Delegado Geral da Polícia Civil fala dos seus planos de trabalho em entrevista ao Jornal Opçao

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João Carlos Gorski: Delegado Geral da Polícia Civil

“O caso Valério Luiz não
ficou parado um dia sequer”

Novo delegado-geral da Polícia Civil contesta informação de que a investigação estaria paralisada e fala dos desafios que enfrentará na função. Prioridade é luta para combater os crimes contra a vida

 

No dia 16 de janeiro, João Carlos Gorski deixou a função de interino no comando da polícia goiana para ser efetivado como o substituto da secretária de Defesa Social de Goiânia no segundo mandato de Paulo Garcia (PT), Adriana Accorsi. O novo delegado-geral da Polícia Civil é uma pessoa querida pelos colegas: em enquete do Sindicato dos Delegados de Polícia de Goiás (Sindepol), seu nome foi o preferido para ocupar o cargo.

Paranaense de Curitiba, Gorski tem 50 anos e atuou 12 anos como escrivão no Paraná. Em Goiás está há 13, como delegado, tendo atuado em Formosa e sido depois coordenador do Grupo de Repressão ao Crime Or­ganizado e delegado-adjunto da Gerência de Inteligência da Polícia Civil. Sua experiência com a inteligência seguiu no comando do Centro de Monitoramento das In­terceptações Telefônicas  e como chefe da Inte­ligência da Po­lícia Civil e Superintendente de Inteligência da Secre­taria da Segurança Pública.

Com a experiência nessa área, ele garante: o caso Valério Luiz não está parado, mas tem uma investigação complexa e demorada. “Não queremos que se transforme em mais um caso de crime antigo. Vamos fazer o melhor para dar andamento”, declarou, em entrevista ao Jornal Opção. Co­nhecido por seu perfil técnico, João Carlos Gorski tem pela frente uma missão inglória: reduzir os índices alarmantes de violência em Goiás, notadamente na região metropolitana da capital, com número crescente de homicídios — em que chama a atenção o morticínio de moradores de rua —, roubos de carro e apreensão de drogas.

 

Frederico Vitor — O sr. era interino em substituição à dra. Adriana Accorsi. Agora, foi efetivado como delegado-geral da Polícia Civil. É uma demonstração de que o sr. está à altura do desafio?

Tenho um histórico de 25 anos de trabalho. na Polícia Civil e acredito estar preparado para enfrentar as dificuldades da segurança pública. Temos uma série de ações que devem ser realizadas e que já estão sendo encaminhadas. Vamos principalmente reforçar a repressão aos crimes contra a vida, que é o maior patrimônio. A repressão aos narcóticos também receberá atenção especial. O drama da droga trouxe uma grande intranquilidade à população, especialmente as drogas que viciam rapidamente, como o crack. Este virou um mal pelo Brasil todo, seja em São Paulo, no Rio ou em Goiás. Isso está gerando um problema muito sério para a sociedade, uma questão de saúde pública, mas que traz consequências, logicamente, para a polícia e para a segurança pública. Durante muito tempo, tivemos mortes por briga, por crime passional, por rixa e até por encomenda. Isso ainda existe, mas o que vemos é houve uma migração para outro lado. O que mais assusta hoje são os crimes envolvendo drogas. Apesar de um trabalho muito bom que a Denarc [Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos] fez no ano passado — e poucos Es­tados conseguiram o mesmo êxito —, as drogas proliferam nas ruas. Somos vizinhos de países produtores e temos fronteiras imensas. As apreensões estão se dando diariamente, de um quilo a várias toneladas, e assim por diante. As fronteiras são precárias, há uma grande extensão de fronteira seca. Não temos um policiamente efetivo nessas áreas. Cabe a nós, policiais civis, tentar combater esse tráfico no Estado de Goiás. Estamos hoje com uma capilaridade, com policiais civis especializados em todas as delegacias regionais do Estado, procurando combater a droga de forma efetiva. Mas ela está aí e gerando muitos problemas.

Cezar Santos — Existe um trabalho de inteligência efetivo nessa área de combate às drogas? Como ele é feito?

