam multas como se deveria?

Temos na esfera ambiental procedimentos criminais e administrativos e até simples. Cada um na sua. Como delegado, nossa esfera é penal. Então tenho que agir conforme a lei 9.605 e demais leis que falam justamente da atribuição da Polícia Civil. Um encaminhamento para o poder Judiciário ou Ministério Público. Agora temos que ter estreito relacionamento com os demais órgãos, a Secima (Secretaria de Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos), com os órgãos municipais de meio ambiente. As secretarias, os órgãos ambientais, a Saneago e principalmente com a sociedade. Acima de tudo temos que ter educação. Claro que os órgãos ambientais têm essa atribuição administrativa, que é de aplicar multas e não me compete comentar sobre isso.

A bacia do Meia Ponte está recuperada?

As nascentes principais estão protegidas, recuperadas. Desde 1999. Há uma nascente principal, em Itauçu, uma em Goianira e em Santo Antônio. Nossa visão é recuperar a principal porque naturalmente a sociedade recupera o resto. Mata ciliar temos vários quilômetros, dezenas de nascentes prontas. Posso dizer que se comparar o alto do Meia Ponte, ou seja, antes de Goiânia, a situação é muito melhor do que em 1999.

O senhor acredita na despoluição do Meia Ponte?

Quando se fala de mata ciliar, de nascentes da cobertura vegetal, posso dizer que está recuperado. Agora, temos leis que todo aquele empreendimento que produz efluentes poluidores não pode lançar no manancial sem o devido tratamento. Enquanto os efluentes produzidos não forem tratados, evidentemente continua a poluição. É um grande equívoco, cultura histórica nossa. ‘Vamos chamar empresas, empreendimentos, poluam nossos rios que nós tratamos’. Na verdade quem tratou foi a própria natureza. A qualidade das águas que chega hoje ao Rio Paranaíba é bem melhor do que quando sai de Goiânia, porque a própria natureza tratou. Acredito que possa ser tratado todo esse esgoto com muita qualidade. Não se lançar mais esgoto no Meia Ponte e apenas a água que fora tratada.

E o Rio Araguaia?

A nascente principal do Rio Araguaia está totalmente recuperada. Antes já fora até uma pocilga.

Uma pocilga?

Naquela nascente. Fomos ao local, falamos com o proprietário, isolou-se aquela área. Orientamos para que se fizesse uma reserva legal naquela região. Limpamos a nascente com escarpa da serra. O proprietário, com nossa sugestão, criou corredor ecológico ligando a nascente do Araguaia ao Parque das Emas. Isso é de uma grandiosidade tamanha. As grandes voçorocas, a principal delas em solo goiano, denominada Chitolina, estão totalmente estabilizadas. Mudamos o nome, homenageando o proprietário e hoje chama-se Nascente Recuperada Milton Frias. Faleceu mas foi o maior aliado da Polícia Civil na região. Homenagem feita ainda em vida. As cabeceiras do Rio Araguaia estão boas. A margem da Serra do Caiapó, 30 quilômetros na borda da chapada, foi feito isolamento com plantio de árvores. É uma realidade muito diferente do passado. Acredito no envolvimento da comunidade e dos produtores rurais, com mudança de comportamento, com nova cultura de grandes produtores de grãos da região.

A crise da água é causada por falta de chuva ou de investimento?

Acredito que tem outro fator, o principal deles, o desmatamento. Desmataram as cumeeiras, que são divisores de água. Ali vem a chuva, infiltra água e brota. Estamos trabalhando para recuperar as nascentes, mas daqui a pouco as inteligências vão descobrir que temos que recuperar esses divisores de água. Quando se tirou a cobertura vegetal, tirou também o ciclo complexo da própria natureza. Água de chuva tem duas finalidades: ou infiltra ou evapora. Nunca pode fugir, correr, ir para o manancial ou para o mar. Então temos que trabalhar para reter água de chuva. Podemos fazer, é questão de investimento. Agora, o grande mal foi realmente o desmatamento, não tenho dúvida.

Há solução concreta para lixões a céu aberto?

Existe. O primeiro mecanismo chama-se educação. Quando foi implantada a coleta seletiva em Goiás? Foi agora, recentemente.

Em Goiânia…

Em Goiânia e muitas vezes cambaleando. A sociedade tem que participar. É educação ambiental. Toda residência tem que ter dois recipientes, para material reciclável e orgânico. Se um vai para reciclagem o outro para compostagem, para virar adubo, não precisa de aterro sanitário. Precisa de aterro para o que sobrou. Esse é o caminho que vai ter que ser tomado. Indiciamos 132 prefeitos por fazer a disposição inadequada dos resíduos sólidos dos municípios. Vejo que todo mundo está se movimentando, prefeitos, Ministério Público, órgãos ambientais, para buscar solução. É gravíssima a questão dos resíduos sólidos urbanos.

Nesses anos todos à frente da DEMA qual o maior flagrante?

Tive várias situações extremamente graves. A gente não pode ter piedade, mas tem muita ignorância. Sinto muita tristeza de ver uma pessoa que tem dentro de sua casa 50, 100, cachorros e gatos. A população desesperada e a pessoa tudo que ganha aplica na manutenção desses animais. Vejo com muita tristeza, mas não tem solução. Para onde vamos levar esses animais? É uma situação grave hoje. Se criarmos uma delegacia dos animais em Goiânia a gente não dá conta.

Por quê?

Porque não tem educação, planejamento. As pessoas saem de férias e abandonam os animais. É extremamente grave. Um frigorífico lançando todo o resíduo dentro de uma nascente. Há 10 anos num município tínhamos uma granja de porco. Um funcionário em atrito com o patrão jogou frangos mortos para os porcos, tinha sangue na cara dos porcos. A repórter que estava comigo começou a desmaiar. O que me choca muito, o jovem produtor com bomba nas costas jogando defensivos agrícolas, de repente vem o vento, a cara dele toda esbranquiçada de veneno. Isso foi há 15 anos, se procurar esse rapaz possivelmente não vou encontrar. É muita falta de orientação. A questão do agrotóxico, defensivo agrícola, é grave demais. Vai para o manancial, mas vai também para a própria verdura.

O senhor já pensou em carreira política?

Com muita tranquilidade… Esse ano completo 30 anos de delegado. Mesmo tendo familiares políticos, na minha história de Jataí… Mas quero rogar muito aos meus amigos e minha família para que não me deixem entrar na política. Quero realmente marcar a história em Goiás como delegado de polícia.

Por quê?

Sou delegado concursado, sempre defendi concurso público, defendo sim a política. Sou totalmente contrário ao instituto da reeleição, já fui delegado de combater crimes contra a administração pública, indiciei centenas de prefeitos, políticos, servidores públicos. Mas não tenho a mínima vocação, a mínima intenção de ser político. Quero ficar com meu nome nas nascentes de Goiás, nas árvores. Nunca tive vontade… (apoio: Júnior Bueno)

Texto e foto: Jornal O Hoje