Aos 100 anos de idade, policial civil dribla a idade e bate ponto todos os dias na DEIC

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Inspetor Galeno, de terno, na delegacia

Diariamente ele cumpre um ritual. Levanta por volta das 4 horas, faz o próprio café, lê o jornal do dia, escolhe o terno que vai vestir e pouco antes das 7 horas sai de casa, no Setor Coimbra, para pegar o transporte coletivo que o leva até o “trabalho”. Prestes a completar 100 anos, o policial civil, agente de 1ª classe, Galeno Nicodemos Braga “bate ponto” diariamente na Delegacia Estadual de Investigações Criminais (DEIC), no bairro Cidade Jardim, em Goiânia. É nesse ambiente, onde passou a maior parte de sua vida, que ele se sente mais feliz e mais completo.

Natural de Silvânia, o inspetor Galeno, como é conhecido, não consegue se imaginar longe do cenário policial. “Desde menino tinha vocação para ser polícia”, ele conta. O velho policial impressiona não apenas pela memória, mas também pela boa visão, pela vaidade, pela elegância e pela agilidade no andar com a ajuda de uma bengala. Diariamente, mal espera o dia clarear para chegar ao ponto de ônibus na Avenida Castelo Branco, nas proximidades da movimentada Praça Ciro Lisita. E acelera o passo para atravessar a rua quando avista de longe o ônibus 187 que o deixa bem diante do complexo das delegacias especializadas.

Ali é recebido pelo colega Paulo Ferreira dos Santos, o Paulinho. “Ele sabe tudo. Hoje não tem policiais como ele, que conhece o bandido pelo jeito de andar”, diz o servidor público. Quando assumiu a DEIC em fevereiro de 2013, a delegada Adriana Ribeiro de Barros já o encontrou no posto de “trabalho”, uma cadeira na recepção, onde fica observando o movimento, o entra e sai de agentes, escrivães, delegados e investigados. “Fico lá batendo papo”, conta o inspetor Galeno. A titular da DEIC o trata como um funcionário e dispensa a ele uma atenção especial todos os dias quando chega para mais uma jornada. Na delegacia não tem ninguém tão bem vestido como ele. Terno impecável, sapatos lustrados, um boné para esconder a calvície e o distintivo da Polícia Civil na lapela.

Aniversário
Ainda em casa, o inspetor Galeno abre o guarda-roupa para mostrar à equipe de reportagem a coleção de ternos. São quase 20, 2 deles comprados para comemorar seu centenário de vida. Haverá comemoração na sexta-feira, dia 14, data do seu aniversário no complexo das delegacias especializadas. “Vamos armar tendas aqui no pátio e servir um café da manhã para cerca de 300 pessoas”, conta a delegada Adriana Ribeiro, titular da DEIC, que prepara a homenagem. Para a comemoração, além dos familiares do inspetor Galeno, estão sendo aguardados diretores da Polícia Civil, representantes do Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol), da União Goiana de Policiais Civis (Ugopoci) e do Sindicato dos Delegados de Polícia Civil (Sindepol).

Em casa, a mulher do inspetor, Clarinda Martins Neves, de 78 anos, e a única filha, Maria Galeana, de 63 anos, que mora em Brasília, também preparam os festejos alusivos à data. Inspetor Galeno está feliz por ser celebrado e espera reunir na comemoração os três netos, os quatro bisnetos e o tataraneto.

O policial civil conta que Clarinda é a companheira de 40 anos, mas há 15 anos decidiu se casar com ela. “Eu estava muito doente, casei para legalizar a situação, mas não morri”, diz sorrindo. Mas avisa que não pretende dar nenhum trabalho à família. “Tenho túmulo pronto no Cemitério Santana, o caixão está pago. Está tudo arrumado, ninguém terá trabalho.”

Trabalho que virou notícia
A ação do policial foi mostrada nas páginas do POPULAR

O POPULAR – 7 de julho de 1965
“O investigador Galeno, vendo um guarda civil em luta com um desconhecido em meio a uma aglomeração, sacou do revólver e gritou para o malandro que soltasse a faca que tinha nas mãos, e com a qual tentava ferir o guarda, senão seria baleado. O ladrão (conforme é suspeita que seja) largou o guarda e pulou em sua direção cravando-lhe a faca na barriga. O investigador, defendendo-se, puxou o gatilho contra o marginal, mas a bala foi atingir o garoto que assistia o rififi, matando-o instantaneamente. O ladrão fugiu, desaparecendo sem ser reconhecido”.

O POPULAR – 10 de janeiro de 1976
“A polícia de Morrinhos recorreu ao Setor de Crimes Diversos para capturar o maníaco. O capitão Nenzinho, titular desse órgão, imediatamente enviou para aquela cidade uma equipe de agentes, comandada por Galeno Nicodemos. Ali, os policiais levantaram sua pista e acabaram por descobri-lo numa mata, na divisa de Goiás com Mato Grosso, onde o cerco se torna cada vez mais fechado.
Galeno Nicodemos, suspeitando que existem outros malfeitores em companhia de Ademir, solicitou o envio de cães amestrados da Polícia Militar. Seis cães, na tarde de ontem mesmo, foram levados para o local da caçada humana”.

Primeira nomeação ocorreu em 1938
Galeno Nicodemos Braga ingressou na atividade policial como delegado em Caiapônia, a antiga Rio Bonito. “Fui nomeado em 1938 por Pedro Ludovico Teixeira”, lembra, sobre o então interventor de Goiás. Depois, foi nomeado delegado em Trindade e chegou a Goiânia nos anos 1950 onde continuou atuando como investigador e detetive inspetor, cargos mais tarde extintos. Durante muitos anos integrou a equipe da então Delegacia de Vigilância e Capturas. Em 1965, durante a festa do Divino Pai Eterno, em Trindade, ele viveu o que considera o momento mais crucial de sua carreira. “Entrei numa luta para defender um colega, fui esfaqueado e ao atirar acabei matando um rapaz.” O jovem, um menor de 16 anos, era o ajudante de padeiro Alicio da Silva Araújo, que morava em Goiânia, mas tinha ido a Trindade participar da festa. O caso foi muito comentado e noticiado na época.

O episódio o deixou em coma no Hospital Santa Helena, mas ele reagiu para se tornar um dos nomes mais emblemáticos no combate ao que ele chama de “subversivos” durante o regime militar. Em janeiro de 1967, foi um dos diplomados no curso de detetives, inspetores de trânsito e guardas civis de primeira categoria da Escola de Polícia. Oficialmente, nos anais da Polícia Civil goiana, data de 10 de maio de 1968 a inscrição dele na corporação.

Galeno Nicodemos foi um dos agentes mais ativos da extinta Delegacia de Crimes Diversos da Divisão de Investigações Criminais (DIC), hoje DEIC, sob o comando de delegados como capitão Nenzinho, Abdul Hamid Sebba, Durval Leite de Santana, João Natal de Almeida, Célio Tristão, entre outros.

Em 1976, foi o chefe da equipe de agentes policiais que fez em Morrinhos uma caçada a um maníaco que matou um motorista de táxi, atirou numa garota de 10 anos e espancou uma idosa. O caso também chamou a atenção pela extensão da tragédia e virou manchete de jornal.

A aposentadoria chegou em 25 de abril de 1985, mas o Inspetor Galeno fez vistas grossas para o papel. Nesses quase 30 anos, ele não deixou de ir à delegacia em nenhum dia de expediente. Até os 90 anos, mesmo aposentado, participou de diligências com colegas da DEIC.

Fonte: Malu Longo / Jornal O Popular
Foto: Benedito Braga e Diomício Gomes