Na redação do Jornal Opção durante a entrevista

Primeiramente fazemos um monitoramento, por meio do pessoal especializado. É um assunto delicado de externar, porque o trabalho de inteligência só é bom quando ele não “existe” aos olhos da população, quando as pessoas não o percebem. O que posso garantir é que está sendo feito um acompanhamento, tanto que estão aí os resultados. Frequen­temente estão sendo noticiadas apreensões de centenas de quilos de maconha, grandes quantidades de cocaína. Estamos apreendendo muita pasta-base, que é a forma mais pura da droga, da qual um quilo pode ser transformado em cinco quilos de crack ou três quilos de cocaína para consumo. Enfim, nosso trabalho está sendo muito bem realizado e vamos avançar mais. Só que temos de ter em mente que o crack e as demais drogas vai gerar muitos outros problemas. Por exemplo, uma boca de fumo em seu bairro, vai gerar furto, roubo e latrocínio, ou seja, o sujeito vai roubar para trocar o produto por droga e vai acabar matando alguém. A quantidade de homicídios envolvendo drogas é muito maior do que a soma dos demais motivos, como brigas, rixas e desavenças em geral.

Cezar Santos — O sr. já tem uma meta específica? O governador determinou alguma ação?

Nosso trabalho será de preservação da vida e de repressão às drogas.

Cezar Santos — Mas falo de uma meta específica que tenha sido colocada, como, por exemplo, a diminuição do número de ocorrências?

Na realidade a Polícia Civil e a Polícia Militar têm atividades distintas. Nós atuamos a partir da prática do crime. Com exceção de alguns delitos, eles são iniciados a partir de seu cometimento. Nosso trabalho é sermos eficazes. Por exemplo, estamos fazendo praticamente um flagrante por dia de pessoas envolvidas com o roubo de veículos. Só que a rotatividade no mundo do crime é muito grande. Temos um trabalho eficaz, porque senão os índices de criminalidade seriam muito mais altos do que os que temos. Na Delegacia de Ho­micídios, é praxe que, praticado um homicídio, este seja solucionado e tenha a prisão do autor. É uma rotina na mão dos delegados pedir a prisão de quem praticou um assassinado. É uma forma efetiva de redução da criminalidade? É, sim, porque esse sujeito, dessa forma, não vai praticar outros crimes.

Cezar Santos — A polícia goiana tem percebido a vinda de bandidos de outros Estados para cá ultimamente? Volta e meia, se fala nisso…

Muitos falam também no PCC [Primeiro Comando da Capital, principal facção criminosa do País, originária de São Paulo e com tentáculos em outros Estados] e outras organizações criminosas. O PCC é muito forte em outras unidades da Federação. Em Goiás tivemos uma entrada em 2007, mas isso não se encaminhou. Isso não quer dizer que não vá haver esse tipo de atividade. É uma questão de querer: se eles resolverem se estabelecer em um determinado Estado, vão fazer tudo para isso ocorrer. Mas, de fato, isso ocorreu apenas de forma embrionária, em 2007, e enfraqueceu. Monitoramos algumas pessoas e vimos que houve uma resistência por parte de presos. Para pertencer ao PCC, se tem bônus, mas há um ônus muito grande: é preciso pagar uma mensalidade e cometer uma série de crimes em nome da organização. Aqui, os criminosos não aceitaram muito bem isso. Em Brasília há esse problema, mas não com o PCC e, sim, com outro grupo. Mas o fato é que, além de São Paulo, eles estão estruturados em outros 11 Estados. O que temos aqui em Goiás são quadrilhas estruturadas, mas para agir em relação ao tráfico de drogas, não em grupos e siglas, como em São Paulo e Rio de Janeiro.

Euler de França Belém — O governo federal muitas vezes demonstra não ter um trabalho efetivo em relação ao tráfico de drogas. Alega-se que falta recursos, que a fronteira é muito elástica. Aqui se trabalha com a droga já “instalada” ou de passagem. A Polícia Civil tem um plano estratégico para isso?

