Paciente relata horrores em clínica de recuperação fechada pela Polícia Civil em Anápolis

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Local os “recuperandos” ficavam isolados de castigo na clínica

Um dependente químico de uma das clínicas fechadas pela Polícia Civil, em Anápolis, a 55 quilômetros de Goiânia, relatou os horrores pelos quais passou dentro da instituição irregular. “Eu tive a mandíbula quebrada. Eles me bateram e me torturaram dentro do banheiro, na tal da triagem que eles falam. Ele colocou a espingarda na minha cabeça”, disse o homem, que preferiu não ser identificado. Ele é uma das mais de 60 pessoas mantidas em cárcere privado libertadas pela Operação Resgate.

Deflagrada na manhã de terça-feira (11), a ação fechou duas clínicas irregulares de recuperação de dependentes químicos. Segundo a polícia, as instituições cobravam R$ 8 mil por interno, mas em vez do acompanhamento psicológico prometido às famílias, dopava e torturava os pacientes.  Em cenas gravadas por um agente disfarçado, um dos coordenadores do grupo conta como fazia a internação involuntária das vítimas

Seis pessoas acabaram presas, entre elas um médico, apontado como um dos proprietários. Eles foram autuados em flagrante por cárcere privado, sequestro qualificado e tortura. Três envolvidos conseguiram fugir. Segundo o delegado Manoel Vanderic, responsável pela ação, os internos viviam em condições sub-humanas. Dormiam em colchões esparramados no chão, em alojamentos sem armários, com janelas sem vidros.

Comida estragada

Nas duas clínicas, a Polícia Civil encontrou alimentos estragados que eram servidos aos pacientes. Eles bebiam água da torneira, comiam feijão de má qualidade e verduras apodrecidas. Outro interno que estava no local há três meses para se livrar da dependência química reclama: “Às vezes comia só arroz e feijão, um pedacinho de carne só e não tinha mais nada. Eles eram maus aqui”.

Algumas vítimas apresentam marcas da tortura pelo corpo. “Internos contam que foram enterrados vivos, só com a cabeça de fora. Outros foram obrigados a comer toco de cigarro. Algumas mulheres disseram que foram algemadas nuas na cerca, outras, jogadas na piscina de madrugada”, detalha Vanderic.

Durante a operação, a polícia apreendeu armas de choque, armas de pressão, algemas e vários medicamentos tarja preta. “São instituições totalmente irregulares, sem autorização da prefeitura, da vigilância sanitária ou do Ministério Público para funcionar”, diz o delegado.

Vídeo

A Polícia Civil começou a investigar uma das clínicas, no Bairro Arco Verde, há três meses, depois que dois internos conseguiram fugir e denunciaram os maus tratos. Um agente se passou por familiar de um dependente químico que buscava tratamento para o parente. Com uma câmera escondida, ele gravou o suposto coordenador do local explicando como o grupo atuava para internar uma pessoa contra a vontade dela.

O suposto coordenador fala de um “remedinho”, que segundo a polícia seria sedativo dado para dormir. “Bota no carro dormindo, bate na porta e nós botamos ele para dentro”, detalha o homem. Questionado pelo policial disfarçado se tem funcionado, o coordenador ri. A instituição cobrava R$ 8 mil para o tratamento contra a dependência. No vídeo, o homem explica que divide o pagamento em 10 parcelas. Mas alerta que a “remoção”, quando uma pessoa era levada à força, seria cobrada separadamente.

“Agora, é o que eu falei para você, quando a gente sai daqui para fazer o resgate dele, isso aí é pago à parte, porque é outra equipe que faz”, explica o homem que aparece de óculos no vídeo. Vanderic afirma que apenas 10% dos pacientes falam que estavam lá voluntariamente. “Há uma legislação desde 2001 que regulamenta essa questão da internação involuntária e nenhum dos requisitos foram preenchidos”, esclarece Vanderic.

Fonte: G1/GO