Justiça: Preso um dos assassinos do Policial Oto Galvão. Crime foi comandado do presídio

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Marcos Paulo Martins, 23 anos, preso em Aparecida de Goiânia

O agente da Polícia Federal Oto Galvão, de 50 anos, assassinado na noite de sexta-feira, foi vítima de um crime que, apesar de combatido em diversas operações policiais, continua frequente em Goiás: o roubo de veículos por encomenda, comandado por presos do regime fechado, recolhidos na Penitenciária Odenir Guimarães, no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia.

As Polícias Civil e Federal identificaram o detento que, por meio de um telefone celular, coordenou o roubo ao GM Cruze. O nome dele não foi revelado para não que as investigações não sejam prejudicadas.

Nos últimos dois anos, pelo menos três ações desbarataram quadrilhas comandadas por reeducandos do sistema prisional, em Aparecida de Goiânia. Uma das principais foi a Operação Cadeia do Crime, deflagrada em julho de 2012 pelo Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO), após uma detalhada investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Ela aconteceu em conjunto com a Operação Guilhotina, realizada pela Polícia Civil. Ambas tratavam do combate ao crime organizado de roubo de veículos, mas com alvos diferentes. Juntas, elas executaram mais 80 mandados de prisão. No entanto, 37 criminosos já cumpriam pena em regime fechado.

Em julho de 2013, a Delegacia Estadual de Repressão a Furtos e Roubos de Veículos Automotores (DERFRVA) deflagrou a Operação Elo, semelhante às ações realizadas no ano anterior. Segundo o titular da especializada, Edson Carneiro, das cerca de 30 pessoas apontadas como integrantes do esquema, 17 estavam no complexo prisional. “Em outras investigações em andamento, escutas telefônicas feitas com autorização da justiça indicam que os criminosos continuam encomendando o roubo de carros de dentro do presídio”, afirma o delegado.

                                                                              Bloqueadores

Há mais de uma década, o POPULAR tem mostrado a questão do uso de celulares pelos detentos do sistema prisional de Goiás para cometer crimes. Em 2012, na época das operações Cadeia do Crime e Guilhotina, o governo prometeu diversas vezes acabar com o problema, por meio da instalação de bloqueadores do sinal telefônico. Um desses equipamentos é usado no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, mas logo após ter sido adquirido, se mostrou ineficiente. Agora, a Secretaria de Administração Penitenciária e Justiça (Sapejus) informa que há nova licitação para a compra de dois novos bloqueadores. “Acreditamos que a instalação aconteça em 60 dias”, afirmou o secretário Edemundo Dias.

Segundo o secretário, o processo de licitação teve início neste mês, com prazo de 30 dias para concluir a compra e depois mais 30 para a instalação. A Sapejus tem cerca de R$ 2 milhões para a aquisição dos dois equipamentos, um fixo e outro móvel.

O bloqueador fixo será instalado Complexo Prisional de Aparecida. Ele deverá impedir ligações de detentos do Presídio Odenir Guimarães (POG), Casa de Prisão Provisória (CPP), Presídio Feminino, Núcleo de Custódia e no semiaberto. Além da aquisição do equipamento, a Sapejus pretende firmar um contrato com uma empresa terceirizada para a manutenção do serviço. “Queremos seguir o modelo que está sendo usado no Presídio de Presidente Prudente, no interior paulista”, adiantou Edemundo.

Além do aparelho fixo, a licitação também pretende adquirir um bloqueador móvel, para ser usado tanto nas unidades da região metropolitana de Goiânia quando do interior do Estado. “Esse equipamento também identifica sinais de celulares em uso no local monitorado. Isso nos vai permitir operações de segurança”, diz o secretário.

Sobre o bloqueador instalado em 2012 no Complexo Prisional, Edemundo alega que o Estado foi “atropelado pela tecnologia”. Edemundo afirma que o equipamento em uso funciona em determinadas áreas do complexo prisional, mas existem pontos cegos, identificados pelos detentos.

Para barrar as ligações, a administração tentou por diversas vezes aumentar a potência do aparelho. Mas a medida acabou interferindo no sinal de telefonia móvel nos arredores do presídio. “Empresários da vizinhança reclamaram e tivemos de voltar atrás”, explicou.

Apesar de dizer que o uso de celulares por detentos é “um problema de todo o Brasil”, Edemundo Dias admite a parcela de culpa do Estado: “Estamos errados. Reconhecemos que temos de ser mais eficientes”.

Coordenador do Centro de Apoio Operacional (CAO) Criminal do MP-GO, o promotor Vinícius Marçal diz que desde 2012 acompanha a questão. “Isso precisa ser resolvido logo, pois é um absurdo prender quem já está preso. Se os bloqueadores funcionassem, não teria problema o aparelho entrar na cadeia, porque um celular sem sinal de telefonia não é nada. É só para usar joguinhos.”

                                                             Envolvidos no latrocínio foram presos                                                                 

I – Augusto César Florêncio de Jesus, 19 anos, serralheiro – Autor dos disparos que mataram o agente da Polícia Federal, morto durante a troca de tiros.

II – Marcos Paulo Martins de Jesus, 23 anos, serralheiro – Irmão de Augusto Florêncio e co-autor do crime, anunciou o assalto ao policial federal. Foi preso em uma casa, no Conjunto Liberdade, em Aparecida de Goiânia.