Temos um planejamento estratégico na segurança pública, mas faltam estrutura e investimentos. O trabalho da  Denarc faz a identificação das quadrilhas. faz Se “apertarmos” aqui, elas vão para outra região, isso é automático, não tem questão de fronteira. Nesse caso, nós trabalhamos monitorando essas quadrilhas e verificando as que estão surgindo. O objetivo é enfrentar o problema da droga na vinda dela para Goiás. Temos uma fragilidade das fronteiras, como você mesmo citou. São 16 mil quilômetros de fronteiras. O Brasil é vizinho do Paraguai, que produz maconha em larga escala; e da Bolívia, do Peru e da Colômbia, que produzem a pasta-base, que gera a cocaína e o crack. É um trabalho muito difícil, quase de enxugar gelo. Esse trabalho nas fronteiras é realmente muito complicado, para quem conhece o básico de geografia. Basta ver o que ocorre nos Estados Unidos com o México, com os cartéis e os casos de cidades como Juarez, por exemplo. Mesmo com o dinheiro e a alta tecnologia dos americanos, eles têm muita dificuldade para conter o tráfico. Aqui, para nós, vamos citar também um exemplo: a pessoa vai a Pedro Juan Caballero [cidade do Paraguai] e compra um quilo de pasta-base a US$ 1,6 mil. Vai vender aqui em Goiás por R$ 12 mil a um traficante. Este vai transformar o produto em três quilos de cocaína ou em cinco quilos de crack. Por aí você vê o quanto é rentável esse ramo. Na Europa, se chega a 60 mil euros. Mesmo assim, fomos muito eficazes no ano passado e os resultados estão aí.

 

Euler de França Belém — Temos grandes traficantes em Goiás?

Temos traficantes fortes, estruturados, como todo Estado tem. O grande traficante traz o produto que o mercado precisa, geralmente a pasta-base, para atender às necessidades. Um desses, em menos de 18 horas, chegou aqui uma vez e distribuiu 118 quilos de pasta-base, 12 para um, 6 para outro, mais 6 para um terceiro. Tudo isso em menos de um dia. É rápido para vender. Há um mercado consumidor bem ativo. Isso leva a problemas na segurança pública, mas também ao caos na saúde. São Paulo adotou a internação compulsória, para se ver a que ponto chegou a situação.

Cezar Santos — Como profissional da segurança, o que o sr. acha dessa medida?

É realmente muito polêmica. Só que se chega a uma situação em que a pessoa não tem mais o discernimento. Vai chegar um ponto que alguém vai ter de falar “meu amigo, você vai ter de se tratar”. A pessoa não sabe mais o que faz ali: não toma mais banho, não tem mais dentes, está ali para fazer dinheiro e consumir drogas. Qual é a autoestima que essa pessoa tem para viver? Vamos analisar aqui a situação dos moradores de rua. Observamos que é problema com droga. Passou-se a dever em maior escala a traficantes. Muitos viciados passaram a pegar droga para vender, o que gerou esse problema [da matança de moradores de rua]. Parte das mortes foram em decorrência disso. Tivemos ocorrências com armas de fogo, facas e pedras. Esses com armas de fogo já é coisa com traficante: o viciado pega para vender e acaba consumindo tudo, não pagando o traficante. Acontece de também duas pessoas nesse estado de promiscuidade estarem discutindo e, de repente, um matar o outro. Isso é em decorrência do consumo de drogas ou de álcool. Dessa forma, vai chegar uma hora em que a pessoa vai ter de ser obrigada a ser internada, colocadas compulsoriamente para recuperação, por não ter mais discernimento.

Marcos Carneiro — Com o contingente da Polícia Civil pequeno, tem como o trabalho ser eficaz?

Precisamos aumentar. Vamos ter de incrementar, inclusive no departamento de narcóticos. Hoje reconhecemos que nosso quadro é muito aquém, em relação às demandas, que cresceram. Nosso quadro remonta à década de 90, então se observa que há uma certa desproporção entre realidade e necessidade. Mas teremos novos companheiros, delegados, agentes e escrivães, até o final do ano.

Euler de França Belém — Há muita reclamação da população em relação à assiduidade dos delegados. A queixa é de que eles não comparecem ao trabalho. Isso procede?

Em minha opinião, não. O que há é que os delegados, às vezes, têm de se ausentar para conversar com um juiz ou fazer outro tipo de trabalho externo. Pode estar havendo esse tipo de fato — não que essa situação que você colocou não ocorra. Mas há uma supervisão que acompanha o trabalho de todas as delegacias.

