Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos traça o mapa da cracolândia em Goiânia

905
Gráfico aponta os 11 pontos mais movimentados da cracolândia

O dono de banca de revistas Sebastião Brandão, de 41 anos, é um das centenas de vizinhos do crack em Goiânia. Ele conta com naturalidade que é habitual ver grupos de pessoas consumindo drogas, principalmente crack e maconha, ao lado de sua banca e nas proximidades do Terminal Izidória, onde está instalada. “A droga já faz parte da sociedade. Pessoas de todas as idades e classes sociais usam droga. Ela é democrática. Não escolhe suas vítimas”.

A praça onde fica a banca de Sebastião é apontada pela Polícia Civil como uma das 11 mais movimentadas cracolândias da capital (ver lista nesta página). O levantamento foi feito pela Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos (Denarc) a partir de operações, de ocorrências registradas nesses locais e de denúncias feitas anonimamente.

Mas, além dos pontos listados pela Denarc, há ainda vários outros que possuem grande fluxo de traficantes e de usuários de drogas. É o caso, por exemplo, das imediações do Terminal do Dergo, do Parque Vaca Brava, no Setor Bueno, e nas ruas vizinhas da Avenida 136, entre a Marginal Botafogo e a Rua 115, como constatado pela reportagem do POPULAR.

De acordo com estudo do Conselho Nacional de Segurança Pública (Conasp), em Goiás existem atualmente cerca de 300 mil usuários de droga, sendo 50 mil só de crack. O número de viciados vem crescendo de forma acelerada na capital, fazendo com que as cracolândias – antes restritas a alguns pontos específicos – se espalhem pela cidade.

O drama do abuso de drogas foi mais uma vez escancarado nas ruas do Bairro Capuava. Uma dona de casa, vizinha de um usuário, de aproximadamente 25 anos, contou que o rapaz passou dias com amigos em uma quitinete consumindo droga e que horas antes estava no telhado da casa ameaçando jogar pedras em quem passasse pelo local.

Viciados fumam crack nas proximidades da Rodoviária de Campinas, um dos pontos mapeados pela Polícia Civil

“A Polícia Militar veio, tirou o moço, mas como é só usuário, não o levou. O rapaz ameaçou a mulher que toma conta da quitinete e depois subiu a rua ameaçando jogar pedras nos carros”.

A dona de casa contou que sente muito medo de ser vizinha do rapaz, não pelo fato dele usar drogas, mas pela possibilidade de que algum crime aconteça perto de sua casa. “Não denuncio. Esse povo marca a gente”, contou.

Ela confessa que está acostumada com a rotina do setor e que fica trancada dia e noite em casa com o neto de 1 ano e 10 meses. “Saio na porta de casa um pouco quando vejo que é seguro”.

O Bairro Capuava, principalmente nas proximidades do Terminal Padre Pelágio, é outra área listada pela Denarc como de intenso tráfico e uso de drogas. Várias operações já foram feitas na região pelas Polícias Civil e Militar.

O delegado Odair José Soares, titular da Denarc, explicou que por ter um grande fluxo de pessoas todo o tempo, terminais de ônibus são muito visados por usuários de drogas que durante o dia pedem moedas como esmola. Há outros que praticam pequenos furtos.

Segundo ele, a Polícia Civil vai intensificar as ações nos terminais para tentar identificar os usuários-chefe, que são os viciados em drogas que arrecadam dinheiro, compram várias pedras de crack, usam parte e revendem o restante.

“A PM dá baculejo de vez em quando em alguns usuários de drogas por aqui. Quando isso acontece, eles vêm aqui para o alto do setor. Depois voltam para as imediações dos terminais do Dergo e do Padre Pelágio”, contou a confeiteira Denise Alves de Souza, de 28.

Ela mora no setor desde que nasceu e conta que o bairro já foi mais violento. “O tráfico já foi mais intenso. Hoje é tranquilo”, contou.

O comerciante Sílvio José da Costa, de 51, mora há 20 anos na casa construída pelo sogro, na Praça Boaventura. Durante o dia, o grande quintal na frente da casa serve de estacionamento. Ele revela que traficantes e usuários de drogas se reúnem na praça entre as 19 e as 20 horas todos os dias.

“Eles ficam debaixo de um pé de manga. O rapaz chega de motocicleta, entrega a droga e eles ficam lá consumindo”. Ele afirma que já se acostumou com a cena e que não tem medo do tráfico ou do uso de drogas praticamente na porta de casa.

Por morar ao lado de um banco, disse que a Polícia Militar sempre passa pelo local. Apesar disso, disse que nunca denunciou o tráfico no local por ter receio de represálias.

Levantamento feito no ano passado pela Delegacia de Homicídios revelou que cerca de 70% dos crimes de morte ocorridos na capital são motivados por desavenças relacionadas ao envolvimento com drogas. A delegada Adriana Ribeiro de Barros explicou que a cobrança de dívidas de drogas é a principal causa de morte na capital.

Texto: Rosana Melo
Foto: Wildes Barbosa
Fonte: O Popular