Na cadeia: Presa quadrilha responsável por arrastões em bairros nobres de Goiânia

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Preso acusado por arrastões em bairros nobres de Goiânia

A aparência tranquila do jovem que acabou de completar 18 anos (fez aniversário há um mês) contrasta com a violência da declaração, feita sem constrangimento: “Roubei para comprar armas e matar seis lá no Madre Germana”. Pedro Henrique Vieira de Oliveira, de 18 anos, foi preso ontem, com outros três comparsas, acusados de promover arrastões em bares e restaurantes de Goiânia. Ele admitiu um dos crimes, no restaurante japonês no Setor Bueno, mas negou os demais. A Polícia Civil, no entanto, acredita que o grupo foi responsável por pelo menos quatro arrastões em Goiânia.

A naturalidade com que Pedro Henrique fala dos homicídios planejados dá pistas importantes sobre a insegurança no Estado. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado ontem pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostra aumento em todos os indicadores de violência em Goiás, com exceção dos homicídios dolosos, que teve redução de um caso em 2011 em relação ao ano passado.

O secretário de Segurança Pública, Joaquim Mesquita, não se manifestou sobre os números, porque está na África do Sul. Ele viajou na quinta-feira, quatro dias depois de tomar posse. A secretaria informou que a viagem já estava agendada antes do convite para assumir a pasta (veja reportagem na página 5).Segundo a Polícia Civil, Mesquita acompanhou toda a operação para a prisão da quadrilha dos arrastões por telefone.

As imagens da quadrilha de assaltantes no restaurante japonês, no Setor Bueno, durante arrastão promovido no fim de outubro, amplamente divulgadas, foram fundamentais para identificar o grupo, formado por dois maiores e dois adolescentes. As prisões foram feitas numa parceria entre as Polícias Civil e Militar.

Elielson Alves de Oliveira, de 19 anos, foi preso na casa da namorada no Setor Recanto das Minas Gerais na noite de segunda-feira. Pedro Henrique Vieira de Oliveira, de 18, considerado o líder da quadrilha, e os dois adolescentes, de 16 e de 17 anos, foram detidos na manhã de ontem no Setor Faiçalville.

Durante a abordagem, o adolescente de 17 anos tentou reagir e acabou baleado na perna direita. Ele foi levado ao Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), onde foi atendido e levado para ser apreendido em flagrante com o colega pelos atos infracionais de formação de quadrilha e roubo, crimes em que Elielson e Pedro Henrique também foram autuados.

Elielson de Oliveira contou ao POPULAR que um familiar viu sua imagem na televisão e avisou a polícia. Com a repercussão do caso,

Arma apreendida com os bandidos

ele deixou sua casa no Setor Madre Germana e foi se refugiar na casa da namorada no Recanto das Minas Gerais. Com ele foi encontrado parte do produto do arrastão, como três relógios pertencentes a clientes.

O rapaz garantiu à polícia que o grupo participou apenas do arrastão no restaurante japonês, mas a polícia trabalha com a possibilidade de envolvimento da quadrilha em outras três ocorrências. Até agora foram oficialmente registradas na polícia somente quatro arrastões, segundo o delegado Germano César de Castro Melo, à frente das investigações pela Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic), apesar das sete ocorrências divulgadas.

                                                                       Rapaz diz que não houve preparação

Ex-motoboy, o franzino e tranquilo Elielson Alves de Oliveira, de 19 anos, contou à polícia que não houve uma preparação prévia para o arrastão no restaurante japonês. Ele chegou a sorrir na Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic) quando foi questionado se a inspiração veio das ações similares na capital paulista. “Não teve isso. A gente se encontrou num posto de gasolina e decidimos assaltar porque tava precisando. Saímos caçando (sic) um lugar”, afirmou.

“A intenção deles era roubar somente o caixa, mas como perceberam que havia muita gente e o ambiente estava tranquilo, assaltaram também os clientes”, explicou o delegado Germano de Castro, sobre o restaurante japonês. Depois de repartir o dinheiro – R$ 500 para cada um – sem contar as joias e relógios, os assaltantes foram comemorar numa lanchonete de um shopping e postaram na internet as imagens da farra.

As duas armas usadas na ação, segundo ele, pertenciam aos dois adolescentes. Era um revólver calibre 32 e uma pistola de brinquedo. Para um dos policiais militares que atuaram na prisão de Elielson, a participação da família nesse caso foi de extrema importância. “Isso demonstra a importância de o empresário investir num bom equipamento de câmeras para monitorar seu estabelecimento. O grupo foi rapidamente reconhecido”. Comandante do Policiamento da Capital (CPC), o tenente-coronel Márcio Queiroz informou que o trabalho de monitoramento intensivo de bares e restaurantes vai continuar porque há indícios de participação de outra quadrilha nos arrastões.