Euler de França Belém — Na semana passada saiu a informação de que Goiás é o segundo Estado que menos apurou os crimes mais antigos…

Temos realmente um passivo muito grande em relação aos homicídios, é muito expressivo. Devemos satisfação à população. Temos equipes trabalhando, com o plano de obter provas. Er­ramos no passado, mas estamos tomando cuidado agora. Hoje, os inquéritos são muito rápidos, ágeis. A Delegacia de Ho­mi­cídios da capital apurou muito mais do que 50% dos assassinatos que ocorreram em 2012. Esse número só não foi maior porque tivemos três meses de greve. Quando se fala da apuração de 8% a 12%, na capital temos mais de 60%. Procuramos não deixar as coisas acontecerem, se acumularem.

Euler de França Belém — Há problema para apurar crimes cometidos por policiais, especialmente os militares. Um exemplo é o crime contra Camila Lagares, que fará quatro anos em abril. Tudo indica que ela foi assassinada por militares. Um delegado me disse que não se sabe onde está esse inquérito, embora se diga que está na Delegacia de Homicídios. Nesse caso específico houve alguma orientação especial, diferente, em relação a esse inquérito?

Não, nunca. Primeiramente, é bom dizer que estamos resolvendo casos envolvento policiais militares. Sobre o caso Camila La­gares, eu estive com esse inquérito em minhas mãos no ano passado e o li de ponta a pon­ta, portanto, o conheço bem. Às vezes um colega pode vir aqui falar algo, mas não sabe o que está dizendo, infelizmente. Mes­mo sendo um delegado experiente, ele está afastado. Li folha por folha desse inquérito, de cabo a rabo. Houve um confronto na Vila União, onde supostamente a Camila estaria lá — ninguém afirmou que ela estava lá. Pri­mei­ramente, como se parte para uma investigação tão dificultosa como essa? Não sabemos se ela está morta ou viva, embora imagine-se que sim, pelo desaparecimento e lapso de tempo. Mas não há nenhum indício mais contundente. Há um celular dela deixado na casa, mas como ela estava com pessoas que eram amigas dela, Camila poderia ter deixado seu telefone no local. Existe essa suposição de que ela teria sido morta, mas não há nenhuma prova, nenhum testemunho, nenhum indício.

“Não adivinhamos, temos de trabalhar com provas”

 

Euler de França Belém — Mas por que essa demora de quatro anos?

Por causa das dificuldades. Imagine que haja um crime nessa sala e alguém seja tirado daqui. Poucos indícios ficam nesse local. A pessoa pode estar no rio, enterrada, ter desaparecido. E a polícia trabalha com indícios, fatos, provas. Não temos como adivinhar.

Euler de França Belém — Esse crime hoje está esquecido…

Não está, tanto que o li ainda no ano passado. O que estamos analisando é o que podemos fazer a mais em relação ao crime. O que existe é a dificuldade de investigação desse caso, que não é algo específico de Goiânia ou Goiás, é em qualquer lugar do Brasil ou do mundo.

Euler de França Belém — O sr. leu o inquérito. O que os policiais que estavam na casa do crime disseram?

Não me lembro. Li de 15 a 20 inquéritos, desses mais complicados. O que recordo é que houve um confronto, em que três pessoas morreram. O que digo é que procurei atentamente buscar as informações desse inquérito.

Euler de França Belém — Para terminar sobre esse caso, o sr. acha que não há nada que atrapalhe por conta do envolvimento de policiais?

Não, não. Acabamos de resolver um caso em Aparecida de Goiânia, no qual mataram uma criança, em que tem envolvimento de policiais. Mas repare quanto tempo corremos atrás de uma prova. Foram meses, a Polícia Civil não para. Infe­lizmente, em certos casos, não há testemunhas, não há prova técnica, não tem sangue, não tem um fio de cabelo, não tem nada. E precisamos nos basear em fatos concretos.

Euler de França Belém — No caso Camila Lagares, aliás, existe um fio de cabelo para ser vistoriado. Como está isso?

Está na Polícia Técnica, falei com a responsável esses dias. É algo que está sendo trabalhado ainda, mas ela alega que é muito pouco material, porque precisaria do bulbo capilar, que cederia mais material para fazer a prova genética. A tecnologia do DNA, mesmo avançada, ainda não chegou a tanto para sabermos que um fio de cabelo sem o bulbo possa dar segurança de ser da vítima ou não.

