Natalina Maia fala ao DM sobre os desafios de ser a 1ª Mulher Delegada de Polícia de Goiás

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                                                              Primeira Xerife de Goiás

Natalina Maia Rodrigues ingressou nos quadros da Polícia Civil de Goiás em 1963. Aos 81 anos, ela conta sobre os desafios que enfrentou na carreira          

Natalina Maia Rodrigues

Numa casa simples e confortável, em um bairro de classe média em Goiânia, mora a primeira delegada de Goiás. Aos 81 anos de idade, Natalina Maia Rodrigues divide o tempo entre a leitura, amigos, parentes e religião. Viúva há mais de quatro décadas e devido às idas e vindas do destino, hoje vive sozinha. Não por opção. A residência da aposentada já serviu como moradia  para muitos parentes, que vieram em busca de uma vida melhor na Capital e depois seguiram outros caminhos.

Natalina se orgulha desses momentos. Recorda-se da casa cheia, mas entende que hoje é um ninho vazio, mas um vazio positivo, que a leva a refletir e ter mais tempo para cuidar da alma e da beleza. Bastante carismática, essa goiana, natural de Serranópolis, criada na cidade de Mineiros (GO), mudou-se para Goiânia na década de 50, com o marido, com quem teve uma filha. Na Capital, Natalina se formou em Direito pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

Recém-formada, prestou concurso para comissária de polícia em 1962. Naquele tempo não havia a figura de delegado. Natalina foi classificada em segundo lugar na seleção, obtendo nota máximaem Direito Penale Processo Penal. Em fevereiro de 1963, ela ingressava, aos 31 anos de idade, nos quadros da Polícia Civil de Goiás.

Natalina afirma que prestou o concurso não por vocação, mas por necessidade. Durante os 19 anos de exercício, ocupou todos os cargos da época: delegada distrital e de especializada; fundou a Delegacia de Menores e a Polinter, que combatia o roubo e furto de veículos, ocupou a função de polícia interestadual e foi assessoria jurídica de três secretários de Estado.

Filha de trabalhador braçal e dona de casa, Natalina é a mais velha de sete irmãos. Em entrevista ao Diário da Manhã, a primeira delegada de polícia do Estado conta sobre sua carreira, família e os projetos futuros.

DM –  De onde surgiu essa vontade de ser delegada? Alguém a incentivou a entrar nesta carreira?

Natalina – O primeiro incentivo foi a necessidade. Quando saí da faculdade, havia muitos advogados em Goiânia, e à época, era uma cidade pequena. A advocacia era difícil. Meu marido era Oficial da Polícia Militar, com isso, eu já tinha conhecimento na área preventiva. Então abriu-se um concurso público. Colegas meus no ano anterior já tinham feito, estavam satisfeitos no cargo e ganhavam bem, então resolvi fazer. Na segunda turma tive o prazer de ser aprovada. Então não foi bem assim uma vocação. A paixão surgiu depois porque o trabalho policial é fascinante. É como cachaça e cigarro, depois que entram no sangue, a pessoa fica entusiasmada, às vezes, até deixa de seguir outra carreira pelo prazer de se sentir uma autoridade.

DM – Quais são as recordações que a senhora cultiva da época em que exerceu o cargo de delegada?

Natalina – Me lembro da discriminação. Quando ingressei na profissão, alguns delegados diziam, longe de mim, que me dariam um avião e um soldado e nos mandariam para o interior fazer inquérito. Saber fazer inquérito, eu sabia, isto para mim não era novidade, como também ir com um soldado, também não era problema porque eu já tinha sido professora dos soldados da 2ª Companhia Independente do Tocantins. Se eu estava apta para instaurar inquérito em Goiânia, estaria apta em qualquer outro lugar. Não fizeram isto, só prometeram. Mas quando ingressei, um diretor mencionou que não sabia o que fazer comigo. Então, o delegado corregedor da época me mandou para o plantão. Nesse primeiro dia, o plantão foi terrível.

DM – Onde foi o seu primeiro plantão?

Natalina – O plantão geral funcionava na Rua 66, no prédio da Secretaria de Segurança Pública, que ficava no Centro de Goiânia. Aquele dia do plantão foi um banho de sangue, foi terrível. Houve um homicídio, um suicídio e 40 prisões por porte ilegal de arma, além de mais uma porção de casos extras. Tive de instaurar inquérito, lavrar autos de prisão. Foi um trabalho penoso, mas bom.

DM – Em algum momento naquela época a senhora foi perseguida?

Natalina – Não. Nunca fui perseguida no trabalho, mesmo declarando no período da ditadura, em 1964, que eu era do PMDB. Todos sabiam e eu nunca enganei ninguém. Sempre mantive a minha postura decente, respeitando a ética e executando meu trabalho.

DM  – Qual é o segredo ou o sucesso para ser uma delegada reconhecida profissionalmente?

Natalina – Estudar, respeitar o próximo, os colegas e principalmente a si mesmo, não praticando atos delituosos de espécie alguma.

DM – Hoje, o seu trabalho ainda é reconhecido por ter sido a primeira delegada de Goiás?

Natalina –  Sim. É reconhecido tanto pela sociedade quanto pela Secretaria de Segurança Pública, que sempre me homenageia com ofícios e portarias de honra.

DM – Como está a sua vida agora, depois de 19 anos atuando como delegada?

Natalina – Agora tenho tempo para cuidar de mim. Que beleza ter tempo para cuidar da minha alma, para trabalhar tudo aquilo que me vem à mente de lembranças, ou de esperança. Pensa que eu estou no fim? Não estou não! Aos 81 anos tenho projetos para o futuro também.

DM – Quais são esses projetos?

Natalina – São projetos simples, de melhoria pessoal e espiritual, de ajuda ao próximo. De aproveitar meu tempo para coisas úteis, não ficar na maledicência, não cultivar ressentimentos e rancores. Acho que isto é muito importante, porque eu já tenho uma coisa que não me deixa envelhecer muito: marido. Ele morreu cedo, eu não tenho ciúmes, então quem o levou foi Deus. Outra coisa é que não cultivo ressentimento de ninguém. Eu sou espírita e gosto muito de ler.

Fonte: Diário da Manhã
Texto: Wanda Oliveira
Foto: Renan Accioly