Para o delegado Germano de Castro, a ação do grupo já detido mostra um certo grau de amadorismo, mas também de frieza e ousadia. “Um indivíduo que se propõe a pegar numa arma de fogo e entrar num ambiente desses sabe que pode encontrar pela frente um policial à paisana ou mesmo uma vítima armada”.

O delegado afirma que o grupo é responsável pelos arrastões registrados nos últimos dias. A informação do delegado é refutada por Pedro Henrique Vieira de Oliveira, de 18. A Secretaria de Segurança Pública e Justiça informou que as Polícias Civil e Militar continuam a investigar outras quadrilhas.

Um jovem calmo, que alega não ter tido oportunidades melhores na vida, Pedro Henrique, de 18 anos, fez o primeiro roubo aos 14 anos. Alega que tudo aconteceu por influência de um amigo no Setor Madre Germana. Foi por causa de uma rixa entre jovens do setor, que, segundo ele, juntou-se com três amigos e assaltaram um restaurante na Avenida T-4, há uma semana. Segundo ele, com o “lucro” do roubo, compraram duas pistolas e roupas. As armas seriam utilizadas para matar 6 pessoas no Madre Germana.

Você que lidera o grupo que estava fazendo arrastões em bares e restaurantes de Goiânia?
Não. Só assaltamos o restaurante japonês porque a gente estava precisando comprar umas pistolas. Não lidero nada. A ideia foi nossa porque precisávamos de dinheiro. Só isso. A gente ia roubar só o restaurante, mas acabamos assaltando também os clientes. Deu 500 reais para cada um e com as joias que roubamos compramos uma pistola 9 milímetros e outra de calibre 380.

E as armas usadas no assalto?
Usamos um revólver calibre 32 velho e uma pistola de brinquedo.

Vocês estavam em algum carro no dia do assalto?
Estávamos no Polo de um amigo, o Capelão, lá do Setor Garavelo. Ele nos emprestou de boa.

Porque queriam comprar armas? Para assaltar?
Não. Para matar seis caras lá do Madre Germana que nos ameaçam de morte. Há quatro meses, um deles matou um amigo que era como irmão para a gente. Dois caras do bairro resolveram ser os chefes do setor, mandar em tudo, inclusive no tráfico de drogas. Quem não concordou com isso virou inimigo deles. Foi o que aconteceu com a gente.

Você usa droga ou trafica?
Só fumo maconha e não tenho dívida nenhuma com esse povo. Eles nos ameaçaram de morte e resolvemos matá-los antes.

Você já matou antes?
Nunca. E depois do susto que passei hoje…

Que susto?
Meu amigo, companheiro desde criança, foi baleado na perna na hora que fomos presos. Eu já estava longe e voltei para socorrê-lo. Graças a Deus o tiro pegou na perna. Só de imaginar que ele poderia ter morrido eu arrepio inteiro. Quando o vi baleado chorei muito. Essa vida não compensa.

A Polícia Civil informou que você teve 16 passagens por atos infracionais quando ainda era adolescente. As passagens são por quais atos infracionais?
Tem esse tanto não. Foram três vezes. Duas por roubo e uma receptação.

Quantos anos você tinha quando foi apreendido pela primeira vez?
Eu tinha 14 anos e roubei uma moto com um amigo de infância que já era maior de idade. Ele foi preso e eu fui apreendido. Fiquei 44 dias internado no 7º Batalhão da Polícia Militar. Foi ruim demais. Aquilo lá é uma cadeia. Três meses depois que saí, estava sem dinheiro, meu pai estava viajando e roubei uma farmácia. Fui pego de novo. Depois, me pegaram por receptação de um celular roubado. Agora, um mês depois de completar os 18 anos, estou preso em flagrante por roubo e formação de quadrilha. Quero sair dessa vida.

Como pretende sair?
Estudei até o 1º ano do ensino médio. Quero terminar os estudos e ser engenheiro agrônomo. Mudar de vida mesmo.

Antes de voltar a roubar, você não estava trabalhando? Disse que é mecânico de motos…
Estava trabalhando em uma oficina, mas sai de lá há três semanas.

Você está arrependido?
Depois que balearam meu amigo eu vi o quanto essa vida é perigosa. Estou arrependido sim. Ele poderia ter morrido. Eu poderia ter morrido. Todos nós poderíamos estar mortos. Não quero isso mais para a minha vida.

 Fonte: O Popular
Texto: Malu Longo e Rosana Melo
Fotos: Diomício Gomes