Euler de França Belém — O caso mais rumoroso do mo­mento é o da morte do radialista Valério Luiz. As notícias que se têm são de que há policiais envolvidos. Diz-se que no crime houve a participação de um empresário e três policiais. Há alguma forma de comprovar essa participação, uma triangulação entre essas quatro pessoas?

É uma situação complexa, principalmente em relação à quebra de sigilo telefônico. A região do crime [Setor Serrinha] é densamente habitada, o que faz com que tenhamos de “quebrar” várias torres. No prazo de uma hora antes e uma hora depois do crime, seriam gerados 200 mil ou 300 mil números gerados. Se pegarmos três ou quatro horas antes e duas horas depois esse número será multiplicado por três. Outro drama que temos é que a telefonia móvel, hoje, não é fiel ao cadastro. Por exemplo, eu posso rapidamente cadastrar um celular em seu nome, basta ter seu nome completo. É o chamado “celular frio”. Essa quebra é demorada, imagina o que é analisar tantos e tantos números. O que posso dizer é que isso está sendo trabalhado. Aí um delegado fala que a investigação estava parada há quatro meses. Infelizmente, para ele, abrimos o inquérito pela primeira vez para o sr. Manoel de Oliveira [pai de Valério Luiz e, como o filho, também comentarista esportivo], que ficou muito satisfeito. Ele viu que os trabalhos não ficaram parados nem mesmo por um dia. Não apenas só em relação a testemunhas, outros trabalhos estão sendo realizados. Dessa forma, se vem uma pessoa e fala algo para você sobre essa investigação, mesmo que seja muito experiente, mas vai lhe falar algo de que não sabe, porque não conhece o caso. Esse caso está sendo levado sob sigilo, quem sabe dele são só os delegados que estão nele. Quem trouxer outra informação está sendo descortês com a Polícia Civil e vai passar uma informação errada. O sr. Manoel de Oliveira pode falar melhor sobre o que está ocorrendo, porque ele viu o inquérito e percebeu que o trabalho está andando. Ele ficou impressionado. Se vamos chegar a um resultado? É o que esperamos, a polícia sempre trabalha para isso. Mas, como falei a você, temos toda uma questão de provas técnicas. Se fosse indiciar de uma a quatro pessoas no inquérito, tudo poderia cair por terra, porque o que temos são só indícios. No Judiciário, futuramente tudo cairia por terra. Com o que temos hoje, um advogado meia boca resolveria a questão a favor dos possíveis apontados, imagina um profissional bem qualificado, com uma boa estrutura de escritório. Por isso é que procuramos cuidar muito bem desses casos, não somente apontar alguém. Precisamos levar ao Judiciário toda uma estrutura bem amarrada de provas.

Marcos Carneiro — Faltam provas para levar os suspeitos ao Judiciário?

As provas estão no conjunto do material que estamos trabalhando, mas a análise é demorada, complexa. Tem muita informação para ser trabalhada.

Marcos Carneiro — Há uma possibilidade de esse crime se tornar um novo caso Camila Lagares ou caso Boadyr Veloso?

Trabalhamos com provas. Mes­mo que a gente adivinhasse, teríamos de provar. Claro que não queremos que se transforme em um caso antigo, vamos trabalhar para que isso não aconteça.

Euler de França Belém — O roubo de cargas é considerado muito alto em Goiás, até por ser um Estado de passagem. O que está sendo feito para conter esse tipo de crime? É algo relativo ao crime organizado?

Não é bem assim. O que há são quadrilhas praticando esse tipo de crime. Temos alto índice dessa ocorrência em São Paulo e Minas Gerais, e também em Goiás, até pela estrutura viária do Estado. As quadrilhas agem de acordo com a oportunidade e com o comprador. Às vezes, se houver um receptador em Goiás, por que ele iria buscar um caminhão em São Paulo? As quadrilhas atuam especificamente em relação aos produtos, por exemplo, eletrônicos. Na região de Rio Verde, o que é interessante para eles são produtos agropecuários, defensivos etc. Nas proximidades de Anápolis, para eles o que importa são secos e molhados, pela rede de distribuidoras. Então, essas quadrilhas agem dessa forma, o que torna muito difícil a ação da polícia, porque o produto chega muito rapidamente às mãos do receptador. Está havendo muito roubo de álcool por aqui. Às vezes o veículo sai de Senador Canedo, é assaltado e duas horas depois aparece abandonado. Os bandidos mudam o sistema de rastreamento e dão destino a essa carga. Estamos investigando, mas temos uma deficiência de policiais. Aguardamos um concurso público para aumentar o quadro.