III –  Rafael Félix da Silva Cardoso dos Santos, 29 anos – Dono do Corsa Wind verde, usado pelo grupo para procurar o GM Cruze que seria roubado na noite de sexta-feira.

IV –  José Madaleno de Jesus – Pai de Augusto Florêncio e de Marcos Paulo, foi preso em Uberlândia (MG), de posse do revólver calibre 38 usado para matar Oto Galvão.

VI –  Raimundo Nonato Ribeiro da Silva – amigo de José Madaleno, também foi preso e autuado em flagrante por porte ilegal de arma, em Uberlândia (MG).

Um dos autores do latrocínio que vitimou o policial federal Oto Galvão, de 50 anos, o serralheiro Marcos Paulo Martins de Jesus, de 23 anos, foi preso na noite de segunda-feira, escondido na casa de amigos, no Conjunto Liberdade, em Aparecida de Goiânia. O agente morreu na noite de sexta-feira, durante uma tentativa de assalto, no Setor Sul.

Marcos Paulo foi apresentado na manhã de ontem, na Delegacia Estadual de Investigações de Homicídios (DIH), na Cidade Jardim. A prisão dele é resultado de uma ação da qual participaram várias equipes das Polícias Civil, Militar e Federal. O suspeito é irmão de Augusto César Florêncio de Jesus, de 19 anos, autor dos disparos que mataram o agente da PF. Augusto Florêncio morreu no momento do crime, durante a troca de tiros com o policial federal.

Segundo informações do delegado Breynner Vasconscelos Cursino, adjunto da DIH e chefe do Grupo de Investigações de Latrocínio da Polícia Civil, além dos dois irmãos também participou do crime Rafael Félix da Silva Cardoso dos Santos, de 29 anos, proprietário do Corsa Wind verde, placa JXM-0410. Foi neste carro que os três suspeitos saíram na noite de sexta-feira à procura de um GM Cruze encomendado pelo reeducando. Durante o trajeto, os três se depararam com o automóvel no qual Oto Galvão estava à espera da mulher, na porta de um cursinho, na Rua 86, e cometeram o crime.

Breynner Cursino informou que Rafael Félix ficou dentro do Corsa alguns metros adiante, dando cobertura ao assalto e preparado para dar fuga aos comparsas. Quando ouviu os tiros, saiu do local, dirigindo o veículo. Ao constatar que o agente da PF e o irmão haviam morrido, Marcos Paulo fugiu a pé. O delegado declarou que ele inicialmente foi até a empresa de construção onde prestava serviços, no Setor Leste Universitário, e de lá até a casa no Conjunto Liberdade, onde acabou preso.

O Corsa Wind foi apreendido pela polícia na noite de segunda-feira, em uma Chácara em Senador Canedo. As investigações realizadas até agora apontam que Rafael Félix teria fugido para São Domingos e, de lá escapado para Alto Paraíso de Goiás, ambos municípios localizados na Região Nordeste do Estado.

                                                                            Arma raspada

Oto Galvão foi atingido por três disparos, um deles na cabeça. A arma usada no crime, um revólver calibre 38, foi apreendido pela Polícia Federal em poder do pai de Marcos Paulo e de Augusto Florêncio, o também serralheiro José Madaleno de Jesus. Ele e um amigo, Raimundo Nonato Ribeiro da Silva, foram presos em Uberlândia (MG) e autuados em flagrante por porte ilegal de arma. O revólver, conforme informou o delegado regional de Combate ao Crime Organizado da PF em Goiás, Rodrigo de Lucca Jardim, está com a numeração raspada.

José Madaleno e os dois filhos moravam em Uberlândia, mas todos os meses vinham para Goiânia, onde prestavam serviço na empresa no Setor Leste Universitário. Quando ocorreu o crime, ele foi até a Rua 86, conversou com os policiais e comprometeu-se a colaborar com as investigações. Mas, tão logo saiu do local, pegou a arma que estava com o filho e viajou para Uberlândia na tentativa de escondê-la.

O GM Cruze pertencente a Oto Galvão seria o primeiro carro tomado em assalto pelos dois irmãos sob o comando de um presidiário do qual a Polícia Civil tem conhecimento. Augusto Florêncio, entretanto, tinha passagens por roubo e por tráfico de drogas. Já Marcos Paulo tem passagens por ameaças.

                                                                   O carro da vez na mira dos assaltantes

Na última sexta-feira, mesmo dia em que o policial federal Oto Galvão foi morto, o jornalista e perito criminal Antenor Pinheiro teve o carro, um GM Cruze, roubado. O crime aconteceu por volta das 12 horas, na Avenida Itália, no Jardim Europa. “Parei sob uma árvore para atender ao celular e abri a janela. Dois homens se aproximaram e um deles colocou o revólver na minha cabeça. Eu desci e eles levaram a minha carteira e o carro”, diz Antenor. Ele não reagiu.

Titular da Delegacia Estadual de Repressão a Furtos e Roubos de Veículos Automotores (DERFRVA), Edson Carneira confirma que o Cruze tem sido um alvo frequente dos assaltantes: “De dois meses para cá, está entre os mais visados”.

Fonte: O Popular
Texto: Gabriela Lima e Maria José Silva
Foto: O Popular