A violência contra a mulher e o transtorno do Estresse Pós-Traumático

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“Lugar de mulher é na cozinha”, “mulher não sabe dirigir”, “mulher não pode beber”. Frases como essas infelizmente são conhecidas por todos e representam uma parte de um problema global: a violência contra a mulher. Não somente através de falas maliciosas, mas o desrespeito também se manifesta por agressões físicas, sexuais e psicológicas. As vítimas podem ser de qualquer classe social, nível educacional, religião ou idade, basta ser mulher para ser uma potencial vítima.

O Instituto Maria da Penha é referência no país em ações combativas a violência com recorte de gênero. A lei de mesmo nome desde 2006 criminaliza os agressores e garante métodos de proteção para as mulheres violentadas. A violência contra a mulher, porém, não se discute apenas na esfera criminal, mas também no âmbito da saúde pública. Em 2013 a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou como pandemia a agressão à mulher. Assim como a COVID-19, a pandemia da violência contra a mulher também apresenta sequelas individuais e sociais.

A violência direcionada ao feminino em suas variadas possibilidades (física, verbal, sexual, psicológica ou moral) dentro das relações avança em frequência e intensidade. Parceiros abusivos anulam a autonomia feminina e difamam sua imagem através desses atos.

A agressão de qualquer natureza é um possível evento traumático e, portanto, pode desencadear o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) na vítima. Esse transtorno é, conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), diagnosticado caso as lembranças traumáticas ocorram até seis meses após o evento traumático, com duração de pelo menos um mês.

Conforme a psicóloga Paula Ventura, no livro Psicoeducação em Terapia Cognitivo-Comportamental (2019), a pessoa diagnosticada com TEPT apresenta sintomas como a reexperimentação do trauma, pois o momento estressante é repetidamente revivido nos pensamentos da vítima que não os controla e é incapaz de afastar as memórias pregressas. Outra manifestação é a evitação de elementos relacionados ao trauma: em busca de fugir dos sentimentos malquistos é comum o bloqueio de situações que lembrem o ocorrido. Além disso, a pessoa com TEPT pode permanecer em um estado de entorpecimento emocional e desinteresse generalizado, por outro lado o corpo fica em constante estado de alerta e nervosismo.

Um estudo realizado por Rilzeli Maria Gomes aponta que a violência psicológica frequente e intensa característica de relacionamentos abusivos propicia sintomas como baixa autoestima, depressão, desesperança, ansiedade, perda de memória e abuso de substâncias. Estudos recentes na área da psicologia clínica investigam estratégias de enfrentamento para o sofrimento psíquico gerado nas vítimas.

A naturalização dessa violência é resultado de uma construção histórica e social de desrespeito à figura feminina. O ciclo vicioso da sociedade em que estamos inseridos só terá fim com a ruptura da tolerância com a violência. O apoio à mulher é essencial para que resultados mais trágicos sejam impedidos, é preciso denunciar toda e qualquer violência percebida!

Responsável técnica: Aline Resende (Coordenadora do Serviço de Psicologia da DPSS)
Produzido por: Gabriela Radaelli (Estagiária de Psicologia da DPSS)

Fontes:
BERNARDO, André. Violência doméstica contra a mulher: um problema de saúde pública. Veja Saúde. Disponível em:
https://saude.abril.com.br/blog/saude-e-pop/violencia-domestica-contra-a-mulher-um-problema-de-saude-publica/ Acesso em 22 Dez 2020

CARVALHO, Marcele Regina de, MALAGRIS, Lucia Emmanoel Novaes. RANGÉ, Bernard P. VENTURA, Paula. Transtorno de Estresse Pós-Traumático. In: Psicoeducação em Terapia Cognitivo Comportamental. Editora Sinopsys. 2019

GOMES, Rilzeli Maria. MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO: UM ENFOQUE COGNITIVO COMPORTAMENTAL. Revista de Psicologia da IMED, vol. 4, n. 2, p. 672-680, 2012.

SOBOLH, Telma. Violência contra a mulher: a pandemia que não cessa. Veja Saúde. Disponível em: https://saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/violencia-contra-a-mulher-a-pandemia-que-nao-cessa/ Acesso em 22 Dez 2020