 

Euler de França Belém — Em Goiânia, há um alto índice de roubo de carros. Não é uma área em que seria necessário um trabalho mais intensivo?

Temos uma frota de 1,05 milhão de veículos. O índice de roubos é de 18 a 27 veículos por dia. É algo baixo em relação à frota, muito grande. Goiânia tem a peculiaridade de ter muitas motos, que são usadas para a prática de delitos, como o roubo e o pequeno tráfico. A prova disso é que índice de recuperação de veículos é altissimo, acima de 80%. Quase tudo que se rouba se recupera. Nossa delegacia especializada tem feito praticamente um flagrante por dia. Temos um número alto em relação à motocicleta, que é fácil de se roubar, basta destravar o guidão e ir embora. Do total, são de 30% a 40% de ocorrências com motos. Outra modalidade é para golpes com seguros, que é uma prática no Brasil e no mundo todo. Uma característica interessante é o roubo de caminhonetes ou carros em sequência, porque o ladrão tem dificuldades, pelos sistemas de segurança do veículo. Então, o que vemos é que não temos um índice ideal, mas as características peculiares de Goiânia e pelo tamanho da frota acabam o incrementando. Outro problema é que o sistema viário da cidade não suporta que façamos blitz. Isso provoca caos na cidade, para o trânsito. De qualquer maneira, o trabalho especializado da polícia é sempre muito frutífero.

Euler de França Belém — E como está a situação da chamada “robauto”, os ferro-velhos ilegais que servem inclusive à criminalidade?

A gente fiscaliza muito esse pessoal. Só que geralmente eles compram muitos carros sinistrados e a peça que averiguamos muitas vezes não tem como identificar sua origem. In­co­modamos muito a eles por lá, mas a maioria das peças não tem identificador — rodas, teto, portas. Como eles têm nota dos produtos, mesmo que haja algo irregular eu é que tenho de provar que a origem é ilícita.

Euler de França Belém — O sr. já foi assaltado?

Só uma vez, uma sensação horrível, um assalto à mão armada, em Cristalina.

Euler de França Belém — Os novos policiais, delegados e escrivães vão encontrar que tipo de estrutura na polícia?

Como o governador já adiantou no ano passado, a Polícia Civil vai passar pelo mesmo processo de recuperação que passaram as escolas. Será uma forma desburocratizada. O que está sendo resolvido, nos últimos detalhes, é se esse dinheiro será repassado a um fundo composto por pessoas da comunidade, da PM, da Polícia Civil, do Mi­nistério Público, do Poder Ju­diciário. Por exemplo, na regional de Anápolis há vários municípios. Então, decide-se como esse dinheiro vai ser gerido, se irá para a reforma de uma determinada delegacia ou outra coisa. É um processo muito mais ágil do que fazer licitações. A expectativa é de que neste ano tenhamos um “upgrade” considerável na estrutura das delegacias. Estamos adquirindo móveis, computadores e toda a parte de informática será trocada. Compramos também pistolas novas, coletes e assim por diante. O que precisa é o investimento na área de segurança pública ser uma rotina, precisa ter uma continuidade. Um prédio não pode ficar seis meses com uma goteira. É preciso fazer reforma, mas também a manutenção rápida.

Marcos Carneiro — A delegada Adriana Accorsi, em sua despedida, disse que a Polícia Civil tem problemas históricos de estrutura. Mas também falou sobre questões pontuais. Hoje, sem essa restruturação que deve demorar a ser concluída, a Polícia Civil trabalha com que margem de improviso?

Não é questão de improviso. Prestamos um serviço público e queremos atender bem à população. Se você me der uma sala, eu vou trabalhar nela. É a sala adequada? Não, mas vou fazer minha função de delegado e exercer meu trabalho na Polícia Civil. Só que não é um local adequado para receber uma pessoa, para fazer a nossa atividade. É óbvio que a polícia vai continuar fazendo o que precisa, mas a população quer um lugar limpo e com um mínimo de conforto para ser atendida. Isso precisa ser uma rotina.

