Quadrilhas teriam matado 70. Apontam investigações feitas pela Delegacia de Homicídios

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Delegado de Polícia Carlos Caetano, da Delegaciad e Homicídios

Quatro quadrilhas de jovens e adolescentes são responsáveis por mais de 70 assassinatos em Goiânia desde janeiro do ano passado. Isso representa quase 10% do total de assassinatos registrados na capital desde o início de 2012 até o dia 30 de abril, 778 crimes de morte.

As quadrilhas são de pequenos traficantes que lutam entre si por território ou em disputas entre seus integrantes. Elas são investigadas pela Delegacia de Homicídios e, segundo o delegado Carlos Caetano Júnior, duas tiveram seus núcleos principais presos. Desde então, o número de assassinatos nas respectivas regiões diminuíram.

Há um mês, a Delegacia de Homicídios realizou uma operação na Região Leste da capital e prendeu Gabriel Viana da Silva, o Biel, Joel Batista Costa, Ricardo Carmo Gomes, Paulo César Cândido Santana e Igor Peixoto. Eles faziam parte do núcleo central de uma quadrilha de traficantes que agem na Vila Pedroso, com ramificações no Recanto das Minas Gerais, Jardim das Aroeiras, Dom Fernando 1 e 2 e em bairros de Senador Canedo, como o Jardim das Oliveiras.

“Este grupo tem pelo menos 30 homicídios de um ano e meio até agora”, revela Carlos Caetano Júnior. Desde que o grupo foi preso há um mês apenas um homicídio foi registrado na Região Leste da capital. “Dá para perceber que o número de homicídios vem caindo gradualmente em algumas regiões. Em parte é devido à esta operação e a outras desenvolvidas pela Polícia Civil, como o cadastramento dos moradores de rua usuários de crack em Goiânia e pela volta da Rotam às ruas 24 horas”.

Outra quadrilha identificada nas investigações tem como área de atuação o Residencial Real Conquista. Parte dela quis diversificar os negócios e partiu para o roubo, acabando presa em flagrante na cidade maranhense de Grajaú. O grupo é responsável por mais de 20 assassinatos.

José (nome fictício) completou 18 anos semana passada. Usuário de maconha e suspeito em pelo menos três assassinatos, estava preso na Delegacia de Homicídios. Os crimes foram cometidos quando ele ainda era adolescente.

Segundo ele, quando um aviãozinho do tráfico vê outro ganhando mais dinheiro que ele, acaba fazendo inimizade e o mata. “É ciúme do outro estar ganhando mais. Começa assim mesmo. Depois um grupo vai vingando a morte de um elemento do outro grupo”.

O rapaz falou com exclusividade para O POPULAR. Segundo ele, mesmo vendo seus subalternos se matando, o patrão do tráfico na região não interfere nos acertos de conta do tráfico. “Só quando é um concorrente dele”. Outros 10 homicídios nos últimos 16 meses são atribuídos a uma quadrilha de jovens do Jardim Eldorado Oeste. A Polícia Civil já os identificou, mas não terminou as investigações para que as prisões possam ser requeridas à Justiça.

José(nome fictício) integra do bando investigado pela Polícia Civil

Entrevista / José (nome fictício)

“Não avisam. Chegam e matam”

José (nome fictício), trabalhou apenas seis meses como servente e largou tudo. Usa maconha com frequência e o bando do qual faria parte é responsável por cerca de 20 homicídios na região. Ele teria participado de 3 deles

Porque essas quadrilhas entram em confronto com as outras?

Um (pequeno traficante, conhecido como aviãozinho) começa a ganhar dinheiro de mais. O outro vê, fica enciumado e rompe a amizade matando o cara. O povo do grupo do que morreu quer vingar a morte do amigo. Vem e mata quem matou o outro e vai embolando, vai matando.

 

Mas isso não prejudica o tráfico?

O patrão deixa o povo se matar até a hora que compromete o rendimento dele. Se comprometer, ele faz parar. Dá a ordem e pronto. Ai de quem não parar.

Os grupos de quem morre e de quem mata são mandados pelo mesmo patrão(traficante que fornece a droga para as quadrilhas)?

São sim. O patrão só age quando prejudica os negócios dele ou quando outro patrão quer entrar na área dele. Mata mesmo.

Quem é o patrão da sua área?

O Alan, que está no semiaberto, pelo que ouvi falar. Manda no Real Conquista todo.

Você é traficante também?

Não. Só usuário de maconha, mas compro do pessoal dele quando volto ao bairro.

Você não mora mais lá?

Não. Tentaram me matar ano passado por causa de uma morte que aconteceu lá. Acharam que era eu. Não foi. Para não correr risco, saímos de lá. A casa está abandonada. Volto lá só para fumar maconha com os meus amigos e para ver se a casa não foi invadida.

Você está jurado de morte?

Tentaram me matar. Não me falaram nada. Geralmente não avisam. Chegam e matam.

E onde você está morando agora tem como comprar maconha para o seu consumo?

É fácil demais comprar maconha. Em qualquer lugar vende. Cada dola (porção) compro por 5 reais. Dá dois cigarros de boa.

O patrão vende só maconha?

Não. O patrão toma conta de tudo. Vende maconha, oxi, crack e cocaína. Ele comanda tudo.

Você parou de estudar para trabalhar?

Não. Eu não queria estudar mais. Trabalhei uns seis meses como servente, mas larguei pra lá também. Nesses seis meses eu ajudei a construir uma igreja.

Grupos não têm muita ligação com grandes organizações criminosas

O delegado Carlos Caetano Júnior disse que a maioria dos integrantes dos grupos é jovem, pobre, que mora na periferia e não tem trabalho. Praticamente todos os integrantes são usuários de drogas e violentos. Cada quadrilha é formada de cinco a dez integrantes, geralmente amigos de infância que crescem e começam a usar drogas e a praticar crimes. “Podemos dizer que são gangues sem muita estrutura e sem ligações com grandes organizações criminosas”.

Adolescentes e jovens estão cada vez mais frios, violentos e cruéis no cometimento de crimes. A constatação é da delegada Nadir Cordeiro, titular da Delegacia de Apuração de Atos Infracionais (Depai). “Eles cometem os primeiros atos infracionais bem jovens e cada vez mais cedo. Aqui na delegacia chegam os que tem 12 anos ou mais”, explica.

Ela diz que 90% dos adolescentes em conflito com a lei são usuários de drogas e oriundos de lares desestabilizados e pobres. Muitas vezes o adolescente larga os estudos quando começa a usar droga. É grande o porcentual de usuários ainda adolescentes que começaram a usar droga dentro de casa, com o pai ou a mãe, pequenos traficantes que usam a residência como boca-de-fumo.

Deveres

“Esses meninos são muito violentos e acham que a lei lhes garante apenas direitos. Se esquecem que ela lhes cobra deveres”.

Nadir Cordeiro narra uma rotina árdua na delegacia. No ano passado, entre janeiro e abril, foram registradas 885 ocorrências e 860 apreensões de adolescentes em conflito com a lei por atos infracionais graves. Este ano, no mesmo período, foram feitas 1.086 ocorrências e 1.134 apreensões de adolescentes. “Já estamos agendando audiências com o Ministério Público para agosto. Não tem lugar para colocar tanta gente. Temos apenas 60 vagas para internação e um número crescente de infratores que cometem apenas fatos graves”, disse.

Fonte: O Popular
Texto: Rosana Melo
Foto: Zuhair Muhamad