Marcos Carneiro — Qual é a maior qualidade hoje que tem a Polícia Civil de Goiás?

São os profissionais que nós temos. O próprio secretário de Segurança Pública, Joaquim Mes­quita, que vem da Polícia Federal, ressalta muito isso, que a Polícia Civil faz muito com o que ela tem. Os delegados são dedicados e solucionam os casos que recebem com um número realmente pequeno de pessoal. Nosso patrimônio é esse: pessoas que são ótimos profissionais.

 

Cezar Santos — O sr., com a experiência que tem na área, não vê que falta um maior entrosamento entre as polícias, inclusive a Federal?

Às vezes um sujeito comete um crime aqui e vai para outro Estado e não é identificado como criminoso. São problemas estruturais, aquilo que a gente já se referiu. Goiás hoje é referência em banco de dados, que está sendo cedido como modelo para outros Estados. Mas não há um banco de dados nacional que seja 100% confiável. O que é preciso é de um banco no qual eu, daqui de Goiás, possa mexer nos dados do Distrito Federal e enxergue aquilo que me interessa, da parte com que trabalho. Já um operador da inteligência precisa de algo mais global. Vejo que está faltando esse sistema mais avançado. Um técnico goiano que trabalha na Senasp [Secretaria Nacional de Segurança Pública], Rogério Car­neiro [gerente de projetos], está finalizando um sistema que vai atender e integrar o Brasil todo. Alguém do Acre vai poder verificar um criminoso de Goiás e eu vou poder observar uma ficha do Rio Grande do Sul. É um técnico que, pelo trabalho bem-feito que fez por aqui, foi convidado para integrar a equipe do governo federal.

 

Cezar Santos — Muitos dos crimes são cometidos por indivíduos do regime semiaberto. O acompanhamento desses presos não deveria ser feito com mais cuidado?

Se você observar, no Brasil todo temos um problema na área de execução penal, muito sério. Temos de discutir um dia qual modelo que queremos, se vamos optar mesmo pelo encarceramento mínimo. Eu tenho comigo que algumas pessoas não têm como conviver em sociedade, infelizmente. Mas a maioria considera que com o encarceramento a pessoa não se ressocializa, não se reeduca, fica pior. Só que o modelo atual está desestruturando famílias, porque alguém mata e, em pouco tempo, já está no semiaberto, daqui a pouco no aberto. Enfim, em prazo curto a vida dela já está normal. Essa é a questão: qual modelo nós queremos?

Cezar Santos — O sr. tem acompanhado a questão das tornozeleiras para monitoramento?

Sei que há uma agência cuidando disso, mas não estou acompanhando porque é algo da função da Exe­cução Penal, apesar de haver presos condenados nas delegacias.

Marcos Carneiro — O episódio da fuga em Senador Canedo tem algo a ver com essa questão de presos condenados?

Em Senador Canedo, os presos já estavam sob cuidados da E­xecução Penal. As prisões acabam inchando as celas das delegacias, porque há um máximo de recebimento de presos em A­parecida de Goiânia [local da Casa de Prisão Provisória e do Centro Penitenciário Odenir Guimarães]. Depois disso, não se recebe e fica a cargo da Polícia Civil, que não deveria cuidar de presos. É um problema que deve ser resolvido. Assim, poderemos deixar de cuidar de presos e sair para a rua para investigar crimes.

Frederico Vitor — Já se passaram mais de seis meses desde o fatídico acidente com o helicóptero da Polícia Civil, em que morreram oito pessoas. Essa aeronave ainda não foi reposta. Há alguma previsão nesse sentido?

O secretário de Segurança Pública já está ultimando os detalhes para acionar a companhia de seguros ou para a reposição da aeronave ou para o pagamento da indenização.

Frederico Vitor — Há alguma notícia sobre o laudo, do que ocorreu no acidente?

Não, isso está a cargo do Cenipa [Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aero­náuticos], órgão federal vinculado ao Ministério da Aero­ná­u­tica. Eles não dão prazo certo. Estão trabalhando e várias ve­zes já estiveram com equipamentos nos Estados Unidos, levaram material para fazer análises. Não há prazo para entrega do laudo conclusivo da queda de nossa aeronave.

Fotos: André Saddi/Jornal Opção